EdTech: mergulhar no futuro de olhos fechados

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Imaginemos uma escola primária em que todos os alunos usam uma fita na cabeça que, em combinação com uma plataforma de software, monitoriza ondas cerebrais através da tecnologia dos eletroencefalogramas (EEG) para medir o grau de atenção dos alunos durante as aulas.

Parece um episódio da série Black Mirror, mas as fitas FocusEDU existem mesmo. Foram testadas numa escola na China em 2019, como apresenta o Digital Education Outlook da OCDE, publicado em 2021, com o título “Pushing the frontiers with AI, blockchain, and robots“. Esta realidade está, contudo, mais próxima do que a maioria dos portugueses imagina.

No dia 11 de março, o ministro da Educação, Fernando Alexandre, participou na abertura da TECH_EDU. Esta feira, que segundo os organizadores foi “o primeiro evento nacional inteiramente dedicado à transformação digital da educação em Portugal”, foi organizada no mesmo recinto e em paralelo com a Futurália.

Neste evento, o ministro disse que o recurso à inteligência artificial na administração escolar vai permitir otimizar processos. Por coincidência, dois dias depois, surge a notícia de que uma escola privada em Lisboa utilizou um sistema de reconhecimento facial de crianças para a marcação das presenças na sala de aula.

Estes dois eventos devem levar-nos a refletir. Para além dos óbvios problemas de privacidade e das possíveis falhas destes sistemas, que a própria notícia publicada no PÚBLICO aprofunda, podemos também questionar-nos sobre a utilidade deste tipo de ferramentas.

Na feira TECH_EDU, além dos computadores e quadros digitais, um dos stands apresentava uma ferramenta “inovadora”: um caderno, com um código QR, que permite aos alunos passar diretamente os seus apontamentos manuscritos para uma versão digital, ligando o texto a um sistema de IA que faz resumos e coloca questões. Pode esta, bem como outras ferramentas tecnológicas, ser útil e facilitar a aprendizagem? Talvez, mas pouco importa, uma vez que não é a utilidade destes produtos que determina ou não a sua presença neste tipo de feiras.

As Big Tech (Google, Microsoft, META, etc.) e as EdTech (Kahoot!, Khan Academy, etc.) construíram hoje um ecossistema que vale milhões, e que passou a valer mais desde que o período de ensino à distância causado pela covid-19 acelerou os investimentos de capital de risco em muitas destas start-ups. Para acelerar a adoção pelas famílias, escolas privadas, mas também pelos sistemas de educação pública, estas empresas projetam um futuro da educação que é inevitavelmente conectado à internet das coisas (IoT) e à inteligência artificial. Não é a utilidade do produto que importa, mas sim a ideia de que não se está a ficar para trás na corrida para o futuro.

Algumas destas ferramentas podem ser úteis, mas a sua adoção tem de seguir as lógicas da pedagogia, não as lógicas do mercado. Se o nosso sistema educativo começar a adotar ferramentas que se focam em resolver problemas que não existem, terá seguramente menos capacidade e menos recursos para investir na resolução dos problemas que realmente afetam as comunidades educativas. Por isso é que a inovação na educação não deve estar refém da inovação tecnológica. Ao mergulhar no “futuro” de olhos fechados, corremos o risco de bater no fundo, gastar recursos em “soluções” que não resolvem problemas. Ou pior: a abrir a porta a ferramentas de vigilância que podem ser muito mal utilizadas.

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