Coentros e orégãos, a ciência em busca dos aromas autênticos do Alentejo

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Duas investigadoras da Escola Superior de Biociências de Elvas, do Instituto Politécnico de Portalegre, conseguiram desenvolver quatro novas variedades de coentros que reforçam a importância desta planta na agricultura e gastronomia do Alentejo. Liderando uma equipa multidisciplinar, Noémia Farinha e Orlanda Póvoa procuram conservar e melhorar os recursos genéticos autóctones e o conhecimento tradicional que lhes está associado, num projecto de etnobotânica que já soma 25 anos. O programa de melhoramento foi interrompido entre 2014 e 2018, por falta de financiamento, e o trabalho das duas cientistas evolui agora no sentido da utilização mais ecológica dos coentros, no reforço da polinização, bem como o estudo de outra planta aromática abundante no Alentejo, o orégão.

No início da investigação dos coentros, os agricultores (que tinham feito a sua própria selecção ao longo de gerações) cederam gratuitamente sementes e foi efectuada a caracterização morfológica e agronómica das plantas locais, das estruturas vegetais, altura, comprimento das folhas, data da floração, sendo esta a base para o minucioso trabalho de campo e de melhoramento que permitiu desenvolver as quatro novas variedades – Alcácer, Assunção, Campo Maior e Amareleja –, já aprovadas pelo Catálogo Nacional de Variedades. A equipa envolveu ainda investigadores da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e do pólo em Elvas do Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária (INIAV), onde decorreram os trabalhos de campo.

A participação de centenas de agricultores na fase inicial, que permitiu a recolha de material e do conhecimento tradicional sobre a planta, levou as duas cientistas ao interesse por aspectos de gastronomia e de utilização medicinal. Todas as partes do coentro podem ser úteis e a etnobotânica não dispensa o interesse por receitas culinárias.

O primeiro projecto também permitiu concluir que havia biodiversidade, ou seja, o Alentejo tinha coentros morfologicamente diferentes, com biomassa variável, uns mais precoces e outros tardios. Do ponto de vista científico, isso significava que havia boas possibilidade de fazer melhoramento genético.

Os ciclos de melhoramento deram origem a plantas distintas, uma delas bastante alta e com boa biomassa de folhas (Alcácer), outra quase um pouco mais baixa e também uma boa biomassa de folhas (Assunção), uma terceira mais ramificada e com flores rosadas (Campo Maior) e uma quarta mais precoce, com menor produção de folhas e interesse ecológico (Amareleja), tendo em conta que as alterações climáticas e a falta de água podem valorizar uma planta que floresça mais depressa. Os coentros têm elevada importância económica no Alentejo, sendo a planta aromática e medicinal para consumo em fresco mais cultivada na região. Ela representa 70% a 80% da área cultivada de plantas aromáticas.

As investigadoras Orlanda Póvoa (à esquerda) e Noémia Farinha
DR

Os critérios do melhoramento

A recolha de sementes junto dos agricultores teve sempre a preocupação da origem autóctone. “Fazemos tudo para garantir que aquelas sementes que nos entregam nunca foram adquiridas no mercado”, diz Noémia Farinha. Os materiais de selecção do agricultor foram então comparados com variedades comerciais. A preocupação inicial foi garantir biomassa, já que os coentros em Portugal são consumidos em fresco.

“No melhoramento de plantas é muito importante saber que critérios utilizamos, e estes terão de ser adequados a cada objectivo. Se estamos a seleccionar uma variedade para resistir a uma doença, o critério que se utiliza tem de ser para resistir a essa doença. Se for para produção de folhas, como é o nosso caso, dos materiais que colhemos, temos de seleccionar linhas para produção de folhas. Se o produto económico for a semente, temos de seleccionar linhas para produção de semente”, explica Noémia Farinha.

Isto determina a utilização posterior: as variedades para produção de folhas precisam de ser mais regadas e cuidadas, produzidas em horticultura, mas existe a possibilidade do objectivo ecológico, podendo os coentros ser colocados em zonas que dispensam rega e, portanto, terão à partida de ser mais resistentes, com critérios de selecção diferentes.

O processo de melhoramento é de longo prazo. Antes de chegarem ao mercado, as sementes têm de ser seleccionadas, processo que pode levar mais de uma década. Depois, é preciso que sejam registadas no Catálogo Nacional de Variedades e ainda conseguir os direitos de obtentor por parte do Instituto Politécnico de Portalegre, também um processo moroso. Só depois de todo este caminho é que as novas variedades de coentros poderão chegar aos agricultores e ao mercado.

No caso dos coentros, como explica Orlanda Póvoa, houve anos de ensaios de campo e selecção das melhores plantas, até se conseguir chegar a uma mistura final de sementes com características distintas. Foram realizadas análises químicas sobre os aromas das novas variedades e dos coentros disponíveis nos mercados, mas estas propriedades, assim como as qualidades medicinais, dependem muito das condições de cultivo.

“Se eu pegar em sementes e as cultivar numa estufa, em três semanas elas não vão ter o mesmo aroma das mesmas sementes cultivadas num quintal durante mais tempo”, diz Orlanda Póvoa. “As concentrações de aromas têm muito que ver com as condições dos solos e do clima, não apenas com a parte genética. Mas este é um estudo em curso.”

Em resumo, quer sejam as variedades produzidas pela equipa de cientistas ou as que estão à venda no mercado, cultivar em zonas mais quentes não terá resultados iguais ao cultivo em áreas mais chuvosas. As plantas reagem à fertilidade do solo, ao clima, mas também ao stress ambiental, neste caso produzindo mais óleos essenciais: “De uma maneira geral, mas nem sempre, quanto mais calor, maior será a intensidade do aroma”, afirma aquela cientista, referindo-se aos coentros.

