As alterações climáticas estão a alterar as poeiras do Sara – e a Europa está na rota dos ventos

0
1

Nos últimos anos, os habitantes de Portugal e Espanha, França e Reino Unido têm olhado para o céu e deparado com um espectáculo inquietante: auroras de um cor de laranja intenso e uma neblina amarelada que pesa no ar. Estas brumas depositam frequentemente “chuva de sangue” — precipitação cor de ferrugem que deixa uma fina camada de pó nos carros e nas janelas.

Estes fenómenos são causados por colunas de poeira provenientes do deserto do Sara que percorrem milhares de quilómetros pelo Mediterrâneo. À medida que as alterações climáticas transformam o maior deserto do mundo, a Europa vê-se cada vez mais a sotavento de uma crise ambiental em mutação.

O Sara é responsável por mais de metade das emissões mundiais de poeira. Em condições de calor, secura e vento, as partículas são elevadas a vários quilómetros de altitude e transportadas através dos continentes. Embora a maior parte siga em direcção às Américas, uma parte move-se para norte, em direcção à Europa, sobretudo entre Fevereiro e Junho. Algumas dessas colunas — como a intensa Calima que por vezes cobre Espanha — já chegaram ao mar do Norte e à Escandinávia.

Dinâmica da poeira

A relação entre o aquecimento do planeta e a poeira é complexa.

Por um lado, o aumento das temperaturas resseca os solos e acelera a desertificação, facilitando a dispersão das partículas finas pelo vento. Em cenários de aquecimento extremo, a quantidade de poeira sariana lançada para a atmosfera poderá aumentar entre 40% e 60% até ao fim do século.

Contudo, a dinâmica da poeira no futuro depende também dos padrões de vento. Certas tempestades de areia e poeira do Sara tornaram-se, na verdade, menos frequentes e menos intensas nas últimas duas décadas.

Em parte, isso deve-se ao aumento da vegetação na região do Sahel, na fronteira sul do Sara, mas também ao enfraquecimento geral dos ventos de superfície e a mudanças em determinados padrões climáticos de grande escala.

Riscos para a saúde e consequências económicas

Para a Europa, o impacto não é apenas estético. A poeira sariana pode degradar significativamente a qualidade do ar, fazendo subir os níveis de partículas finas para além dos limites recomendados pelas directrizes de saúde. Estas partículas, conhecidas como PM10, podem penetrar profundamente nos pulmões, desencadeando crises de asma e problemas cardiovasculares.

Em Espanha e em Itália, estudos de modelação sugerem que a poeira sariana pode ser responsável por até 44% das mortes associadas à poluição por PM10.

A poeira acarreta ainda outros custos. Quando se deposita sobre a neve nos Alpes, por exemplo, escurece a superfície e reduz a sua capacidade de reflectir a luz solar, acelerando o degelo. Pode também diminuir a eficiência dos painéis solares e perturbar a aviação e o trânsito rodoviário ao reduzir a visibilidade.

O que fazer face à poeira

Responder a este problema transfronteiriço implica actuar tanto na origem como nas zonas afectadas. No Sara e nas suas margens, é fundamental evitar a perturbação dos solos intactos. O sobrepastoreio, a construção de barragens e o abandono das terras podem aumentar as emissões de poeira.

Para estabilizar o solo, as medidas incluem o restauro da vegetação, a manutenção dos caudais dos rios e a protecção da frágil “biocrosta” — composta por bactérias, musgos e outros organismos que consolidam os primeiros milímetros do solo desértico e formam um escudo natural contra a erosão eólica.

Na Europa, a prioridade é a preparação. Os sistemas de alerta precoce permitem já fazer previsões com até 15 dias de antecedência, possibilitando que as autoridades de saúde emitam alertas para que as pessoas mais vulneráveis fiquem em casa. Medidas simples, desde a melhoria da ventilação nos edifícios à criação de mais espaços verdes urbanos, podem igualmente reduzir a exposição.

Cooperação em várias dimensões

Nas próximas décadas, o “cinturão de poeira” sariano continuará a ser um indicador visível da saúde do nosso planeta. Mas a tecnologia e as previsões meteorológicas, por si só, não serão suficientes para resolver o problema.

A poeira não respeita fronteiras. A sua gestão exigirá uma cooperação internacional mais sólida sobre tudo, assim como acordos vinculativos, desde a gestão de bacias hidrográficas, para evitar que os leitos dos lagos sequem, até às respostas de saúde pública a nível europeu.

Sejam os céus alaranjados uma mera curiosidade ou uma presença cada vez mais habitual na vida europeia, os governos da Europa e de África têm de levar a sério este risco partilhado.

Disclaimer : This story is auto aggregated by a computer programme and has not been created or edited by DOWNTHENEWS. Publisher: feeds.feedburner.com