Belas pernas, a que horas abrem?

0
1

Longe iam os tempos em que se mandavam piropos grosseiros às transeuntes; hoje, bastava o mais pequeno comentário rude ou um olhar demasiado demorado para dar azo a um processo e a uma retaliação pesada.

Admirou-se, por isso, quando sentiu o olhar fixo nas suas pernas do homem sentado ao seu lado na carruagem. Somos animais, embora nos esqueçamos disso a maior parte do tempo. Há momentos em que o instinto — como um cão que pressente o pontapé antes de ele chegar — nos avisa com uma espécie de rosnar mudo. Foi essa sensação que teve. Não sabia o que fazer.

Falar directamente com o homem parecia-lhe imprudente. Estava do lado da janela e sentia-se emparedada, sem saber com que tipo de criatura estaria a lidar: seria agressivo ou apenas um voyeur indiscreto? O homem, de meia-idade, atraente, com a barba certamente acabada de fazer, cheirava a Old Spice e a café. Intercalava os olhos fixos nas suas pernas com a leitura distraída de um livro antigo de Michel Houellebecq, como se as palavras lhe servissem apenas de intervalo entre um olhar e outro. Mesmo antes de chegarem à estação terminal, fechou o livro devagar e, pela primeira vez, olhou-a directamente nos olhos. — Desculpe, menina — disse. — Belas pernas, a que horas abrem?

Ela não respondeu. Ficou a olhar para o vidro da janela, onde o reflexo dele aparecia por cima do dela, enquanto o comboio continuava a bater nos carris, sempre com o mesmo ritmo. Quando finalmente anunciaram a estação, ele levantou-se sem olhar para trás e saiu da carruagem. Só na plataforma é que ela percebeu que, durante quase duas horas, não tinha mexido as pernas.

Disclaimer : This story is auto aggregated by a computer programme and has not been created or edited by DOWNTHENEWS. Publisher: feeds.feedburner.com