Há um frio que não vem nas previsões meteorológicas, principalmente quando se debitam as temperaturas, sem as sensações térmicas que denunciam que viver em Lisboa não é o mesmo que viver em Celorico da Beira. O frio entra pelas frinchas das janelas antigas, instala-se nos corredores compridos, sobe do soalho húmido e fica a escorrer nos mosaicos e azulejos. Não há madeiras nem soalho flutuante. Alguns tapetes de farrapos tentam trazer a ideia de calor à casa. E para os que podem há um ventilador comprado no Lidl, tão barato quão dispendioso na hora de pagar a luz.
É, pois, nesta altura do ano que o orçamento das famílias mais se ressente. A fatura da eletricidade aproxima-se dos 200 euros, empurrada por escalfetas e outros equipamentos que fazem o contador correr à velocidade da aflição. Casas mal-acondicionadas, sem isolamento térmico, sem aquecimento central, norma silenciosa em vastas zonas do país, sobretudo no interior. Para muitos idosos, a braseira e o cobertor elétrico continuam a ser companhia e um risco. A lareira em muitas casas está apagada, porque um trator de lenha ultrapassa os 300 euros; e a idade já não permite ir ao mato, no verão, garantir o inverno.
Quem conhece estas casas geladas a fundo são os enfermeiros e as enfermeiras do apoio domiciliário e os profissionais da assistência social. Levam um cobertor, improvisam a reparação de um vidro partido, fecham melhor uma porta e saem agoniados: como se pode viver assim? Como tomarão banho? A mesma roupa pendurada há duas semanas, a cheirar a mofo, não seca e se há lareira, fica a camisa branco-cinza com aroma de fumeiro. Por causa do frio, mesmo dentro de casa, ao falar sai da boca uma pequena nuvem de fumo, como se estivesse no Ártico.
— Senhor António, porque não acende a lareira?
— Oh, sr.ª Enfermeira, se eu acendesse a lareira logo pela manhã, a lenha chegava-me apenas para um mês.
— E a botija de água quente?
— Oh, essa malvada fez-me uma queimadura no pé….
Duvido que esta realidade atravesse, com nitidez, a vida de alguns dos recentes candidatos às eleições presidenciais que divulgaram patrimónios e contas bancárias. A distância entre esses números e estas casas é tão grande que se torna difícil acreditar numa experiência comum do país. Não falo de teoria: quando me tocam à porta, estou de pijama, robe pesado, meias até ao joelho e pantufas grossas, é assim que se habita o inverno em muitas casas portuguesas, a qualquer hora do dia. Por vezes, vai-se mais cedo para a cama do que se gostaria, porque os aquecedores já estão ligados há demasiadas horas.
Deito-me e percebo o nariz gelado de fora do edredão. Costumo dizer que a minha casa (arrendada) tem um sistema autónomo de ventilação, permanente. As cortinas abanam a cada rajada de vento. E, nesta casa de luxo, que vou ter de deixar até setembro, vejo da janela a minha senhoria a colocar persianas novas e outras condições nos andares de baixo, depois de ter informado que queria regressar à sua propriedade. Só falto sair eu para que venha finalmente proceder da mesma forma no andar que habito.
Mas esta crónica não vive apenas de perceções. Um estudo recente da empresa de energia solar Otovo, com 3800 inquiridos em dez países europeus, mostra que três em cada cinco famílias (60%) receiam o aumento das contas de eletricidade no inverno. Em Portugal, 89% dizem estar preocupados ou muito preocupados. E há um dado que nos expõe sem metáforas: em 2024, Portugal era o quarto Estado-membro da União Europeia com maior percentagem de pessoas incapazes de aquecer adequadamente a casa (14,5%), acima da média europeia (9,2%), segundo o Eurostat.
A tempestade Kristin apenas retirou o telhado, literal e simbolicamente, a uma realidade antiga. As imagens televisivas mostraram, na maioria, casas pobres, frágeis, gente que subiu ao próprio telhado para repor o que o vento levou. Alguns perderam a vida. Mas quem percorre aldeias no verão já viu esta cena várias vezes: idosos a remendar telhas, a improvisar soluções antes que o frio volte. As reformas são baixas. Os apoios, escassos. Será que algum dia seremos como a Suíça? Lá, contam-me os emigrantes, que o conforto térmico é parte do conceito de dignidade habitacional. Não é sequer opção, é requisito obrigatório de construção. Por cá, no interior, continuam a erguer-se prédios sem aquecimento central ou então com a tubagem instalada e a promessa deixada no ar: “Se um dia quiser colocar os radiadores, já fica preparado”.
Falamos muito de transição energética, de painéis solares, de eficiência, mas não tem chegado. Há um país que treme de frio no inverno e, pior, morre a tentar combatê-lo. Por tudo isto, tenho sempre uma resposta na ponta da língua para os que me dizem que são amantes desta época do ano: “Só gosta de frio quem é rico!” É que ainda guardo na memória de infância um aquecedor a óleo, de chapa, que mal irradiava calor. E, no entanto, bastava encostar-me a ele para soltar um grito, por causa da fugaz queimadura. Já para não falar nas camisolas de lã que picavam e apertavam o pescoço ou do peso das mantas, que impunha a mesma posição na cama do deitar ao acordar. Foi na década de 1980, mas o cenário, infelizmente, continua a repetir-se.
A autora escreve segundo o Acordo Ortográfico de 1990
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