A guerra agrava as alterações climáticas de várias maneiras e vice-versa. Os custos humanos do ataque dos Estados Unidos (EUA) e de Israel ao Irão — as centenas de pessoas que morreram, incluindo mais de 100 meninas e professores mortos na escola primária — são uma tragédia. Os riscos económicos crescentes — cadeias de abastecimento interrompidas, aumento dos preços da energia, mercados de acções abalados — são sinistros.
O perigo de que esta guerra escolhida por dois Estados com armas nucleares se intensifique ainda mais, envolvendo potências da região e mais além, é alarmante. E entrelaçado em cada uma dessas preocupações está o facto de que a guerra moderna está intimamente ligada às alterações climáticas.
As ligações fluem em ambas as direcções. As guerras liberam quantidades gigantescas de emissões que aquecem o planeta: a guerra da Rússia na Ucrânia, por exemplo, gerou emissões equivalentes às emissões anuais da França. Essas emissões adicionais provocam calor mais mortal, secas, tempestades e outros impactos que destroem meios de subsistência, desestabilizam economias e estimulam a migração, tornando os conflitos armados mais prováveis.
As agências de inteligência britânicas MI5 e MI6 alertaram em Janeiro que as perturbações climáticas e a perda de biodiversidade, se não forem controladas, causarão “quebras nas colheitas, intensificação de desastres naturais e surtos de doenças infecciosas… Exacerbando conflitos existentes, iniciando novos e ameaçando a segurança e a prosperidade globais”.
O início de qualquer guerra é uma má notícia para o clima, assim como a eleição de políticos hostis às acções climáticas.
As implicações climáticas desta nova guerra não são o centro das atenções no momento, mas são um contexto essencial para compreender o que está em jogo. Numa época em que a civilização está a caminhar rapidamente para uma ruptura climática irreversível, ignorar as consequências climáticas da guerra entre três das forças armadas mais mortíferas da Terra seria uma negligência jornalística.
A guerra tem o efeito perverso, contudo, de empurrar a história do clima para o fim da agenda noticiosa. Os meios de comunicação são orientados por eventos, dando prioridade a desenvolvimentos urgentes e ameaças imediatas. E as guerras geram imagens poderosas e narrativas dramáticas, que alimentam o apetite do público por notícias (pelo menos nas fases iniciais de uma guerra).
Em contrapartida, as alterações climáticas desenrolam-se normalmente em escalas de tempo mais longas. Excepto durante desastres graves, como furacões ou incêndios florestais, a questão climática tende a carecer da urgência que atrai manchetes e aumenta o interesse do público.
Esta é uma guerra pelo petróleo? O facto de o Irão possuir a terceira maior reserva de petróleo do planeta inevitavelmente levanta a questão, assim como a longa história de conflitos entre os EUA e o Irão por essas reservas, incluindo a derrubada pela CIA de um líder democraticamente eleito que buscava nacionalizá-las [o primeiro-ministro Mohammad Mosaddegh, afastado num golpe de Estado em 1953 apoiado pela CIA].
Quando os EUA atacaram a Venezuela em Janeiro, o Presidente Donald Trump disse abertamente que queria obter o controlo das vastas reservas de petróleo daquele país. Agora, são necessárias mais reportagens para determinar o quanto o petróleo foi um factor na decisão de atacar o Irão.
O que está fora de discussão é que esta guerra não poderia ser travada sem petróleo. Os porta-aviões, os aviões a jacto e os inúmeros sistemas de apoio de que necessitam consomem quantidades imensas de combustíveis fósseis. Isso ajuda a explicar por que o Departamento de Defesa dos EUA é o maior emissor institucional de gases com efeito de estufa a nível global, como documenta Neta Crawford, professora da Universidade de Oxford, no seu livro The Pentagon, Climate Change, and War. Em conjunto, as forças armadas mundiais têm uma pegada de carbono anual maior do que todos os países do mundo, excepto três.
Dadas as imensas implicações desta guerra — para a emergência climática e muito mais —, a questão de determinar porque foi iniciada exige um exame minucioso, especialmente tendo em vista as mudanças bruscas nas justificações declaradas pela Administração Trump.
No prazo de 24 horas após os primeiros ataques, o The Washington Post citou quatro fontes do Governo Trump, afirmando que “as avaliações da inteligência dos EUA não viam nenhuma ameaça imediata” do Irão. No entanto, Trump optou por atacar, segundo o Post, “após um esforço de lobby de várias semanas” por parte de Israel, que vê o Irão como um inimigo acérrimo, e da Arábia Saudita, rival regional de longa data do Irão e também país petrolífero.
Tal como na maioria das guerras, o mesmo se passa com as alterações climáticas: os pobres e os inocentes são os que mais sofrem. As alterações climáticas não são periféricas, mas estão estruturalmente incorporadas na guerra moderna. Os jornalistas não podem cobrir de forma completa e justa uma guerra tão intensiva em carbono, desestabilizadora e com consequências tão graves se as suas dimensões climáticas forem tratadas como complementos opcionais em vez de factos essenciais.
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