O retiro dos líderes europeus no Castelo de Alden Biesen (Bélgica), em 12 de fevereiro, mostrou que estão convencidos de que a União Europeia se aproxima do precipício. O acontecimento reproduz o comportamento usual da UE: chega tarde e a más horas, num latir esganiçado que não amedronta nem convence.
O diagnóstico que convocou o retiro existencial não é de agora. Os relatórios Letta e Draghi (ambos de 2024) identificaram as doenças que podem condenar a UE à irrelevância e propuseram medidas para a extrair da decadência prometida. O diagnóstico já fora feito por académicos que puseram o dedo na ferida: a UE está emparedada entre a maior competitividade dos EUA e da China, por um lado, e a intensa atividade vulcânica no plano geopolítico, resultante da beligerância da Rússia e da marcha-atrás que a Administração Trump engatou na aliança transatlântica.
A UE precisa de mudar de vida. Todos os fatores conspiram contra ela. Mas esta é uma Europa que definha, agarrada à ilusão de um soft power que é letra morta no contexto de relações diplomáticas subordinadas à força das armas e à razão da força. Os desafios que pesam sobre a UE são existenciais. Não devem ser encarados de ânimo leve. Um ânimo leve condizente com a lógica de mínimo denominador comum, quando os Estados-membros preferem os egoísmos nacionais e não conseguem ver além do paroquialismo nacional.
Se a Europa não se desembaraçar do défice de competitividade, arrisca-se a ficar irremediavelmente para trás. Quanto mais demorar a reagir, mais difícil será recuperar a distância que a separa dos EUA e da China. Se não interiorizar que não pode contar com os EUA apostados numa política externa errática e com um líder que não verte lágrimas (sequer de crocodilo) se a aliança de defesa for sepultada, arrisca-se a ser ainda mais irrelevante no plano internacional e vulnerável internamente.
Neste momento, o que define o desafio existencial da Europa é perder a batalha da competitividade, não o seu nanismo político no palco internacional. Continuar a ficar para trás em relação à China e aos EUA condena os países europeus a definharem. As perdas de bem-estar dos cidadãos europeus serão anotadas num livro de atas que, mais tarde, poderá servir de argumento para partidos populistas de diferentes extrações (todos eles antieuropeístas) chegarem ao poder e somarem outra ameaça existencial à UE.
Para a UE, é menos custoso conviver com a perda de influência internacional. O pós-Segunda Guerra Mundial ditou uma mudança das placas tectónicas das Relações Internacionais. Aí começou a decadência internacional da Europa. A recuperação de uma modesta parcela de influência no plano internacional não é do interesse dos europeus e não justifica que mobilizem esforços nesta área. Num plano diferente situa-se a autonomia militar da União. Não podendo contar com os EUA por causa do comportamento errático de Trump, a UE terá de fazer pela vida. A negligência dos EUA pode ser a oportunidade para a UE cuidar da sua defesa. Levará tempo, mas é preciso começar e o mais depressa possível.
O que se sabe da reunião do Castelo de Alden Biesen é muito pouco para atender à exigência de adaptação da UE ao tempo que lhe foge entre os dedos. A ideia de “um mercado”, oferecido como passo em frente a partir do mercado interno, para completar a integração necessária que amorteça as restrições que impedem o mercado europeu de ser considerado um só, é redundante e lateral. Em segundo lugar, foram prometidas a simplificação dos quadros regulatórios e a redução dos preços da energia. Por fim, a UE propõe uma política comercial ambiciosa e pragmática. Segundo os líderes europeus, espera-se que estas medidas ajudem a reduzir o diferencial de competitividade da economia europeia em relação aos EUA e à China.
Os relatórios Letta e Draghi foram mais ambiciosos. Os países da UE continuam a manter uma cortina de silêncio sobre estes relatórios. Existem, mas é como se tivessem sido encomendados apenas como objetos ornamentais. É compreensível: o Relatório Draghi propunha a emissão de dívida pública conjunta para financiar as exigentes necessidades de investimento, para a UE não ficar hipotecada pelas suas vulnerabilidades (competitividade; geopolíticas; dependências de abastecimento de energia e concentração das importações em poucos, e pouco amigáveis, países). Depois da dívida pública conjunta durante a pandemia (uma exceção), os Estados-travão ditaram o regresso ao velho normal.
Do retiro no Castelo de Alden Biesen também veio o anúncio de que este modesto avanço poderá ser feito no contexto de uma Europa a duas velocidades. Os promotores já foram avisando os Estados-membros que não aceitem este roteiro: os que tomaram a liderança não ficarão à sua espera. Eis o bluff de um jogador decadente que poucos levam a sério. Por um lado, parece que a Europa vai dar um passo de gigante (que não é) para prevenir a hipótese de alguns países não quererem alinhar na aventura (que não é). Por outro lado, os países que mais se opõem ao aprofundamento da UE não têm interesse em ficar para trás neste projeto homeopático de recuperação da competitividade.
O ultimato é um ato de coragem dissimulada que serve os propósitos pessoais de líderes carentes de popularidade, pois a retórica musculada cai sempre bem entre aqueles (cada vez mais numerosos) que aplaudem políticas com esteróides. Mas este é um ato de amesquinhamento dos países que não contribuíram mais ativamente para o deslaçar dos impasses, que agora são colocados na situação de alinharem ou alinharem.
A ideia de UE a duas velocidades não passa de uma ameaça e representa a confirmação (caso dúvidas houvesse) de que há países de primeira e de segunda. Prever uma Europa a duas velocidades num contexto que exige uma Europa unida e coesa é um começo manco da corrida à competitividade. O retiro no castelo saldou-se por uma distração, omitindo as medidas mais ousadas de que a Europa precisa para fugir do precipício. Draghi e Letta ainda são letras mortas.
O autor escreve segundo o acordo ortográfico de 1990
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