
Biruté Galdikas passou dois meses na floresta tropical antes de ver um orangotango. Tinha 25 anos e tinha abdicado de uma vida confortável em Los Angeles, nos Estados Unidos (EUA), por aquilo que as pessoas lhe diziam que seria uma vida impossível no Bornéu indonésio.
Todos os dias, Biruté Galdikas caminhava cerca de 20 quilómetros por uma floresta densa infestada de formigas-de-fogo e víboras. Sanguessugas caíam das suas meias. Chovia tanto que os pântanos chegavam até às suas axilas.
Na maioria das noites, escreveu ela num livro de memórias de 1995, regressava à cabana de paredes de casca de árvore “encharcada de suor e convencida de que os orangotangos selvagens se tinham mudado todos da área de estudo simplesmente para me contrariar”.
Era 1971 e poucas pessoas, quanto mais mulheres, tinham tentado o tipo de estudo científico imersivo que a Galdikas esperava concluir. Ela era a terceira de um grupo que viria a ser conhecido como as Trimates, ou os “Anjos de Leakey”, uma homenagem ao mentor, o famoso paleoantropólogo Louis Leakey. Os outros anjos, Jane Goodall e Dian Fossey, já tinham produzido investigação inovadora sobre chimpanzés e gorilas, respectivamente.
“Um suspiro de alegria”
Biruté Galdikas receava nunca vir a ter sucesso como Jane Goodall e Dian Fossey, mas todas as manhãs, antes do amanhecer, ela avançava com dificuldade pelo pântano cor de chá e aprendeu a ouvir as árvores. Finalmente, na véspera de Natal, a Galdikas ouviu um galho a partir a trinta metros de altura. Ela espreitou para a copa das árvores e viu um orangotango fêmea de 32 quilos com um filhote ao ombro.
A Galdikas soltou “um suspiro involuntário de alegria”. Passou as dez horas seguintes a seguir os primatas de pêlo ruivo. Anotou o que comiam e a distância que percorriam. Descreveu as suas interacções. No final do dia, Galdikas tinha 30 páginas de notas e o início do que viria a ser o estudo contínuo mais longo do mundo, realizado por uma única pessoa, sobre um mamífero selvagem.
Louis Leakey tinha dito a Biruté Galdikas que pagaria por 10 anos de investigação. Mas, no final daquela primeira observação, Galdikas decidiu que uma década não seria suficiente.
“Comecei a pensar que precisaria de uma vida inteira”, escreveu ela.
Peter Charlesworth/Getty images
Passou a maior parte dos 55 anos seguintes, o resto da sua vida, na floresta tropical. Faleceu a 24 de Março em Los Angeles, a sete semanas de completar 80 anos, após uma batalha contra o cancro do pulmão e a fibrose pulmonar, de acordo com a Orangutan Foundation International.
A morte da Galdikas marca o fim de uma era de conservacionistas lendárias. Fossey foi assassinada em 1985 e Goodall faleceu no ano passado. Juntas, estas mulheres redefiniram a nossa ideia do que significa ser cientista e exploradora. Elas abriram caminho até ao topo de um campo dominado pelos homens. Sacrificaram a própria saúde pela conservação e descobriram quase tudo o que os humanos sabem hoje sobre primatas.
“Nunca haverá outra Biruté”
“Acho que nunca mais haverá outra Biruté”, disse Nancy Briggs, uma colega que trabalhou com Galdikas durante 40 anos. “Ela era uma força da natureza e, devo dizer, brilhante. Era uma cientista de excelência e uma primatóloga fervorosa, e percebeu que tínhamos de salvar a floresta tropical e respeitar o país para preservar os animais e o habitat.”
Muito antes de Galdikas ver o seu primeiro orangotango selvagem, já era obcecada por eles. Enquanto outras jovens no final da década de 1960 se divertiam ou sonhavam com famílias, ela tentava encontrar o seu caminho para o Sudeste Asiático.
A investigadora assombrava os gabinetes dos professores da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA) e escreveu a um director de museu em Bornéu porque tinha lido que a mulher dele criava orangotangos. Chegou mesmo a enviar cartas para a recém-independente Malásia, na esperança de que alguém lhe permitisse mudar-se para as suas florestas e estudar os objectos da sua obsessão. Ninguém lhe respondeu.
