
É da Etiópia que vem uma das bebidas mais consumidas no mundo: o café. Segundo lendas locais, o café passou a ser consumido depois que, ao acaso, um pastor de ovelhas de uma antiga província etíope chamada Kaffa começou a notar que o seu rebanho ficava cheio de energia e disposição após comer os frutos avermelhados de um arbusto.
Desde então, o café tornou-se símbolo nacional, e é um dos elementos identitários mais significativos da cultura da Etiópia. Inclusive, há no país uma cerimónia dedicada à preparação e ao consumo do café, que, entre outros aspetos, envolve a torra dos grãos, a moagem e a preparação final da bebida numa jarra de barro chamada jebena.
Na maior parte das vezes, as cerimónias são conduzidas pelas mulheres, que servem o café aos convidados em pequenas xícaras sem alças. É um ritual que demanda tempo, pois pode durar até três horas. O principal objetivo é fortalecer as relações sociais, uma vez que, durante a cerimónia, familiares, amigos e vizinhos partilham histórias, conversam, resolvem desentendimentos e rogam por bênçãos uns aos outros.
Tal como os etíopes, os ocidentais também se tornaram grandes apreciadores e bebedores de café. Contudo, nas nossas sociedades, o consumo da bebida tem contornos simbólicos muito diferentes.
E o principal elemento diferenciador aqui é a questão do tempo associado ao consumo do café. Enquanto que, para os etíopes, no âmbito da cerimónia, beber café significa a fruição de um tempo de qualidade, para nós ocidentais o ato de consumi-lo está muito relacionado à fruição de um tempo escasso. Os nossos cafés são bebidos em intervalos mínimos, sobretudo para nos proporcionar energia para a execução das nossas tarefas. Um cidadão etíope mais apegado às tradições do seu país ficaria muito constrangido em participar de uma “cerimónia” do café que costumamos praticar em nossas sociedades.
Mas afinal de contas, o que nos impede de beber café de maneira mais digna e prazerosa? Hannah Arendt nos aponta um caminho em A condição humana ao afirmar que: “Os ideais do homo faber fabricante do mundo, que são a permanência, a estabilidade e a durabilidade, foram sacrificados {…]. Vivemos numa sociedade de operários, porque apenas o labor, com a sua inerente fertilidade, tem possibilidade de produzir a abundância.”
O que nos impede de apreciarmos louvavelmente um café – e tantas outras coisas boas que a vida nos oferece – é o fato de vivermos numa sociedade de operários na qual o tempo parece sempre faltar, e esse tempo está constantemente sob domínio rígido de controlo, seja ele interno ou externo em relação ao indivíduo. Vivemos como animal laborans produtores da abundância que nunca é alcançada, mas que é irracionalmente buscada e que consome sobremaneira nossa energia e nosso tempo de vida.
Guy Debord afirma em sua A sociedade do espectáculo, que “a economia transforma o mundo, mas transforma-o somente em mundo da economia”. O que significa dizer que a lógica económica dominante não fica restrita ao mundo do trabalho, ela acaba por se infiltrar em todas as dimensões das nossas vidas.
Por consequência, nossas vidas de animal laborans, em grande medida, deixam de contemplar o espontâneo e passa a ser uma existência de repetições mecânicas de acções operacionais, cujo principal objetivo é o uso eficiente e optimizado do tempo.
O filósofo Santo Agostinho, em suas Confissões, nos leva a considerar o tempo não apenas como um objeto exterior a nós que pode ser medido e administrado, mas como uma experiência interior da consciência que se desdobra entre memória, atenção e expectativa. Quando tempo é reduzido a unidade de medida, de cálculo, é a experiência humana que empobrece. A pressa que domina o animal laborans não é sinal de que vivemos uma escassez de tempo, mas sim que temos perdido a capacidade de habitá-lo.
Por essa razão, não é de se duvidar que a cerimónia do café etíope cause estranhamento em muitos de nós, pois nela o tempo não é um recurso escasso, administrado com a rigidez da economia dominante. A cerimónia do café etíope nos faz recordar que o tempo não se esgota na lógica de produção do animal laborans, ele pode e deve ser vivido de modo muito mais significativo.
Disclaimer : This story is auto aggregated by a computer programme and has not been created or edited by DOWNTHENEWS. Publisher: feeds.feedburner.com









