A revolução silenciosa: pode a IA condenar a ciência portuguesa à irrelevância?

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Imagine um laboratório que nunca para, onde a revisão de mil artigos científicos é feita antes do pequeno almoço e onde demonstrações matemáticas complexas emergem em segundos. Não é ficção científica; é o presente da investigação assistida por agentes de inteligência artificial (IA). Este gigantesco aumento de produtividade na ciência vai trazer enormes benefícios para a humanidade.

Mas, para Portugal, esta aceleração tecnológica tem uma implicação importante: no mundo da ciência “aumentada”, o fosso entre os gigantes e os anões vai tornar-se um abismo.

O batalhão digital: o fim do “trabalho de formiga”

A imagem clássica do investigador rodeado de pilhas de papel com equações e tabelas está a desaparecer. Hoje, agentes de IA especializados funcionam como um batalhão invisível de assistentes de investigação. Estas ferramentas não se limitam a corrigir gramática.

Elas executam:

  • Revisões da literatura, cruzando enormes bases de dados (como o Semantic Scholar ou Web of Science) para identificar lacunas de conhecimento em minutos;
  • Demonstrações matemáticas, que já obtêm resultados novos;
  • Desenho experimental, para testar hipóteses em laboratório;
  • Efetuando as próprias experiências, através de robôs;
  • Análises estatísticas e visualizações, automatizando a estimação de modelos complexos com todo o tipo de dados e a geração de gráficos prontos para publicação em revistas científicas ou apresentação em conferências.
  • Gestão do processo de publicação: auxílio na avaliação de artigos e na resposta aos revisores (referees).

Onde um doutorando levava meses, a IA leva horas. O resultado? Um aumento sem precedentes na velocidade de produção de conhecimento.

O fenómeno “winner takes all

Na economia e na sociologia da ciência, conhecemos o “Efeito Mateus”: aos que têm muito, mais será dado. A IA vai atuar como um acelerador da desigualdade.

Os melhores cientistas do mundo podem agora escalar a sua intuição e criatividade com o apoio da IA. Se esta tecnologia permite que um prémio Nobel acompanhe hoje dez vezes mais projetos sem perda de rigor, então a atenção – e, inevitavelmente, o financiamento – tende a concentrar-se ainda mais nos mesmos nomes e centros de investigação. Assistimos, assim, à ampliação do processo de “winner takes all” (o vencedor leva tudo), onde uma fração mínima de investigadores passa a ser responsável pela esmagadora maioria do impacto científico global – um pouco como vemos na música, em que os artistas mais famosos capturam o mercado.

Dilema português: poucos atletas na Primeira Liga

Aqui reside o perigo para Portugal. Apesar do crescimento notável nas últimas décadas, o nosso país ainda tem uma presença modesta no topo dos rankings de citações e impacto.

Uma estatística cruel: no ranking de Highly Cited Researchers da Clarivate (2025), Portugal conta apenas com sete investigadores na lista dos mais influentes do mundo. Em comparação, países de dimensão semelhante ou vizinhos, como Holanda ou Espanha, apresentam números significativamente superiores (Espanha ultrapassa os 100, a Holanda, os 200).

Em 2025, o European Research Council (ERC) decidiu financiar cinco projetos de investigação em Portugal, num total de 426 bolsas atribuídas. Desde 2007, dos quase 18.000 projetos financiados pelo ERC, apenas 202 eram portugueses.

A escala do problema: se a IA permitir que os superstar scientists concentrem ainda mais o espaço de relevo, os cientistas portugueses – que já hoje têm menos impacto – arriscam-se a ver o seu trabalho diluído num oceano de publicações de alta qualidade provenientes dos grandes centros científicos globais.

Estratégias para uma ciência portuguesa competitiva

Para evitar a periferia irrelevante, Portugal precisa de uma política científica agressiva e adaptada à era da IA. Não se trata de dar mais computadores, mas de mudar a cultura, o financiamento – e os incentivos correspondentes – e a forma de fazer ciência.

Portugal deve garantir que todos os investigadores com capacidade científica comprovada tenham acesso a poder computacional de grande escala: modelos de IA para investigação (LLM, DNN, etc.) e poder de computação (GPU/TPU). Sem “combustível”, os nossos cientistas não podem mesmo competir.

As agências de financiamento (como a Fundação para a Ciência e a Tecnologia) devem incluir a formação em agentes de IA como competência base. A política de financiamento deve favorecer a formulação de problemas científicos relevantes, o conhecimento teórico sólido, o desenho experimental e a validação de resultados, em detrimento da execução técnica (que a IA já faz).

Se o modelo é de “winner takes all”, precisamos de atrair alguns desses vencedores. Políticas fiscais e de infraestruturas para atrair mais investigadores de topo (por exemplo, detentores de bolsas do ERC) que criem em Portugal centros de investigação assistida por IA são essenciais.

Reduzir drasticamente a burocracia administrativa através da própria IA no seio das universidades e centros de investigação, libertando o investigador para o que a máquina (ainda) não faz: ter ideias originais e disruptivas, validar e interpretar resultados.

A IA pode ser a maré que levanta todos os barcos ou o tsunami que afasta Portugal da costa do progresso científico. A escolha não depende da tecnologia, mas da coragem política de reformar o sistema científico antes que a elite global se torne inalcançável.

Os autores escrevem segundo o novo acordo ortográfico

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