Berlim: da nostalgia de leste ao ocidente perdido

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Antes de aterrar, mirada rápida sobre a urbe discreta. À chegada, entre o jovem aeroporto e os subúrbios, apenas uma planície sóbria e os fonemas esdrúxulos que mais adiante, na súmula de linhas que convergem para o anel em redor da cidade, quase fariam perder o norte aos comboios.

Na semana em que o forasteiro se emprestou a Berlim, a intersecção ferroviária de Schöneberg, distrito onde nasceu Marlene Dietrich e viveu David Bowie, foi a base para as deambulações a solo ou com os anfitriões luso-alemães pelas redondezas do outrora burlesco e abastado polo da vida noturna da agora capital da sustentabilidade.

Perto da defunta torre de rádio, começámos pela visita (à medida para residentes, isto é, com tradução improvisada) ao centro de produção da RBB, a estação pública de Berlim e Brandemburgo, e aos estúdios da Casa da Radiodifusão, berço das primeiras emissões regulares de televisão na Europa onde jaz um dos últimos paternoster, o “elevador da morte”. À saída, junto ao banco das chapas com o Sandmännchen, Vitinho germânico disponível nas versões leste e oeste, assomava-nos uma raposa.

De volta ao bairro, por entre fachadas de arquitetura Gründerzeit pintalgadas pelas primeiras chuvas de outono, o programa cruzaria lazer e ocupações: passar pelo mercado biológico ao lado da igreja do Apóstolo Paulo, com uma escadaria de abóboras para gáudio da criançada; cirandar um parque infantil clandestinamente inspirado em Harry Potter; apanhar o S-Bahn para um mergulho no Schlachtensee, onde ninguém se importa se o rei vai nu; espreitar junto à Rathaus, na praça onde Kennedy se fez berlinense, uma das feiras em que, por entre roupa, comida turca e quinquilharia gasta, álbuns de família recheados de estórias buscam segundas mãos; achar um coro brasileiro no antigo salão de baile do distrito vizinho de Neukölln.

Sempre com a Berliner Fernsehturm no horizonte e o comando intermitente do Ampelmännchen, fintámos alguns dos ícones turísticos (porta de Brandemburgo, Coluna da Vitória no parque Tiergarten, Parlamento, Igreja Memorial Imperador Guilherme, a “ostra grávida” e o estádio olímpico) reproduzidos num trabi ou nas tampas de saneamento, e até os brezeln, os pães tradicionais, de um vendedor de rua. Valeram as incursões na cozinha vietnamita e libanesa ou o kebab coletivo, já que por provar ficaram também as prometidas bratwurst na cantina do Ministério da Justiça.

No Dia da Unidade Alemã, parecendo festejar-se mais o sol que a reunificação, confundimo-nos com a maralha de estandartes pela paz e de bandeiras da Palestina e do partido comunista em marcha pela Unter den Linden. Entre a trupe que convergia para a Bebelplatz, onde os nazis queimaram milhares de livros, uns quantos “ostálgicos” (nostálgicos de Leste) lembravam as disparidades entre ossis e wessis (alemães orientais e ocidentais). Contornada a catedral à beira do rio Spree, a caminhada terminou na estação em tijolo e terracota do Mercado de Hackescher, grato contraste com o glamour metálico da maioria das gares.

O passado agreste das extintas repúblicas espraia-se por toda a antiga meca cultural, agora menos rebelde e barata. No labiríntico memorial aos judeus mortos, o pregador, num hebraico assanhado, vocifera para a pequena plateia sentada em redor. No centro de documentação dos horrores, onde estava a sede da Gestapo, os lembretes dos incógnitos que se detêm nas intermitências do muro recordam como a história se repete quando ignorada: “united we stand, divided we fall”; e em bom português, “que nunca esqueçamos o que o ser humano é capaz de fazer”.

Em trânsito, velho e novo confundem-se no olhar. A natureza reconquista ruínas e espaços abandonados. À porta de alguém, livros usados reclamam por quem os leve. Perto do jardim botânico, a despedida da cidade verde faz-se na oficina de um luthier, foco de uma reportagem da RBB em que o artista lá de casa simula a entrega do violoncelo para ser reparado. Na volta, esperavam-nos um autocarro e a azáfama do entardecer, o bucolismo da luz ténue e espaçada que a noite por aqui enverga. Ao dia seguinte, é hora de o visitante regressar a Portugal.

Texto e fotos de Jorge Costa

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