Portugal tem boas condições para cultivar hortícolas, sobretudo nas regiões do interior onde não há tanta poluição. O Alentejo é ideal para cultivar plantas com estas características aromáticas.

A açorda alentejana é um prato feito com água, alhos, coentros ou poejos, pão, bacalhau e ovo
Enric Vives-Rubio

A polinização

Inicialmente, a equipa pensou nos coentros para produzir folhas para uso na culinária, mas muitas conversas com agricultores detectaram uma potencial utilização de enorme importância, a polinização. A ideia agora é aumentar a biodiversidade nas entrelinhas das culturas permanentes, por exemplo em vinhas, olivais ou pomares, promovendo a atracção de insectos polinizadores. Esta técnica é cada vez mais usada (muito em resumo, trata-se de colocar uma cobertura vegetal no espaço, por exemplo, entre as linhas das videiras ou das árvores).

“A cobertura da entrelinha pode ser feita com espécies espontâneas ou cultivadas”, explica Noémia Farinha. “Essas misturas aumentam a biodiversidade e atraem polinizadores, como abelhas, vespas e outros insectos. A nossa última variedade, a Amareleja, já foi seleccionada a pensar nesse objectivo mais ecológico”, diz a investigadora.

A vantagem da biodiversidade será a menor aplicação de insecticidas e pesticidas, que são dispendiosos. Maior biodiversidade na cultura implica maior equilíbrio no ecossistema. Os coentros terão assim dupla função, servindo para gastronomia e para a ecologia, mas os estudos estão ainda no seu início, faltando a demonstração experimental, embora as cientistas estejam convencidas de que os coentros têm elevada capacidade para atrair polinizadores.

O coentro está disseminado em todo o mundo e as suas origens podem ser asiáticas. Índia ou o Crescente Fértil serão os locais onde apareceu primeiro esta planta tão popular, mas pode haver vários centros de origem. Esta questão tem interessado a equipa do Instituto Politécnico de Portalegre. Orlanda Póvoa pensa que a Península Ibérica será um destes centros de origem da planta, “embora ainda não tenha dados para fundamentar a minha afirmação”, acrescenta.

Em Portugal, o uso do coentro na gastronomia é relativamente original. Enquanto na maioria das culturas são usadas as sementes para condimentar os pratos, na Europa, e na cozinha alentejana em particular, usam-se as partes tenras e verdes, sendo a utilização de sementes minoritária.

No mercado de plantas aromáticas e medicinais do Alentejo, o coentro é a planta mais utilizada para condimento. As estatísticas oficiais de agricultura não discriminam as espécies, juntando outros tipos de produção (como frutas e legumes), havendo ainda a característica fragmentada e informal dos produtores, que aumenta as dificuldades na quantificação do peso económico.

As plantas aromáticas, em comparação com outras produções, são mais caras por dois motivos: há menos produtores hortícolas e um fosso maior de preços entre as lojas do litoral e os mercados tradicionais. Segundo Orlanda Póvoa, nos mercados locais do Alentejo, o custo do coentro pode ser dez vezes inferior ao de um supermercado, sendo a respectiva venda em verde “mais difícil de gerir”. No fundo, isto ilustra bem um problema geral da agricultura, com as mais-valias do negócio a ficarem no lado da distribuição.

Coentros em ensaios de campo
DR
Orégãos para ensaios científicos
DR

Entretanto, as duas cientistas, em estreita colaboração com Ana Cristina Figueiredo, da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, estão a seleccionar orégãos, mas o trabalho, ainda não concluído, é diferente dos coentros, passando pela identificação de compostos químicos cuja presença varia. Os critérios de selecção são distintos e o programa de melhoramento está direccionado para desenvolver plantas onde haja maior ou menor proporção de cada um desses compostos, sobretudo os que possam contribuir para aromas mais característicos.

Nos trabalhos de conservação dos recursos genéticos autóctones, as duas cientistas perceberam que existe também interesse dos agricultores na produção de orégãos, estando avançado o projecto que visa seleccionar novas variedades desta planta aromática muito consumida. Serão precisos ainda alguns anos para chegar ao ponto de desenvolver novas variedades, mas o estudo procura focar-se na hipótese de haver erosão do recurso genético, por causa da colheita espontânea. “As pessoas precisam dos orégãos, colhem-nos na natureza e nós percebemos que há redução do recurso. Isto acaba por delapidar, pois as pessoas colhem, mas ninguém cultiva. A ideia é, no futuro, disponibilizar esses recursos de maneira a reduzir a apanha na natureza”, explica Noémia Farinha.

A importância cultural das plantas aromáticas também não pode ser subestimada. As duas investigadoras são co-autoras de um livro de divulgação, Coentros do Alentejo, Conservação do Conhecimento Tradicional e dos Recursos Genéticos, o qual pode ser consultado online, no site do Instituto Politécnico de Portalegre, por quem quiser aprofundar o tema. Estão ali incluídas receitas de gastronomia alentejana onde o coentro é um ingrediente essencial.

Estes estudos também levantam questões sobre o financiamento da ciência no interior do país: não é fácil obter dinheiro e os regulamentos (por exemplo, de contratação de bolseiros) funcionam melhor no litoral do que em regiões periféricas. Por outro lado, é evidente a defesa do património cultural regional. O Alentejo é exemplo de uma região que luta contra alterações climáticas e desertificação humana, funciona um pouco como as plantas sob stress, que reagem às dificuldades valorizando as suas melhores características. Sendo assim, preservar os aromas da riqueza genética alentejana lança uma sementeira para o futuro.

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