O início de 2026 está a ser marcado por ondas de calor históricas e violentos incêndios florestais no hemisfério sul, com tais fenómenos extremos a assolar a Argentina, a Austrália e a África do Sul. Os cientistas prevêem que temperaturas ainda mais altas possam estar por vir — e possivelmente outro recorde anual global —, após testemunharmos, em sequência, três dos anos mais quentes alguma vez registados.
Em Janeiro, uma onda de calor recorde envolveu a Austrália, elevando as temperaturas até cerca de 50 graus Celsius. O calor também afectou partes da América do Sul, incendiando regiões remotas da Patagónia argentina e matando 21 pessoas em cidades costeiras do Chile. Além disso, a África do Sul tem enfrentado os piores incêndios florestais dos últimos anos.
Os extremos estão a ocorrer mesmo com o mundo ainda sob a influência refrescante de La Niña, um ciclo climático marcado por águas mais frias no Pacífico central e oriental, que começou em Dezembro de 2024. Apesar desse factor moderador, as temperaturas estão a atingir valores recordes em vários locais.
La Niña menos refrescante
“Isto significa que o efeito das alterações climáticas causadas pela actividade humana está a superar a variabilidade natural”, disse o cientista climático Theodore Keeping, do Imperial College London e da colaboração internacional de investigação World Weather Attribution, especializado em investigação sobre incêndios florestais e calor extremo.
“À medida que fazemos a transição para uma fase neutra, ou mesmo para El Niño, esperamos que a incidência de fenómenos de calor extremo em todo o mundo seja ainda mais amplificada”, acrescentou Keeping. Com o efeito oposto de La Niña, o El Niño é um padrão climático que aquece as águas do Pacífico central e oriental, contribuindo para o aumento das temperaturas globais.
Prevê-se que este ano se situe cerca de 1,46 graus Celsius acima dos níveis pré-industriais, o que o tornaria 2026 o quarto ano consecutivo com temperaturas superiores a 1,4 graus Celsius acima dos níveis pré-industriais, de acordo com Adam Scaife, chefe de previsões de longo prazo do serviço nacional de meteorologia e clima do Reino Unido.
O tratado internacional sobre o clima de 2015, conhecido como Acordo de Paris, tinha como objectivo limitar o aquecimento a 1,5 graus Celsius acima dos níveis pré-industriais.
“Se um El Niño forte se desenvolver rapidamente em 2026, ainda é possível que 2026 seja um ano recorde”, disse Adam Scaife. A Organização Meteorológica Mundial confirmou no mês passado que os últimos três anos foram os mais quentes já registados.
Fogo em Los Alerces, Argentina
Embora a maioria dos incêndios florestais seja causada pela actividade humana, os fogos também são uma parte natural de muitos ecossistemas. No entanto, o calor persistente, a seca hidrológica e as temperaturas extremas estão a transformar incêndios antes controláveis em fenómenos cada vez mais indomáveis e destrutivos.
Muitos ecossistemas não estão adaptados a condições tão quentes e secas, permitindo que os incêndios se tornem maiores e mais intensos, causando com frequência danos irreversíveis, afirmou Theodore Keeping.
Os incêndios que devastaram o Parque Nacional Los Alerces, na Argentina, ilustram essa mudança, de acordo com a meteorologista Carolina Vera, do Centro de Investigação Oceânica e Atmosférica da Universidade de Buenos Aires. A reserva constitui Património Mundial da UNESCO e abriga árvores com mais de 3000 anos.
Autoridades locais determinaram que um raio causou o incêndio. Inicialmente, o fogo estava sob controlo. Mas Carolina Vera disse que uma onda de calor e ventos fortes fizeram com que o incêndio se espalhasse por cerca de 20 km num único dia, tornando-o no pior incêndio florestal da região em duas décadas.
A região é assolada pela seca desde 2008. As temperaturas durante as duas primeiras semanas de Janeiro ficaram cerca de seis graus Celsius acima do normal.
“Esses incêndios costumavam extinguir-se sozinhos e faziam parte da dinâmica natural da floresta”, disse Carolina Vera. “Este é um exemplo de como as mudanças climáticas podem alterar um incêndio natural, pois ele parece ter sido causado por um raio.”
