Casa, poesia e o património dos pobres

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E muitas transformam-se em árvores cheias de ninhos – digo,
As mulheres – ainda que as casas apresentem os telhados inclinados
Ao peso dos pássaros que se abrigam.
É à janela dos filhos que as mulheres respiram
Sentadas nos degraus olhando para eles e muitas
Transformam-se em escadas.

Daniel Faria

Trazia esta crónica na cabeça quando tropecei na conferência “A minha casa”, que assinalou o 36.º aniversário do PÚBLICO. Mais do que pretexto, foi confirmação para rondar a temática neste Dia Mundial da Poesia.

São miríade os poetas que fizeram de “casa” palavra de poema. Palavra curta, inteira, quase redonda, abrigo de memória, infância e silêncio, espaço de dignidade e chão para o futuro. Foi a partir desta evidência que nasceu, em Portugal, uma das mais belas obras sociais do século XX: o Património dos Pobres, fundado pelo Padre Américo. Por si só, o nome é uma pequena revolução. Aqueles que aparentemente nada possuem são detentores de um património.

A questão habitacional portuguesa já vinha de longe. Desde as Casas Económicas de 1918 até programas do Estado Novo, o século XX experimentou soluções urbanísticas, financeiras e ideológicas diversas. Mas em 1951 surgiu algo singular: um movimento social e habitacional baseado na autoconstrução. Cada freguesia cuidava dos seus pobres; cada família erguia a sua própria casa, reconquistando dignidade e segurança.

O modelo era preciso: terrenos cedidos à igreja paroquial, casas atribuídas a título precário, possibilidade de transmissão do usufruto aos familiares mediante aprovação. O regulamento aprovado pelo bispo do Porto, António Ferreira Gomes, definia princípios construtivos, plantas-tipo, regras de utilização. As casas eram simples, espartanas, com salubridade mínima, pequenas áreas cultiváveis, materiais locais e a marca visível na fachada: “Património dos Pobres”. Um selo de pertença, mas também um rótulo social que muitos bairros carregam até hoje.

Para o fundador, a falta de habitação era fonte de miséria. Resolver a primeira significava desatar muitas das segundas. A casa não era apenas abrigo físico; era antídoto contra a mendicidade transformada em destino.

O financiamento inicial era modesto: donativos, terrenos oferecidos, listas de contribuintes minuciosamente publicadas no jornal O Gaiato. Pouco depois, o tema chegou ao Parlamento, e o movimento ganhou apoio estatal, multiplicando-se sobretudo entre Aveiro, Porto e Braga, mas também em Lisboa, Coimbra, Funchal e até em Angola e Moçambique. Estimam-se mais de 5000 casas.

O diferencial do Património dos Pobres não estava apenas na arquitetura, mas na gramática social: o pobre era agente da própria construção. Autoconstruir era inscrever-se na casa, fazer poiesis no sentido mais literal e simbólico. A obra transformava a solidariedade em consciência coletiva: casas erguidas tijolo a tijolo para que famílias saíssem de barracas ou anexos improvisados.

Mais do que assistência social, havia visão. Padre Américo era, à sua maneira, poeta. No sentido técnico da palavra, mas também no seu sentido mais radical: via o invisível naquilo que era visível, justiça onde outros viam fatalidade, potencial onde outros viam miséria. Deste ponto de vista, poesia e justiça social parecem-me paredes meeiras e canção de batalha contra a banalidade do sofrimento e da indignidade. Sem puxar ao sentimento de pacotilha, trata-se de uma poética da consciência, antídoto contra a indiferença, refúgio contra o caos, centelha no escuro.

Há, como sabemos, poemas fora dos livros. Alguns têm versos coletivos com portas. Quando se abrem, deixam entrar o mundo.


O autor escreve segundo o Acordo Ortográfico de 1990

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