A geografia não conta para os políticos

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A eleição de António José Seguro trouxe uma onda de otimismo aos portugueses com aspirações políticas nascidos para lá de Lisboa. Afinal, o país político dá espaço e premeia quem vem de outras paragens para lá da capital. Se esta admiração é já por si criticável pela acidez histórica queirosiana ou pessoana, certo é que é muito difícil os “sonhos de menino” singrarem naqueles que fazem o cursus honorium longe dos holofotes metropolitanos e cimentados, quer nos corredores das jotas, quer maquilhados nos camarins dos espaços televisivos.

O país ficou mais concentrado demograficamente — é evidente. Ainda assim, a aleatoriedade em certas distribuições — como sobredotados em qualquer campo artístico, científico ou político — não deveria ser posta em causa aprioristicamente. O problema na política, como na música ou no desporto, não é a aleatoriedade que decorre do local de nascimento daquela pessoa, com determinada carga genética e predisposição para talentos e competências. O problema advém do estiolamento dos canais que permitem que a tal predisposição de talentos e competências seja aproveitada pela comunidade. Se alguém nascer com um talento especial para o xadrez, mas só encontrar um tabuleiro, peças e um oponente formador de xadrez aos 20 anos, conviremos que “nasce” tardiamente para este desporto/jogo. O mesmo vale para os sobredotados do piano que só aos 30 põem as mãos num teclado.

São exemplos anedóticos estes para o leitor moderno, que sabe que, no país atual, é muito difícil que um miúdo não contate com o xadrez em qualquer município ou se aproxime de um instrumento musical em área geográfica próxima. Esse é um dos papéis da educação de base o de possibilitar a testagem precoce das competências que as dimensões posteriores do sistema educativo aprimorarão ao longo do processo de vida-aprendizagem.

Também hoje os parlamentos simulados que as escolas promovem, os espaços de debate comunitário que muitos órgãos de alcance regional desenvolvem de modo louvável, bem como o papel das juventudes partidárias (tantas vezes criticadas e caricaturizadas) ajudam a testar os dotes políticos de muitos cidadãos neófitos nestes assuntos e a desenvolver as respetivas competências.

O problema, mais uma vez, surge quando o objetivo é saltar para o campeonato dos grandes (valendo isso o que vale na dimensão do nosso país…). Aí, percebe-se que há círculos eleitorais cada vez menos representados nas esferas de decisão executiva do país e até mesmo na composição efetiva dos grupos parlamentares (descontamos aqui os que são cabeças-de-lista por afinidade de bisavós ou por laços afetivos de leituras do secundário).

De quem é a culpa? Da distribuição aleatória dos genes políticos? Ou da distribuição aleatória dos interesses políticos? Se outra questão é se o problema deveria sequer ser colocado (um político não deve ser alguém que decide pelo melhor de todos, e não só da sua paróquia?), a verdade é que, à medida que o PIB per capita real aumenta, aumenta também a concentração de políticos mais responsabilizados nas áreas do país mais produtivas. Com mais empresas, com mais empresários. Com mais empregos, e empregos qualificados.

No fundo, é a política a ser um reflexo do país económico, e não do país geográfico. E quando nos esquecemos da geografia, tendemos a pagar o preço desse esquecimento. Geralmente, um preço alto numa altura em que, como todos sentimos recentemente, ninguém espera.

O autor escreve segundo o acordo ortográfico de 1990

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