Bad Bunny e a revolta televisionada

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Quando em 1970 Gil Scott-Heron anunciou que “a revolução não ia ser televisionada” tinha razão: a luta pelos direitos civis e o protesto ligado à questão racial estavam distantes dos meios de massa, vistos como instrumentos de alienação. Scott-Heron desbravaria caminho para o que viria a ser o rap, mas mantinha-se nas margens e no espaço insurgente da contracultura. Quando no domingo Bad Bunny irrompeu pelo intervalo do Super Bowl, ou, no ano passado, Kendrick Lamar “roubou o show”, ambos oferecendo em curtos 13 minutos um espetáculo total, foi o protesto — televisionado e de alcance global — que tomou conta do mainstream. Sinal dos tempos.

Há uma linha que une a efervescência criativa de Lamar (negro, californiano de Compton) ou a reinvenção sincrética da cultura latina em Bad Bunny (hispânico, porto-riquenho e como tal cidadão norte-americano, mesmo segundo os critérios apertados do ICE) e a história da música de protesto negra —​ que nasceu nos espirituais, passou pelo som diabólico dos blues do Delta, atravessou o compromisso político do jazz e da soul nos 60 e encontrou na cultura hip-hop o seu espaço natural. Mas há, também, uma grande diferença: enquanto no passado estas vozes estavam entrincheiradas, de quando em quando alcançando vitórias, Kendrick e Benedito são vencedores.

Ambos chegaram ao Super Bowl liderando nas plataformas de streaming, com um alcance global e com uma mochila carregada de Grammys. Há, aliás, uma certa ironia na transformação do intervalo do maior espetáculo norte-americano, espaço tradicional de exaltação das virtudes desportivas, numa montra exuberante da diversidade cultural. É uma das principais consequências da entrega da exploração deste momento à produtora de Jay-Z, na ressaca do Black Lives Matter.

No domingo, Bad Bunny não se limitou a apresentar-se em palco como voz de uma tradição musical latino-americana, de inclinação popular e dançante, fê-lo atualizando e sintetizando vários géneros, num registo assente no reconhecimento de uma herança —​ que expôs numa coreografia vibrante que trouxe para a superfície a cultura latina, de facto presente no quotidiano dos EUA. O seu poder não está, contudo, apenas na inscrição e na capacidade de representar uma sociedade norte-americana hoje mais diversa e fluida. Está, também, na demonstração de que o inglês deixou de ser culturalmente a língua franca.

Em tempos de ICE, Bad Bunny terminou a sua atuação com um provocador God Bless America (as únicas palavras que proferiu em inglês), seguido da enumeração dos vários países do continente, rematando a atuação com um definitivo “seguimos aqui”. No que é um sintoma de derrota, Trump não demorou a reagir, classificando a atuação como “absolutamente terrível e um insulto à grandeza da América”. O problema para Trump é que não há reação capaz de ocultar que a força da experiência histórica norte-americana radicou sempre na pluralidade de percursos e de vozes. Com criatividade, Bad Bunny limita-se a provar que os EUA são hoje ainda mais multilinguísticos e culturalmente híbridos do que no passado.

Somos todos os dias recordados que o problema político que vivemos nasceu nos EUA, ou pelo menos atingiu o seu pináculo em Washington D.C. Pois a solução também virá de lá. Até ver, das afirmações políticas mais eficazes a dar voz à revolta que se sente ocorreram no intervalo da final do futebol americano, por Kendrick Lamar há um ano e Bad Bunny na semana passada. Afirmações ao mesmo tempo articuladas, coerentes, televisionadas e poderosamente populares. Mesmo quem não gosta da música, comete um erro se não lhes prestar atenção.

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