Com Angela Schanelec e Eva Trobisch, a prata da casa pode fazer milagres na Berlinale

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Três cineastas “da casa” mereceram este ano chamada ao concurso principal do Festival de Berlim: primeiro Ilker Çatak, com o óptimo Yellow Letters; agora, “dose dupla” com uma figura incontestável da Escola de Berlim, Angela Schanelec, e a mais jovem Eva Trobisch, que ascende à competição com o seu terceiro filme.

Para além de ter sido premiada na Berlinale com I Was at Home, But… (Prémio de Melhor Realização em 2018) e Music (Prémio de Melhor Argumento em 2023), Schanelec é também um gosto muito adquirido que trabalha nas fronteiras mais rarefeitas do cinema de autor, compondo miniaturas que esmiúçam até à exaustão pequenos nadas do dia-a-dia. E, contudo, quanta emoção (e quanto humor!) se esconde atrás do seu cinema supostamente árido e oblíquo! Veja-se o novo My Wife Cries, com a melhor cena de dança de que nos recordamos desde a coreografia minimalista para os Sonic Youth em Homens Simples, de Hal Hartley, ao som do Lover lover lover de Leonard Cohen.

A cineasta encena, numa Berlim irreconhecível, e ao longo de três dias, uma ronda de desencontros amorosos ao redor de Thomas e Clara, e dos seus amigos e colegas que vivem crises românticas próprias. Schanelec, que dirige, escreve e monta, é conhecida por ser cerebral e meticulosa, mas, quando sintonizamos o seu comprimento de onda, os filmes abrem-se de modos surpreendentes, como se o aparente desfasamento entre as múltiplas camadas da narração fosse uma estratégia para desarmar o espectador.

Se os longos planos de conjunto e os diálogos existencialistas parecem clamar à sisudez intelectual e à pretensão filosófica, lentamente compreendemos que a desconexão entre acção e pensamento abre um espaço para as emoções das personagens transbordarem, numa curiosa exploração de tudo o que as palavras não conseguem ou não sabem dizer. A linguagem tanto pode ser proximidade como afastamento, a gestualidade e a postura traem o que verdadeiramente esta gente sente. Sintomático é que não haja grandes planos nos 90 minutos de My Wife Cries: como se estivéssemos sempre sozinhos, mesmo quando estamos com outros.

My Wife Cries, de Angela Schanelec: retrato de grupo
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Uma sensação que não anda muito longe do que Eva Trobisch propõe com Home Stories, a sua terceira longa-metragem (e segunda presença na Berlinale depois de, com Ivo, ter concorrido na paralela Encounters em 2024). Aqui, essa solidão no meio dos outros é dado adquirido numa família disfuncional que podia ser o exemplo da máxima “não sei viver sem ti nem sei viver contigo”, e que é também microcosmos de uma sociedade reunificada que ainda não sarou por completo as feridas das suas divisões.

Léa, 16 anos, é o suposto centro do filme, mas Trobisch usa-a como porta de entrada para a dinâmica de uma família dividida de Greiz, na Turíngia (região que foi parte da República Democrática Alemã entre 1949 e 1990), confrontada com a escolha da adolescente para um programa televisivo tipo Operação Triunfo ou The Voice. Os pais estão separados e a mãe está grávida do novo marido, a tia historiadora dirige o museu local, os avós tentam manter à tona um hotel e centro equestre que está na família há gerações.

A realizadora e argumentista vai levantando aos poucos os segredos que levam Léa a ter tantas dúvidas sobre a sua participação no concurso e também sobre a sua própria identidade, iluminando imperceptivelmente a sensação de estar presa “entre” fronteiras e não pertencer a lado nenhum, precisamente ao mostrar que o limbo em que a rapariga sente estar será mais uma consequência de escolhas do passado sobre as quais ela não tem controlo. Daí que Eva Trobisch solte as amarras de Léa para explicar que quem está preso, na verdade, são muito mais todos aqueles que ela conhece; presos em papéis que assumiram, num filme que respira um mal-estar filtrado e abafado, mas que acredita ainda haver esperança mesmo ali à esquina.

Somemos-lhes o tour de force de Sandra Hüller no papel principal de Rose e podemos dizer que a prata da casa não fez nada má figura na competição deste ano.

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