“A Europa woke não está perante o apagamento civilizacional”, disse Kallas

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Coube à alta representante da União Europeia para a Política Externa, Kaja Kallas, responder directamente ao discurso do secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, um dia antes na Conferência de Segurança de Munique, negando aqueles que decretaram a morte da civilização europeia.

Foi com o seu estilo habitualmente directo e pouco dado a gentilezas que Kallas usou o seu discurso no dia de encerramento da conferência de Munique para garantir que, “ao contrário do que alguns podem dizer, a Europa woke e decadente não está perante o apagamento civilizacional”.

Na verdade, continuou a chefe da diplomacia europeia, muitos outros países “querem juntar-se ao nosso clube, e não apenas outros europeus”, referindo-se ao Canadá.

O discurso de Kallas foi apenas a demonstração mais visível da atmosfera entre os dirigentes europeus na sequência da intervenção de Rubio. Apesar de ter usado um tom menos crispado do que outros membros da Administração de Donald Trump – destacando-se o vice-presidente, J.D. Vance, que há um ano fez um discurso que chocou os aliados –, as palavras do secretário de Estado repetiram as ideias principais que têm guiado a Casa Branca.

Ao longo do último ano, as relações entre a Europa e os EUA atravessaram o período mais conturbado das últimas décadas. As ambições territoriais de Trump em relação à Gronelândia, a ameaça de imposição de tarifas pesadas e a pressão imposta à Ucrânia, excluindo a Europa das negociações, deixaram marcas na aliança que muitos vêem como irreversíveis.

Rubio quis afastar a ideia de que a aliança transatlântica em vigor desde o fim da II Guerra Mundial esteja em risco de se desfazer, apresentando até os EUA como “filhos da Europa”. No entanto, não deixaram de estar presentes as críticas ao modelo económico, social e político europeu, nomeadamente às políticas de protecção ambiental e de acolhimento de migrantes, sempre apresentados como um risco de “apagamento civilizacional” – uma expressão aproveitada por Kallas.

A alta representante europeia para a Política Externa lamentou que os “ataques cerrados contra a Europa” estejam “muito em voga actualmente” e não escondeu o descontentamento com algumas das críticas vindas de Washington. “Sendo do país que está em segundo lugar no Índice de Liberdade de Imprensa, ouvir críticas em relação à liberdade de imprensa vindas do país que está no lugar 58 dessa lista é interessante”, afirmou.

Apesar do comentário ácido, Kallas quis sublinhar que a mensagem deixada por Rubio é de que “a América e a Europa estão interligadas”. “É também óbvio que não nos entendemos em todas as questões, e assim será no futuro, mas creio que podemos trabalhar a partir daqui”, acrescentou.

O tom apaziguador de Rubio foi bem recebido pelos aliados europeus, mas o conteúdo da mensagem continua a gerar preocupação. “Rubio é o melhor que podemos esperar da Administração [norte-americana]”, disse ao Financial Times um ministro europeu presente em Munique, sob anonimato. “Mas ele foi bastante claro de que, se a relação transatlântica não está quebrada, então está significativamente diferente daquilo a que estávamos acostumados”, acrescentou.

Ao Politico Europe, o Presidente finlandês, Alexander Stubb, um dos poucos líderes europeus que conseguiu cultivar uma boa relação com Trump, disse que o discurso de Rubio conseguiu “baixar a temperatura da relação transatlântica”, mas assumiu que “a política externa americana mudou”.

Numa intervenção num dos painéis da conferência, o ministro francês da Europa, Benjamin Haddad, defendeu que os líderes e dirigentes europeus não devem ficar “aliviados ou chocados com este ou aquele discurso”. “Penso que a pior lição que podemos tirar deste fim-de-semana é fixar-nos em algumas palavras de amor num discurso”, afirmou, apelando a uma maior autonomia da Europa, sobretudo na defesa e na competitividade económica.

Rubio não foi, porém, o único político norte-americano em Munique e a mensagem trazida pelo grupo de dirigentes dos dois partidos foi a de que a relação dos EUA com a Europa irá sobreviver à presidência de Trump.

“Se não houver mais nada que vos possa dizer hoje, [é que] Donald Trump é temporário, ele estará fora daqui a três anos”, disse o governador democrata da Califórnia, Gavin Newsom, num painel na sexta-feira.

O senador republicano Thom Tillis aconselhou os dirigentes europeus a não se deixarem apanhar pela “retórica da política americana”, enquanto a senadora democrata Jeanne Shaheen disse querer dar garantias do “quão importante são os aliados europeus” para os EUA.

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