Mas então, numa tarde em que a Biruté Galdikas tinha 22 anos, Leakey foi dar uma palestra à sua turma sobre técnicas de datação arqueológica. Leakey tinha perdido a maioria dos dentes e não conseguia andar sem uma bengala, mas Galdikas ficou fascinada.
“Este é o homem”, pensou Galdikas, “que me irá revelar o universo.”
Como estudante de mestrado em Antropologia, Galdikas tinha mais experiência do que Goodall ou Fossey tinham quando começaram os seus estudos. Leakey ofereceu-se para ajudar, mas passaram-se três anos até que ele conseguisse garantir financiamento ou licenças.
Quando a Galdikas e o primeiro marido chegaram a Bornéu, em 1971, descobriram que a terceira maior ilha do mundo não tinha estradas nem electricidade, nem hotéis, nem sequer uma forma de receber correio. Era, escreveu ela nas suas memórias Reflections of Eden, “isolada e intocada”, um dos únicos lugares do planeta onde se podia estudar o último grande primata arborícola.
Na altura, os investigadores não sabiam quase nada sobre os orangotangos selvagens. Eram vendidos ou mantidos como animais de estimação, mas os cientistas não sabiam se eram sociáveis ou solitários, se preferiam folhas ou frutos.
“Fui atraída por esse mistério”, disse mais tarde Biruté Galdikas.
Embora os orangotangos não sejam os nossos parentes mais próximos — tanto os chimpanzés como os gorilas partilham mais ADN com os humanos —, Galdikas revia-se neles.
Da Alemanha ao Canadá
Nasceu a 10 de Maio de 1946, na Alemanha, filha de pais lituanos que fugiram da ocupação soviética. A família mudou-se para o Canadá quando ela tinha dois anos, mas os pais contavam-lhe frequentemente sobre as florestas exuberantes onde tinham vivido na Lituânia.
Biruté leu Curious George no segundo ano e, depois disso, balançava-se nas árvores do seu bairro e imaginava o lar que os pais tinham deixado para trás. Foi então que decidiu que se tornaria uma exploradora.
NatGeo/DR
Quase tudo o que Galdikas aprendeu na década de 1970 foi inovador. Ela foi a primeira primatóloga a testemunhar o nascimento de um orangotango selvagem e a primeira a documentar um orangotango a usar um pau como ferramenta na natureza.
Descobriu que os orangotangos passam até metade do dia no chão e, ao contrário dos chimpanzés e dos gorilas, preferem estar sozinhos. Gostam de comer fruta e, ocasionalmente, partilhavam o almoço de Galdikas, composto por sardinhas e arroz.
Embora Galdikas nunca tenha atingido o nível de fama de Goodall, tornou-se um nome conhecido depois de aparecer na capa da revista National Geographic de 1975. No artigo, escrito pela própria Biruté Galdikas, ela descreveu como a sua cabana se tornou um centro de reabilitação para orangotangos em cativeiro que regressavam à natureza.
O primeiro foi um primata de um ano a quem ela deu o nome de Sugito. Galdikas e marido encontraram-no a viver numa caixa de madeira dentro da casa de um homem indonésio. Sugito era um pequeno ser alaranjado e desgrenhado, com pêlo espetado, e cheirava a urina e fezes quando Galdikas o tirou da caixa. Ela não sentiu nenhum instinto maternal quando o segurou pela primeira vez, mas ele agarrou-se a ela e recusou-se a largá-la.
“Mudar de roupa tornou-se uma tarefa árdua, com o Sugito a guinchar e a agarrar-se a tudo o que lhe tiravam”, escreveu a investigadora na National Geographic.
A relação entre ambos era “cativante, mas claustrofóbica”, escreveu a investigadora nas suas memórias. Ele molhava a cama quase todas as noites e, se o marido de Biruté se aproximasse dela, o orangotango mordia-o ou defecava-lhe em cima. Durante algum tempo, o casal nem sequer se podia tocar. Mas Sugito rapidamente se tornou “a relação mais importante” da vida de Galdikas.