Não há cidades nessa área remota. Os incêndios eclodiram na parte sul do vizinho Chile, no final de Janeiro, e atravessaram a grande área de Concepción, a terceira maior região metropolitana do país, destruindo centenas de casas e matando 21 pessoas em comunidades costeiras.
Theodore Keeping disse que os incêndios reflectiram as características de desastres recentes em lugares como Los Angeles, Atenas e a ilha havaiana de Maui.
“Nos locais onde houve maior perda de vidas, quase sempre se deve ao facto de a evacuação ser difícil ou impossível”, disse Theodore Keeping. “Isso é particularmente verdadeiro em regiões afectadas por fortes ventos descendentes em direcção à costa.”
ETIENNE LAURENT/EPA
Redemoinhos de fogo
Cerca de 80% de Punta de Parra, uma pequena cidade costeira no sul do Chile, cercada por colinas e florestas, ficou destruída. Os residentes de Punta de Parra disseram que tiveram pouco tempo para sair. Doralisa Silva, 34 anos, afirma que soube de um incêndio numa comunidade vizinha na noite em que as chamas chegaram à cidade.
“Do nada, a floresta começou a arder e todas as casas pegaram fogo”, disse Doralisa Silva. “O fogo chegou até nós num piscar de olhos. Não havia nada que pudéssemos fazer.”
Doralisa Silva conta que a família foi uma das últimas a fugir porque não tinha veículo. A residente recorda que choviam cinzas e as chamas bloquearam a saída, enquanto ela e o companheiro, Hermes Barrientos, fugiam com a filha de dois anos.
Hermes Barrientos disse ainda que ventos de quase 70 km por hora sopraram naquela área, criando redemoinhos de fogo que se espalharam pela praia e acuaram os residentes. A família e outras pessoas acabaram por encontrar refúgio num grande campo de terra no centro da cidade, onde passaram a noite a ver a própria vila a arder.
Um futuro repleto de incêndios
O calor recorde no sudeste da Austrália também alimentou os piores incêndios do país desde a temporada fatal de 2019-2020, quando 33 pessoas morreram.
Além disso, a temporada de incêndios de 2025-2026 foi a mais severa na África do Sul em uma década, de acordo com autoridades, matando animais selvagens e atingindo destinos turísticos como Mossel Bay e Franschhoek.
“As condições quentes, secas e ventosas, que causam os incêndios florestais mais extremos, estão a tornar-se mais intensas e mais prováveis”, disse Theodore Keeping. “E isso está a acontecer em todo o mundo.”
O hemisfério sul aqueceu cerca de 0,15 a 0,17 grau Celsius por década desde 1970, em comparação com 0,25 a 0,30 grau Celsius no hemisfério norte, em grande parte porque o oceano absorve o calor mais lentamente e devido ao derretimento da Antárctida.
Ainda assim, as massas terrestres do sul estão agora a aquecer a taxas semelhantes às das massas terrestres do norte, e os contrastes entre a terra aquecida e a água fria do degelo podem intensificar os padrões climáticos, levando a ondas de calor prolongadas, secas ou inundações.
Apostar na adaptação é fundamental, com as autoridades a ter que gerir a vegetação perto das cidades e a desenvolver planos de evacuação eficazes, e com os construtores a serem obrigados a utilizar materiais mais resistentes ao fogo.
Os incêndios florestais estão a causar danos económicos crescentes. Um relatório de 2026 da corretora de seguros Aon estimou as perdas globais seguradas por incêndios florestais em 42 mil milhões de dólares (35 mil milhões de euros) em 2025, acima da média de 4000 milhões de dólares (3300 milhões de euros) anuais entre 2000 e 2024. Os incêndios em Los Angeles no ano passado foram os mais caros já registados.
A Swiss Re, segunda maior resseguradora do mundo, concluiu que os incêndios florestais representavam cerca de 1% das perdas globais seguradas por desastres naturais antes de 2015, mas agora representam 7%, com perdas económicas relacionadas com incêndios a aumentar em cerca de 170 milhões de dólares (143 milhões de euros) por ano desde 1970.
“Na verdade, não é possível impedir muitos desses incêndios florestais realmente grandes e intensos. São simplesmente grandes demais”, disse Theodore Keeping.
O caminho mais importante a seguir, disse o investigador do Imperial College London, é “ter uma conversa séria sobre a limitação das alterações climáticas futuras para evitar que esta questão se agrave”.
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