Após um voo de reconhecimento sobre as zonas mais afectadas pelas tempestades que devastaram vastas áreas florestais do Centro do país, António Salgueiro, especialista em incêndios e colaborador da Agência para a Gestão Integrada de Fogos Rurais (AGIF), descreve um cenário de destruição sem precedentes. “Aquilo que nos preocupa é o perigo do incêndio florestal, com muitos milhões de árvores partidas e tombadas”, afirma, recordando a viagem a bordo de um avião da Força Aérea a 14 de Fevereiro.
Numa conversa lúcida e realista com o Azul, António Salgueiro reconhece as limitações da prevenção e detalha as áreas críticas, os riscos imediatos, as prioridades de intervenção e a urgência de preparar o país para um Verão que se antevê extremamente perigoso. É “completamente impossível” limpar tudo até ao Verão, admite.
O que viu no voo de reconhecimento?
Vimos aquilo de que já suspeitávamos: uma enorme extensão de floresta destruída, com muitas árvores partidas e tombadas. É um cenário que aumenta drasticamente o perigo de incêndio florestal.
Estamos a falar de milhões de árvores?
Sim, sem dúvida. São milhões de árvores no chão. Um hectare de eucalipto tem cerca de 2000 árvores; um de pinhal adulto, 300 a 400. A área afectada cobre centenas de milhares de hectares.
Hugo Picotez, Força Especial de Protecção Civil, a bordo do avião C295, Força Aérea Portuguesa
Quais foram as zonas mais críticas?
Uma das áreas mais marcantes foi a zona de Valados de Frades, no interior da Nazaré. Desde aí até alguns quilómetros a sul da Figueira da Foz, há uma faixa contínua de enorme destruição, que inclui também a Marinha Grande, Vieira de Leiria, Soure, S. Pedro de Moel e toda a faixa litoral adjacente.
E o Pinhal de Leiria?
O Pinhal de Leiria está dentro desta área crítica. As formações baixas resistiram melhor, mas as áreas que sobreviveram aos eventos de 2017 (tempestade Ophelia) e 2018 (tempestade Leslie) ficaram agora muito afectadas, sobretudo perto da Marinha Grande.
A destruição estende-se até à Serra da Estrela?
Não. Há árvores isoladas tombadas, mas a área gravemente afectada não chega tão longe.
Hugo Picotez, Força Especial de Protecção Civil, a bordo do avião C295, Força Aérea Portuguesa
O que é preciso fazer agora?
Retirar a madeira o mais depressa possível. Primeiro, porque tem valor económico e quanto mais rapidamente for tirada, mais valor tem; segundo, porque, se ficar no terreno, vai gerar uma explosão de pragas que matarão ainda mais árvores que ficaram de pé. Por outro lado, a madeira morta aumenta muito a intensidade potencial dos incêndios. Quanto mais matéria morta houver, maior a probabilidade de termos fogo com mais intensidade. Muitas das árvores partidas estão no chão. E isso aumenta o material fino que está disponível para arder de maneira exponencial.
Quanto combustível adicional existe agora no terreno?
Estima-se um aumento de 15 a 20 toneladas por hectare — mais 50% de carga combustível do que o normal.
É só a quantidade que representa perigo?
Não, é também a altura do combustível. Grandes copas partidas e tombadas criam camadas contínuas de material inflamável vários metros acima do solo. Nalguns casos, estamos a falar de árvores com copas de cinco metros, ou mais, que agora se deitaram no solo. São cinco metros de altura de material acima do solo pronto para arder.
Quais são as opções de intervenção?
Retirar madeira, triturar ou recorrer ao fogo controlado. A retirada é sempre a melhor opção, porque permite obter algum valor desta madeira para produção de biomassa ou pellets, mas isso não será possível em todo o lado.
É possível resolver isto antes do Verão?
Não. É completamente impossível devido à extensão e dispersão da área afectada. O que vamos ter de fazer rapidamente, mal tenhamos informação com mais detalhe, e trabalhando com os municípios, é identificar onde é que há problemas maiores, porque a perspectiva que tivemos do ar não nos permite ter o grau de detalhe de que precisamos.
Como vão priorizar as zonas de intervenção?
Com base na dimensão das manchas afectadas, na continuidade do combustível e na proximidade a áreas urbanas e empresariais. O Instituto de Conservação da Natureza tem, muito rapidamente também, que promover a recolha desta informação. Temos de ver onde há maior concentração de combustível e começar a priorizar pela dimensão das manchas: é nas maiores que é provável ter maiores incêndios. Outro critério é a proximidade das áreas empresariais, porque muitas vezes estão encostadas a espaços florestais.
