A morte do ayatollah não faz a paz e a democracia

0
1

Israel e EUA atacaram o Irão no intervalo de negociações (que o mediador classificara como positivas), sem provas de que o país constituía um ameaça nuclear (que os bombardeamentos de Junho teriam eliminado de vez) e sem enquadramento legal (um grande contributo para destruir o direito internacional). Badr al Busaid, ministro das Relações Exteriores de Omã, mediador das negociações entre Washington e Teerão, observou que o ataque “não beneficia os interesses dos EUA nem a causa da paz mundial” e instou os norte-americanos a “não se deixarem arrastar mais: esta não é a sua guerra”. Esta é a guerra de Israel.

Israel não tem interesse em negociar a paz com iranianos ou palestinianos e sabota qualquer hipótese de isso acontecer. O que move Benjamin Netanyahu é a destruição do Irão e aliados. O primeiro-ministro israelita e o seu Governo messiânico convivem bem com a permanência da guerra.

Este ataque é da conveniência do primeiro-ministro israelita, na sua sistemática fuga para a frente, escapando ao escrutínio sobre as responsabilidades do 7 de Outubro de 2023: elimina a hierarquia do regime iraniano, prossegue a expansão dos colonatos ilegais, a anexação da Cisjordânia e a criminosa asfixia de Gaza.

Os EUA não tinham interesse particular em atacar o Irão, para além do historial de animosidade mútua, e Donald Trump não apresentou um argumento plausível para a agressão. Esta guerra que o Presidente dos EUA diz que vai durar quatro semanas não teve início para defender os direitos das mulheres, exterminar um regime repressivo ou instaurar uma democracia. Não é isso que move o presidente vitalício do Conselho da Paz. Se fosse essa a razão, Trump teria fortes motivos para bombardear as monarquias do Golfo, a começar pela Arábia Saudita.

Trump já bombardeou seis países, perdeu qualquer credibilidade para encetar negociações de paz, que não são mais do que uma farsa que antecede um ataque militar, e a forma como encobre Israel é indesculpável. O homem que garantiu que não ia iniciar guerras acaba de dar início a uma, que tem condições para durar mais tempo do que ele pretenderia. Trump está enganado se as consequências deste ataque ficarem por aqui, só porque não foram enviadas tropas para o Irão, como no passado foram enviadas para o Afeganistão e o Iraque. A guerra não vai durar quatro semanas, por muito que isso fosse desejável para Trump, porque Netanyahu a vai querer prolongar e porque isso deixará a região convulsa.

A cúpula sinistra do regime iraniano tombou neste fim-de-semana. Mas é tudo menos claro que isso origine uma mudança de regime. A morte do ditador não é a morte da ditadura. A morte do ayatollah não faz a paz e a democracia. Não há uma Delcy Rodríguez em Teerão.

O ataque ao Irão pressupõe que alguém se rebele. Quem? Neste segundo mandato, Trump acabou com todas as ajudas a grupos de direitos humanos no Irão e a possibilidade de alimentar uma oposição política. Mesmo que o poder transite dos clérigos para os militares, nada muda de forma substancial, quer para os direitos das mulheres e de quem se opõe ao regime quer para a paz na região. Uma guerra civil no Irão lançaria o caos no Médio Oriente.

Depois disto, o Irão terá mais razões para obter a arma nuclear que o protegerá de novos ataques e o xiismo irá unir-se em eventuais ataques a alvos norte-americanos e europeus e a alvos das monarquias do Golfo, o que é um revés para quem quer ser destino turístico e uma estável praça financeira. É provável que o Presidente dos EUA se arrependa. Pela primeira vez nas sondagens deste teor, os norte-americanos simpatizam mais com a causa palestiniana do que com as pretensões israelitas e só um em cada quatro apoia os ataques à república islâmica.

Os europeus que andaram nestes últimos tempos a falar de autonomia estratégica têm aqui uma oportunidade para a porem em prática e mostrarem aos EUA que eles precisam das bases nos seus países para fazerem o que querem no resto do mundo. Claro que não foi isso que fez o Governo português. Não peçam a Paulo Rangel que faça política externa. O Governo português e o seu ministro dos Negócios Estrangeiros, com passividade e subserviência, estão a fazer jurisprudência. Facilmente nos esquecemos da Gronelândia e de como a subserviência a Trump não garante nada em troca.

Montenegro diz estar preocupado com os portugueses. Faz bem. Deveria explicar a todos eles o que é e para que serve o acordo da Base das Lajes. Rejeitar ser envolvido numa operação militar não abrangida pelo acordo não era uma manifestação de simpatia pela república dos ayatollah. Era só uma questão de dignidade.

Disclaimer : This story is auto aggregated by a computer programme and has not been created or edited by DOWNTHENEWS. Publisher: feeds.feedburner.com