Tem-se assistido de uma forma cada vez mais frequente e acelerada à perda por muitos cidadãos de valores associados a gente civilizada e, em particular, à não atribuição de importância a que outros cidadãos acentuem valores que se traduzem em modos de conduta pouco desejáveis.
Na nossa perspectiva, os votos de André Ventura nas últimas eleições presidenciais ou do Chega nas últimas eleições legislativas são o reflexo da referida perda de valores.
Segundo Vicente Valentim, autor do livro O Fim da Vergonha, o crescimento com uma rapidez inesperada de partidos da direita radical não vem do nada, mas sim de um certo tipo de ideias extremas que os partidos da direita convencional reprimiam, mas que eram acolhidas por alguns eleitores, que apenas estavam à espera que alguém talentoso e carismático as conseguisse converter em mais aceitáveis ou menos vergonhosas.
Ora alguns como nós entendem que, na nossa sociedade, esse alguém tem um nome: André Ventura, líder do Chega.
E a isso acrescenta-se que existe uma razão para o seu “sucesso”: ao contrário do que tentamos fazer neste texto, a falta de uma denúncia suficientemente clara, intensa e sem desculpa pelos seus interlocutores da sua falta de carácter, que se traduz numa fonte permanente de contradições, e das consequências de tal falta, na sua intervenção política. E os interlocutores a que nos referimos são os seus pares no Parlamento e aqueles que lhe dão destaque na comunicação social.
1. Falta de carácter
Acerca das suas contradições, três exemplos são plenamente suficientes para ilustrar aquilo de que André Ventura é capaz:
- Sobre o Papa Francisco disse, após a sua morte, “(…) deixa uma marca inspiradora de proximidade e simplicidade que a todos tocou profundamente. Que a sua vida intensa seja um exemplo para todos os que querem servir a causa pública”. Uns anos antes, próximo da criação do Chega, dissera: “Eu acho que este Papa tem prestado um mau serviço ao cristianismo (…) tem mostrado a esquerda revolucionária quase como heróica e a esquerda europeia marxista como a normalidade (…) tem contribuído para destruir as bases do que é a Igreja Católica na Europa (…)”.
No primeiro caso, poderia admitir-se que ao longo do tempo a posição de Ventura pudesse ter mudado de favorecer uma igreja só para “alguns, alguns, alguns” para outra igreja para “todos, todos, todos”. No entanto, mais verosímil será a tese de que tal evolução nunca terá sucedido, tratando-se inicialmente apenas de atrair os seus eleitores católicos mais reacionários, especialmente no financiamento inicial do seu partido. E, quando o Papa morreu, terá sentido que lhe ficava mal insistir na versão original. Na essência, uma mentira, positiva do ponto de vista dos seus objectivos.
- Quanto à modéstia da sua habitação, que divulgou com frequência ter apenas 30 m2, verificou-se ser uma habitação com uma área de cerca de 70 m2 e inserida num condomínio com piscina, garagem e segurança privada.
Neste caso – a tentativa repetida de invocar a modéstia da sua habitação – alegou, como se fosse possível, que a indicação de uma área de 30 m2, em vez de 70 m2, tinha sido um erro e, relativamente às características que distinguiam pela positiva a qualidade da habitação (inserida num condomínio com piscina, garagem e segurança privada), nada referiu autonomamente. Mais uma mentira para o distinguir de outros políticos, que viviam em condições muito mais vantajosas, obtidas à custa do povo que os tinha eleito.
- Em último lugar, os conceitos e argumentos antipopulistas da sua tese de doutoramento, que contradizem o discurso na sua vida política.
Quanto a estas contradições entre o que escreveu na sua tese de doutoramento e o seu discurso político, a resposta que deu quando confrontado com tal facto foi a de que a tese é uma questão de “ciência” enquanto o discurso político é uma questão de “opinião”. A constitucionalista Teresa Violante disse (candidamente, no meu entender) que quem o faz compromete a sua “credibilidade política” e a sua “integridade académica”. Por outras palavras, de leitura mais simples para todos, quem dá a resposta que deu perante os factos com que foi confrontado, confessa mentir, ou na sua tese ou na sua intervenção política, conforme os seus interesses num caso ou no outro.
2. Consequências na sua intervenção política e do seu partido
Naturalmente, a falta de carácter de Ventura tem consequências na sua intervenção política e na do partido que lidera. Consideraremos seguidamente algumas, por aquilo que revelam no perigo do crescimento da sua influência contra a democracia.
- O racismo e a xenofobia que se traduz num conjunto de afirmações que propaga sem pudor, nas quais desconsidera grupos significativos de pessoas, que insulta e que trata como inferiores e descartáveis.
- A insistente afirmação da sua prioridade de luta contra a corrupção, sem especificar a forma de o conseguir e em contradição com a falta de transparência do seu partido, que esconde da Entidade das Contas e Financiamentos Políticos aqueles que financiam o Chega.
- A afirmação de que a sua luta é a favor do povo e contra as elites (nas quais se incluem aqueles que, segundo dados recentemente revelados, financiam o seu partido), o que é falso, tendo em conta a proposta de baixar o IRS e o IRC, mantendo o funcionamento do Sistema Nacional de Saúde e do Sistema de Educação Pública com recursos limitados, transferindo funções suas para sistemas privados aos quais os menos favorecidos não têm acesso por falta de dinheiro.
- A convite do partido espanhol da direita radical, afirmando – em Espanha, sublinhamos – que “temos de mandar Pedro Sanchéz para a cadeia porque é assim que se tratam os criminosos” e prosseguindo dizendo estar orgulhoso com os acontecimentos em Múrcia, no verão passado, quando foram perseguidos imigrantes de forma violenta.
- A proposta de que o procurador-geral da República passasse a ser escolhido pelos próprios membros do Ministério Público, proposta aliás posteriormente abandonada por ser inconstitucional e, na opinião de especialistas, não fazer qualquer sentido.
- A disponibilidade para implementar normas consideradas inconstitucionais pelo Tribunal Constitucional.
3. Vasto apoio aparentemente difícil de explicar
Neste contexto, para muitos será surpreendente o apoio de cerca de um terço dos portugueses a Ventura, nas últimas eleições presidenciais, e ao Chega nas últimas eleições legislativas.
No entanto, para nós, tal apoio é explicável, porque acreditamos
- Por um lado, que um vasto número daqueles que nele votaram, com educação formal limitada e com recursos limitados, sendo atraídos pelo carisma de Ventura, não estão conscientes da sua falta de carácter e das graves implicações políticas que o seu radicalismo de direita nos traria.
- Por outro, aqueles com mais educação formal (até com cursos superiores!) e um estatuto socioeconómico confortável (até gente verdadeiramente rica!), sabem bem aquilo a que Ventura nos conduziria e pertencem ao grupo de reaccionários que no decurso dos últimos 50 anos de democracia calaram as suas convicções e, que agora se sentem à vontade para as expor, nos termos de Vicente Valentim, o referido autor do livro O Fim da Vergonha”. E, curiosamente, dizem que se revêem no slogan “Deus, Pátria, Família” apregoado por Ventura, contra muito do que por ele é proposto e, mais grave ainda, “esquecendo” que tal slogan decorre da tentativa de Salazar segurar o regime do Estado Novo (tal como outros ditadores, em particular fascistas, o fizeram nos seus países).
4. Nota final
Neste artigo, o nosso propósito é o de divulgar a gravidade do que se está a passar, chamando a atenção para que outros – especialmente em meios de comunicação social – não se distraiam e também o façam, se possível com maior vigor e impacto.
Os autores escrevem segundo o acordo ortográfico de 1990
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