Enquanto professor de Engenharia Mecânica na Universidade de Coimbra e doutorado em Aerodinâmica, apresento aqui uma análise dos dois eventos meteorológicos extremos que assolaram Portugal, as tempestades Leslie (2018) e Kristin (2026).
Começo por chamar a atenção para a excepcionalidade destes dois fenómenos, que ocorreram em menos de uma década, tendo os valores de velocidade do vento registados excedido, claramente, os valores estabelecidos na regulamentação usada para o dimensionamento de edifícios e estruturas. Dependendo da localização, da exposição e da rugosidade do terreno na zona de implantação podem chegar à ordem de 130 a 140 km/h.
Temos que admitir que as condições climáticas mudaram radicalmente. Na tempestade Kristin, as forças nas zonas mais críticas foram quase duas vezes e meia superiores àquelas para as quais as estruturas tinham sido dimensionadas, enquanto, na tempestade Leslie, essa relação foi ligeiramente superior a uma e meia.
Devo também referir que tenho sérias dúvidas quanto ao cumprimento dos regulamentos técnicos sobre a ação do vento pela totalidade dos edifícios e das estruturas em Portugal. A publicação do Decreto-Lei n.º 555/99 basicamente terminou com a verificação do projeto de engenharia, nas suas várias especialidades, por parte das entidades públicas. Essas verificações foram substituídas pela entrega de declarações assinadas pelos autores dos projectos, nas quais consta que os regulamentos aplicáveis foram cumpridos.
Todos sabemos que ninguém é bom juiz em causa própria e também que os autores têm uma capacidade muito menor de deteção do erro nas suas próprias obras do que a que ocorre quando a verificação é feita por outra pessoa ou entidade. Adicionalmente, terminaram com os ensaios experimentais destinados à verificação de que a obra construída cumpre efetivamente os requisitos impostos pela legislação, com base na suposta garantia decorrente das referidas declarações.
Chegámos a uma situação em que, relativamente ao maior investimento financeiro da maior parte das famílias portuguesas, a casa, não há uma verificação efetiva e rigorosa do desempenho técnico e da segurança.
Quanto à nossa preparação para o futuro, parece-me imperativo que seja desenvolvida uma revisão dos valores adotados para as velocidades do vento no dimensionamento das estruturas, tendo em conta a realidade das alterações climáticas.
Por outro lado, deve haver um grande esforço de investigação para aumentar a resiliência de edifícios, estruturas e equipamentos, acompanhado de uma ampla e rápida disseminação dos conhecimentos adquiridos.
Para tal, será preciso um amplo debate envolvendo as entidades governamentais, as ordens profissionais, a comunidade científica e as associações que representam as empresas de projeto e de construção, a sociedade civil e os consumidores, para implementar medidas que garantam a sua qualidade e a resiliência face aos expectáveis episódios futuros de eventos climáticos extremos.
Ontem já era tarde para o início dessa mudança.
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