“Ele simbolizava a minha necessidade”, escreveu ela, “a minha responsabilidade, de ajudar a espécie dos orangotangos.”
Biruté Galdikas acabou por ter mais filhos, tanto orangotangos como humanos. Em 1980, o filho mais velho, Binti, apareceu na capa da National Geographic numa banheira com um orangotango ao pescoço. Mas a tensão doméstica que começou com Sugito acabou por explodir, e Galdikas e primeiro marido divorciaram-se. Mais tarde, Biruté Galdikas casou-se com um homem indígena Dayak, Pak Bohap bin Jalan, e teve mais dois filhos, Jane e Fred, que foram criados na floresta tropical.
Fred Galdikas disse que a sua mãe era tão carinhosa quanto dedicada ao seu trabalho.
“Para ser a chamada mãe de centenas de orangotangos, é preciso ter algumas qualidades maternas”, afirmou. “Ela era empática e generosa e, mesmo quando era criança, eu sentia que era um trabalho importante.”
Da investigação ao activismo
Com o tempo, o trabalho de Galdikas passou da investigação para o activismo. Empresas madeireiras e de óleo de palma invadiram a floresta tropical, e a população de orangotangos diminuiu. A investigadora sabia que a repopulação seria difícil. Desde cedo, ela tinha descoberto que os orangotangos têm a taxa de reprodução mais lenta de todos os animais. Começou a passar menos tempo no pântano e mais tempo a fazer campanha pela conservação.
Em 1982, ela convenceu o governo indonésio a transformar a reserva de Tanjung Puting num parque nacional e, em 1986, fundou a Orangutan Foundation International. Continuou a publicar novos estudos sobre a alimentação e os padrões de natalidade dos orangotangos, mas, na década de 1990, Biruté Galdikas já não vivia a tempo inteiro no acampamento e o governo indonésio tornou-se cauteloso em relação ao seu trabalho.
Quando tentou renovar a sua licença de investigação, um funcionário do Departamento Florestal disse-lhe: “Vinte anos são suficientes”, de acordo com um perfil do seu trabalho publicado na revista do New York Times em 1992.
Os repórteres que visitaram o local nos anos seguintes encontraram o acampamento abandonado e “em ruínas”. Outros primatologistas questionaram os seus métodos de reabilitação e os principais financiadores retiraram o apoio financeiro.
Burocratas corruptos “querem desacreditar-me e enviar os orangotangos para o leste de Bornéu”, disse Galdikas ao jornal britânico The Guardian. “Assim, as empresas madeireiras poderão instalar-se.”
Por fim, essas controvérsias passaram para segundo plano. Ela viajou pelo mundo para falar sobre a própria investigação e deu aulas em Vancouver, na Colúmbia Britânica. Mas continuou a regressar a Bornéu. Quando fez a sua última viagem, em Dezembro de 2024, a população de orangotangos de Bornéu tinha diminuído para cerca de 100 mil — menos de metade do tamanho que tinha há um século.
Biruté Galdikas soube que tinha cancro do pulmão pouco depois dessa viagem, mas recusou-se a reformar-se. A Orangutan Foundation International ainda emprega 256 pessoas perto do acampamento, e ela disse a amigos e familiares que tanto essas famílias como os orangotangos dependiam dela. Continuou a trabalhar e a escrever a partir do leito de hospital.
Autoridades do governo indonésio planeiam repatriar o seu corpo na próxima semana, e ela será enterrada ao lado do seu segundo marido. Fred Galdikas disse que dará continuidade ao trabalho dela.
Embora a sua morte não tenha recebido a mesma atenção que a de Jane Goodall ou Dian Fossey, Fred Galdikas disse que a mãe talvez tivesse preferido assim; ela não buscava a fama excepto no que toca a usar o próprio nome para promover a causa dos orangotangos.
Há alguns anos, depois de ter passado 50 anos no Bornéu, Biruté Galdikas falou com um apresentador de podcast na Fundação Leakey e tentou atribuir sentido às capas da National Geographic e ao legado que poderia deixar.
“Sou apenas uma pessoa que se senta nas florestas, acompanha orangotangos selvagens e tenta salvá-los plantando árvores”, disse ela.
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