Desenhar olhos nas embalagens de comida pode evitar ataques de gaivotas

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O estilo de vida cada vez mais urbano das gaivotas um pouco por toda a Europa transformou estas aves em verdadeiras especialistas em apanhar comida a comensais desprevenidos ao ar livre. As gaivotas-argênteas, em particular, têm vindo a ganhar reputação de ladras de alimentos em localidades costeiras.

Num dia de praia, no Verão passado, observei uma a remexer numa mala deixada sem vigilância e a afastar-se com um pacote de batatas fritas. Infelizmente, não permaneceu tempo suficiente para eu perceber se conseguiu abrir a embalagem.

A observação deste tipo de comportamento levou-me, juntamente com a minha colega Neeltje Boogert, a explorar novas formas de afastar estas aves engenhosas. A nossa mais recente investigação demonstra que a simples presença de um par de olhos desenhados numa embalagem de comida pode ser suficiente para impedir algumas gaivotas de roubarem alimentos.

Este trabalho dá continuidade a estudos anteriores, nos quais verificámos que as gaivotas-argênteas se aproximam mais lentamente da comida quando alguém as observa directamente, em comparação com situações em que o olhar está desviado.

Muitos animais — tanto selvagens como domesticados — são particularmente sensíveis à presença de olhos, que podem sinalizar a existência de um predador ou servir para comunicar intenções. O contacto visual directo é frequentemente interpretado como sinal de agressividade, ao passo que desviar o olhar indica ausência de ameaça.

De um modo geral, os animais adoptam comportamentos defensivos quando detectam olhos fixos neles. Trata-se, provavelmente, de uma resposta instintiva, já que evitar um predador pode depender de uma reacção em fracções de segundo.

Algumas espécies poderão mesmo ter evoluído padrões visuais para explorar este comportamento. As chamadas “manchas oculares” são comuns em muitos insectos, anfíbios e peixes, apresentando-se numa grande diversidade de cores, dimensões e padrões.

A forma exacta como estas marcas afastam predadores tem sido debatida pelos cientistas há mais de um século. Poderão aumentar a cautela dos predadores, ao serem confundidas com olhos de outros animais, ou desviar ataques para zonas menos vitais do corpo.

Partindo do princípio, sustentado pela evolução, de que os olhos aumentam a vigilância nos animais, a ideia de imitar este mecanismo através de olhos artificiais tem sido testada em vários contextos.

No Botsuana, por exemplo, pintaram-se olhos na parte traseira de bovinos para afastar predadores. O gado naquela região está frequentemente em risco de ser atacado por predadores de emboscada, como leões e leopardos, o que gera conflitos com os agricultores. Para testar a eficácia das manchas oculares, investigadores pintaram pares de olhos ou cruzes nas garupas dos animais, deixando outros sem qualquer marca, e monitorizaram os ataques.

Durante o estudo, 19 cabeças de gado foram mortas por leões ou leopardos — mas nenhuma das que apresentavam olhos pintados foi atacada. Além disso, estes animais sofreram menos ataques do que os marcados com cruzes ou os não marcados, sugerindo que as manchas oculares podem constituir um método dissuasor eficaz para uma ampla variedade de espécies.

O estudo

No nosso estudo com gaivotas-argênteas, testámos esta ideia em localidades costeiras da Cornualha, onde estas aves são conhecidas por retirar comida a pessoas que comem ao ar livre. Colocámos pares de olhos em caixas de comida para fora e apresentámos a gaivotas individuais duas opções, dispostas no chão a dois metros de distância: uma caixa com olhos e outra sem qualquer marca.

Os resultados indicam que as gaivotas se mostraram desencorajadas pelos olhos, aproximando-se mais lentamente e bicando menos frequentemente essas embalagens, em comparação com as que não tinham olhos.

Procurámos também perceber se, com o tempo, as gaivotas aprenderiam que os olhos desenhados não representavam uma ameaça real. Para isso, apresentámos a 30 aves uma única caixa — com ou sem olhos — repetindo o procedimento três vezes em intervalos curtos.

Cerca de metade das aves nunca bicou as caixas com olhos, enquanto a outra metade se aproximou rapidamente e tentou obter alimento. Tal sugere que o efeito dos olhos artificiais pode ser duradouro para algumas gaivotas, nomeadamente aquelas que não percebem o engano.

Pretendemos agora testar esta abordagem em contextos mais realistas, em colaboração com vendedores de comida, incentivando o uso de embalagens com olhos desenhados. Embora esta solução possa afastar apenas parte das gaivotas, poderá revelar-se eficaz quando combinada com outras medidas dissuasoras, como fazer ruído.

Marcas semelhantes a olhos já foram utilizadas para afastar aves de determinadas áreas, nomeadamente estorninhos de culturas agrícolas, aves marinhas de redes de pesca e aves de rapina de aeroportos.

Curiosamente, os seres humanos, tal como as gaivotas e muitos outros animais, também reagem à presença de olhos. Estudos demonstram que imagens de olhos humanos podem reduzir furtos de bicicletas, reforçar comportamentos honestos e até aumentar doações para fins de beneficência — tudo isto por criarem a sensação de estarmos a ser observados. Tal poderá dever-se ao facto de sermos uma espécie social, mais propensa a agir correctamente quando sente que pode ser julgada por terceiros.

Ainda assim, tal como sucede com as gaivotas, o efeito não é uniforme: nem todas as pessoas reagem da mesma forma à presença de olhos.

Seja na protecção de alimentos, bicicletas ou gado, o próximo passo consiste em compreender por que razão alguns animais — e também algumas pessoas — não se mostram sensíveis a este estímulo. Para já, a evidência sugere que os olhos artificiais podem constituir uma solução simples e de baixo custo para mitigar conflitos entre humanos e outras espécies.

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