Elas são Ponies, ou Persons of No Interest, e por isso são espias

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Enquanto meio mundo (ou assim parece) está debruçado sobre o caso Epstein, mais uma série de espionagem se estreou. Chama-se Ponies, está na SkyShowtime e passa-se em Moscovo no final dos anos 1970. Enquanto meio mundo está a tentar fazer sentido do que não faz sentido no século XXI (ou em qualquer século) sobre o abuso sexual de dezenas de raparigas menores por poderosos, Ponies está a passar em rodapé e há uma coisa que não condiz com o momento: será que por ser uma história protagonizada por duas mulheres tem de ser elogiada por ser “enternecedora” (revista Variety), por ter “profundidade emocional” (Los Angeles Times) ou ser “estilosa” (The Hollywood Reporter)? Aqui se argumentará que não.

Ponies é uma série em que duas mulheres se vêem confrontadas com a possibilidade de se tornarem espias precisamente porque o Kremlin e o KGB (e na verdade grande parte da CIA) não acreditariam que duas mulheres pudessem fazê-lo. São, afinal, “Ponies” ou “Persons of No Interest”. Mulheres relativamente anónimas só por o serem. Mesmo sendo americanas a viver na capital soviética e que uma delas até fale russo fluentemente: Bea, interpretada por Emilia Clarke (sim, a mãe de dragões de A Guerra dos Tronos), com uma camarada que compensa o que não aprendeu em escolas com o seu espírito desenrascadíssimo; Haley Lu Richardson, ou a pobre assistente de Jennifer Coolidge na segunda temporada de The White Lotus e uma actriz que rapidamente estará por todo o lado.

Criada por Susanna Fogel (Booksmart) e David Iserson (Jess e os Rapazes), estreia na próxima sexta-feira o seu quinto episódio. Nos EUA, já chegou ao fim e pôde ser julgada na íntegra. A crítica tem sido simpática, não excessivamente entusiástica, mas o género tem-se sempre intrometido na conversa. E sim, a lente do género é crucial para se ver o mundo. Ponies é, independentemente do género, uma série de género — leia-se de género narrativo. É um thriller de espionagem que consegue duas coisas que nem sempre são possíveis: ter graça e leveza e ao mesmo tempo transmitir a sensação de risco.

Por isso mesmo, não importa assim tanto que pareça a Filadélfia daquela série em que está sempre sol, porque apesar de ser Moscovo (recriada em Budapeste e com todos os carros e a imagética à medida) há mais decotes e casaquinhos ou fatos leves do que a realidade permitiria. Também por isso, alguns golpes de cintura dos argumentistas convidam à generosidade do espectador porque é mesmo sorte que alguém desorientado saiba exactamente para onde ir ou que à segunda tentativa se encontre aquele item num ambiente volátil e hostil.

Ponies nasceu de forma solta, com os dois autores à beira de uma piscina num alojamento local em plena pandemia. As vozes e os nomes das personagens começaram a surgir e depois foi “só” decidir o que queriam mesmo fazer. Mostrar este tipo de personagem (que existiu, de forma não oficial, na história da Guerra Fria) mas sob uma luz diferente. “Na maioria das histórias de espionagem, não os vês a regressar a casa depois da missão. Não os vemos a discutir com os seus cônjuges ou a ter paixões platónicas”, disse Fogel à revista Script Mag. “Não os vemos relaxados, porque geralmente nas histórias de espionagem a tensão é mantida muito elevada.” Esta é uma série sobre espias que também têm uma vida.

E roupas, e sítios onde ir, e mercados onde vender e trocar informação, bares para incendiar, outras pessoas com quem gozar. Por motivos de segurança, Fleetwood Mac e companhia estão sempre a tocar nas cenas em interiores — há escutas por toda a parte e aparentemente, diz a gramática da espionagem de época, basta um vinil ou um rádio para o inimigo se confundir. Deve ser o que sente quem está mergulhado no dossiê Epstein.

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