A guerra no Irão, uma agressão ilegal dos EUA e Israel, carece agora de uma estratégia de saída. Para tal, é precisa vontade política para retomar a diplomacia, voltar ao tema do acordo nuclear, às condições para levantar sanções e ao fomento de mudanças internas no Irão. Mas, antes de tudo, é urgente retomar a confiança para a negociação.
A guerra contra o Irão é mais uma demonstração de força por parte da Administração Trump. Apresentada como uma ação preventiva a uma ameaça nuclear iminente contra interesses americanos e israelitas, esta foi, sem margem para dúvidas, uma agressão injustificada à luz do direito internacional.
Condenar e considerar ilegal o ataque não significa que se legitime ou aprove o regime iraniano, responsável por décadas de repressão e violações dos direitos humanos. Mas a natureza do regime não justifica o argumento usado pelos EUA de que o objetivo era libertar o povo iraniano e não valida automaticamente a agressão unilateral, sem respaldo das Nações Unidas.
A narrativa beligerante de Trump contra o Irão já foi experimentada: Afeganistão, 2001, Iraque, 2023, Venezuela, janeiro de 2026. A questão é a quem serve essa retórica. Recorde-se que a suposta ameaça nuclear havia sido limitada pelo acordo nuclear de 2015, que estabeleceu limites verificáveis ao programa iraniano através de diplomacia multilateral. Acordo que foi ‘rasgado’ de forma unilateral precisamente por Trump em 2018.
Os motivos para esta guerra, que, entretanto, escalou e está a ter enorme impacto humano e económico à escala regional e global devem, pois, ser entendidos além das preocupações humanitárias. Incluem objetivos geopolíticos e geoestratégicos óbvios. E, sobretudo, de preservação do controlo da região por Israel, que historicamente vê o Irão como uma das suas maiores ameaças existenciais.
Na guerra, apesar da retórica de sucesso e força que tem sido repetida por Trump, os objetivos militares estão longe de ser alcançados e as perspetivas de fim são poucas. Contrariamente ao anúncio de que a guerra seria rápida, ela tem vindo a arrastar-se, denotando a subestimação da capacidade iraniana e uma evidente falta de estratégia de saída por parte dos EUA, o que compromete as possibilidades de paz.
O anúncio recente de uma proposta de 15 pontos apresentada pelos EUA ao Irão, visando essencialmente o desmantelamento da capacidade nuclear iraniana, teve uma resposta imediata de rejeição por parte do Irão. As condições exigidas são completamente irrealistas na medida em que a manutenção da capacidade nuclear é a única garantia de sobrevivência e de soberania para o regime iraniano, que dificilmente abdicará dela por imposição externa.
Além disso, a abertura de um processo negocial que permita um cessar-fogo como ponto de partida para um acordo está claramente limitada, porque tal exigiria confiança entre as partes, que não existe. Convém lembrar que os EUA iniciaram esta guerra no preciso momento em que decorriam negociações com o Irão.
Ainda assim, é importante sublinhar que as alternativas existem: regresso ao acordo nuclear, diplomacia multilateral, levantamento progressivo de sanções e esforços no sentido de promover espaço para uma mudança política a partir de dentro. Mas, para que sejam viáveis, estas opções requerem uma condição essencial e que, tal como aqui, quase sempre falta: a vontade política.
A paz, como a guerra, é sempre uma escolha política. Resta saber se e quando essa vontade se irá traduzir em condições para voltar à diplomacia e a objetivos que verdadeiramente se traduzam em perspetivas de estabilidade e paz reais para o povo iraniano.
A autora escreve segundo o acordo ortográfico de 1990
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