Uma nova Presidência não é uma mera mudança de cadeiras no Palácio de Belém. Pode alterar o modo como o país olha para áreas estruturantes da sua vida colectiva – e o desporto é uma delas. Na próxima segunda-feira, Portugal inicia um novo ciclo institucional com a tomada de posse do Presidente da República. Cada início de mandato traz consigo expectativas renovadas. No que diz respeito ao desporto português, proporciona também uma oportunidade clara: inaugurar uma nova fase na relação entre a Presidência da República e o movimento desportivo nacional.
Durante a campanha presidencial, António José Seguro assumiu compromissos concretos perante a Confederação do Desporto de Portugal (CDP) e as federações desportivas. Fê-lo com clareza e com a consciência de que o desporto não é um tema acessório na vida colectiva do país.
O primeiro é presidir, anualmente, a uma cimeira de presidentes de federações desportivas, para ouvir de viva voz os anseios e os problemas reais de quem tem a responsabilidade máxima de desenvolver cada uma das modalidades no nosso país. Um exercício de escuta, conhecimento e compreensão da realidade para, através da sua magistratura de influência, sinalizar prioridades e apontar caminhos junto dos poderes públicos.
O segundo compromisso prende-se com a criação de critérios claros e transparentes para as condecorações atribuídas aos atletas portugueses. O reconhecimento público não pode ser episódico nem percepcionado como arbitrário. Deve reflectir mérito, impacto e percurso percorrido, valorizando o esforço de atletas, treinadores e dirigentes que elevam o nome de Portugal, independentemente da modalidade em questão. A institucionalização de critérios é a chave para a equidade da distinção.
A CDP saúda estes compromissos e regista com satisfação a intenção do recém-eleito Presidente da República em estar próximo do dia-a-dia dos agentes desportivos. Acreditamos que esta pode ser uma nova etapa de proximidade institucional, onde o desporto é tratado como prioridade estratégica e não apenas como celebração ocasional.
Naturalmente, há outras matérias, estruturais, que continuam a carecer de atenção política. O Governo apresentou um Plano Nacional de Desenvolvimento Desportivo, em linha com uma das prioridades apresentadas pela CDP e pelas Federações desportivas em Janeiro de 2024.
Se este Plano é importante? Sem dúvida. É fundamental que o país se dote de um instrumento estratégico que nos permita, com rigor, definir onde estamos, identificar fragilidades, estabelecer metas e, sobretudo, apontar para onde queremos ir e estar dentro de 12 anos. O desporto português precisa dessa visão de médio e longo prazo, ancorada em dados, objectivos mensuráveis e compromissos políticos claros.
Contudo, importa dizê-lo com frontalidade: o Plano agora apresentado não responde ainda, de forma plena, às exigências e propostas concretas apresentadas pelas Federações Desportivas.
Politicamente, continua a privilegiar-se o reforço do investimento público quase em exclusivo no projecto olímpico e paralímpico, concentrando recursos na preparação de atletas que já se encontram no topo. Quando o foco recai quase exclusivamente sobre a elite, corre-se o risco de negligenciar as bases que tornam possível o sucesso. Ao fazê-lo, descuram-se necessidades urgentes e estruturais no desenvolvimento das modalidades, há muito identificadas pelas Federações desportivas.
Desta forma, persistem as lacunas evidentes de investimento na base do sistema: no processo estruturado de detecção e acompanhamento de talentos; na profissionalização dos clubes e das associações regionais e territoriais; no robustecimento e alargamento dos quadros competitivos; na formação contínua de treinadores e árbitros/juízes; e no apoio consistente a atletas e selecções nacionais dos escalões de formação, para que possam competir internacionalmente ao mais alto nível.
O desenvolvimento desportivo é um processo longo e exigente. Exige estabilidade, previsibilidade e reforço efectivo das condições de investimento e de intervenção das Federações desportivas, enquanto entidades responsáveis pela organização, promoção e desenvolvimento das modalidades. Se queremos um desporto mais inclusivo, competitivo e sustentável, precisamos de uma política pública que equilibre a ambição “resultadista” para hoje, com a base estrutural e sustentável para amanhã.
Celebrar medalhas é essencial. Mas garantir que continuamos a tê-las daqui a 12 anos é uma responsabilidade ainda maior e de todos os agentes. A CDP assumirá as suas responsabilidades.
Disclaimer : This story is auto aggregated by a computer programme and has not been created or edited by DOWNTHENEWS. Publisher: feeds.feedburner.com



