Climatérico e climactérico: as dúvidas

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Andou recentemente a circular nas redes sociais uma carta ao director, ou um correio do leitor (acerca do caso concreto, a doutrina diverge), enviada por Paulo Jorge da Silveira Dias, geógrafo e mestre em Climatologia pela Universidade de Coimbra (doravante, o Autor). Apesar de a imagem, amplamente divulgada, ter um aspecto autêntico, não há referências quanto ao jornal ou revista onde o texto terá sido dado à estampa, nem sequer na página Facebook da Associação Portuguesa de Geógrafos, onde se assinala ter a carta sido “publicada na imprensa”. Curiosamente, a rubrica Cocktail do jornal Nascer do Sol (13/02/2026) indica que o Autor “escreveu ao diretor [sic] de um jornal”, mas sem mencionar o director de que jornal. No meio desta neblina formada por mistérios, incertezas e considerações vagas (“na imprensa”, “um jornal”), centremo-nos no conteúdo da missiva, pois é curioso e importante, enquanto, porventura debalde, esperamos que as dúvidas sobre a fonte se dissipem.

Segundo o Autor, houve “uma imprecisão” do actual primeiro-ministro, Luís Montenegro, ao proferir a palavra climatérico, em vez de climático, “cristalizada no Despacho n.º 1335 A/2026”, de 4 de Fevereiro. Efectivamente, o despacho, assinado pelo ministro da Agricultura, José Manuel Fernandes, contempla “fenómeno climatérico” e “evento climatérico”, em vez dos claramente desejados “fenómeno climático” e “evento climático”. Esclarece-nos o Autor que climático “é o adjetivo [sic] correto [sic] quando nos referimos a fenómenos relacionados com o clima”, enquanto climatérico diz respeito “ao climatério [sic] (transição biológica associada à menopausa) ou ao amadurecimento final de certos frutos”. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra.

Convém distinguir imediatamente uma perspectiva importante: quer a carta do Autor, quer as reacções dos seus pares apontam para climático ser a forma predilecta ou mesmo única dos profissionais da área do clima, ou seja, deveremos nós, leigos nesta matéria, utilizar igualmente climático e preterir climatérico, em nome da consistência terminológica. Em suma, o Autor defende uma atitude selectiva, com progressiva eliminação da forma climatérico. Muito bem, estamos entendidos.

Todavia, o Autor exagera e comete um erro crasso, ao lançar, através da generalização, um anátema sobre a forma climatérico, enquanto significante de “relativo ao clima”. Se consultarmos o melhor dicionário de português europeu da actualidade, o Grande Dicionário da Língua Portuguesa (Porto Editora, 2004; doravante, GDLP), a única acepção existente para climatérico é “relativo ao clima, climatológico”. Não há qualquer menção ao climatério, referido pelo Autor. Acontece o mesmo no famoso Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea (Academia das Ciências e Editorial Verbo, 2001; doravante, DLPC). Portanto, temos o adjectivo climatérico dissociado do substantivo climactério (exactamente, climactério e não climatério).

Convém, pois, chamar a atenção para a acepção que o Autor atribui a climatérico. O significado “relativo ao climactério”, com efeito, encontra-se no GDLP, sim, mas em climactérico, com -ct-. O DLPC é omisso em relação a climactérico, mas não em relação a climactério. Acrescente-se que os dois dicionários têm transcrição fonética e esta consagra /k/ antes de /t/ nas entradas em apreço. Ora, é importante dizer-se que, felizmente, nem o GDLP, nem o DLPC adoptam o Acordo Ortográfico de 1990 (AO90). São, por isso, preciosísissimos. Mesmo que o adoptassem, as transcrições fonéticas de um e de outro, segundo a celebérrima base IV e o preceito “invariavelmente proferidos nas pronúncias cultas da língua”, validariam a “sequência interior” -ct- nos dois casos.

No entanto, na entrada climactérico, a Infopédia (com AO90), apesar de apresentar a transcrição [klimɐkˈtɛriku] (repare-se no /k/ antes do /t/), acrescenta estranhamente “também se pode escrever climatérico”. De facto, na entrada climatérico, além do esperado “relativo ao clima”, a Infopédia (ao contrário da indicação do GDLP) dá-nos uma transcrição sem /k/ para uma segunda acepção, a de “relativo ao climactério” (pois, com –ct-). Quem apagou o /k/? E porquê? Eis as perguntas.

Para terminar, uma ressalva. É impressionante a quantidade de climatérios (e climatéricos) que abundam na literatura científica, fora da área climática e em português europeu, indicando as acepcões atribuídas a climactérios e climactéricos. Convém sabermos se a dicionarização pós-AO90 influenciou de alguma forma uma injustificada e forçada mudança nos hábitos linguísticos dos profissionais ou se as opções acima mencionadas (GDLP e DLPC), anteriores à adopção do AO90, são erros, por não preverem a pronunciação correcta na altura da transcrição. Convém igualmente salientar que estas dúvidas não existiriam, houvera em curso uma ortografia baseada noutros princípios, que não um intempestivo “critério fonético (ou da pronúncia)”. Houvera? Há! Aquela que este jornal adopta, a melhor de todas, a de 1945/73.

Em suma:

  1. O Autor erra, ao considerar que climatérico, para eventos climáticos, é um erro terminológico, pois os dicionários de referência validam climatérico como “relativo ao clima”;
  2. O Autor tem razão, em nome da consistência terminológica, ao chamar indirectamente a atenção para a necessidade de haver paz e harmonia, preferindo-se climático a climatérico, quando falamos de clima;
  3. O Autor talvez seja induzido em erro por dicionários com AO90 que lhe dizem ser a forma climatérico aceitável (na acepção de, e em paralelo com, climactérico), apesar de transcrições fonéticas de referência (GDLP e DLPC) indicarem exactamente o contrário;
  4. Subsistem dúvidas quanto a este ponto 3), uma vez que existe uma grande frequência de formas sem -ct- (climatérico, climatério) na literatura especializada, fora da área climática;
  5. Sem as arbitrariedades do AO90, o mundo seria muito mais simples.

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