Qual é a maior área afectada?
Provavelmente, o Pinhal de Leiria, em termos contínuos, especialmente a bolsa da Marinha Grande e de Leiria. O pinhal adulto partiu quase todo. Até porque aí temos outra coisa: todos estes pinheiros grandes estão cheios de sementes que podem melhorar as probabilidades da regeneração natural. Quanto mais depressa trabalharmos, maior a probabilidade de estas sementes produzirem novas plantas.
Hugo Picotez, Força Especial de Protecção Civil, a bordo do avião C295, Força Aérea Portuguesa
Quando gostaria de começar os trabalhos no terreno?
A intervenção directa deveria arrancar em Março. Era importantíssimo, até porque se trabalharmos com fogo controlado, tem que ser numa perspectiva diferente do fogo controlado tradicional.
Será diferente do habitual?
Sim. As intensidades serão muito superiores, devido à carga e altura do combustível.
Trabalho muito com fogo controlado em povoamentos, onde temos intensidades de fogo muito baixas, para não afectar as árvores. Nos matos é diferente e, agora, temos uma situação especial, pelo tal aumento da carga e da altura de combustíveis. Isto tem que ser planeado, se conseguirmos que o país aceite e se organize para avançar com as operações de fogo controlado. Mesmo escolhendo as condições meteorológicas mais favoráveis, para ter menos intensidade, terão que ser organizadas como reais operações de combate a incêndio.
Ou seja, tem que ser um fogo muito, muito mais controlado?
Exacto, temos que ter no terreno um dispositivo de combate robusto para que, se decidirmos parar, possamos intervir de forma muito mais musculada para o travar. O sistema, a protecção civil e outras entidades, tem de reconhecer que nestas operações de fogo controlado é preciso ter um dispositivo montado como se estivéssemos num incêndio.
Disse “se conseguirmos que o país aceite”? O que é que quer dizer com isso?
Porque o fogo controlado ainda é visto com desconfiança. Temos um conhecimento bastante bom e uma capacidade muito razoável para fogo controlado que não se tem visto nem tem tido os resultados que deveríamos ter, em termos de área tratada. Esta perspectiva tem de mudar. Depois, a partir do momento em que o fogo controlado ultrapassa uma determinada área delimitada, a área de contenção, o técnico é responsável por ter provocado quase um incêndio, podemos dizer assim.
Precisamos de uma regra de excepção que isente os técnicos dessa responsabilização, tendo em conta a gravidade da situação?
Sim, a legislação responsabiliza excessivamente o técnico, caso o fogo ultrapasse a área delimitada. É necessária uma regra excepcional. Isto já devia ter sido mudado, implica fazer mudanças importantes no Código Civil. Mas nesta circunstância temos mesmo que mudar. É claro que alguém é responsável, alguém credenciado, mas se o fogo passar dos limites, esse técnico não deve ser responsabilizado.
De qualquer forma, a primeira opção continua a ser retirar madeira?
Sim. Mas será preciso combinar as várias estratégias, a retirada, trituração e fogo controlado. Nunca há uma solução única e milagrosa. Para ter capacidade de reacção, apostamos nas zonas prioritárias, porque não vamos ter capacidade para tudo, nem pensar nisso. Temos muito pouco tempo, estamos quase em Março, temos três meses, até Maio, para intervir.
Hugo Picotez, Força Especial de Protecção Civil, a bordo do avião C295, Força Aérea Portuguesa
Como avalia o risco de incêndio neste momento?
Em termos de combustíveis, o risco de incêndio é assustador, extremamente preocupante. A meteorologia ainda nos protege por causa da água no solo, mas no Verão tudo dependerá das condições atmosféricas.
Não vamos ter seguramente um Verão fresco…
Não. É muito improvável.
Sabendo que será impossível limpar tudo, como devemos preparar-nos para este risco no Verão?
Será necessário um dispositivo muito preparado para ataques iniciais musculados, e controlar as ignições, em especial nos dias de maior risco. Com a carga de combustível que temos e se houver condições meteorológicas difíceis, teremos muitos momentos em que a zona principal de propagação de fogo, a ‘cabeça de incêndio’, será difícil ou impossível de controlar. Portanto, será preciso guardar forças para as áreas que é possível controlar. É muito isto, antecipação e priorização.
Está assustado com o Verão que aí vem?
Sim. Temos um clima propício a fogos e condições meteorológicas extremas cada vez mais frequentes. Agora somamos uma carga de combustível fora do comum.
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