Embaixadores do Pacto Climático Europeu debatem em Lisboa a transformação do sistema político

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Falar sobre a urgência da crise climática e como a mensagem ecológica é comunicada à população já não chega: os embaixadores do Pacto Climático Europeu querem pôr em cima da mesa a transformação profunda que é preciso fazer na forma como a sociedade é governada.

O Soho Club, em Lisboa, prepara-se para receber este sábado o Encontro Nacional do Pacto Climático Europeu, num evento que reunirá dezenas de embaixadores portugueses para reflectir e desenhar os projectos de acção climática para 2026.

Actualmente, a rede nacional do Pacto Climático Europeu conta com 72 embaixadores, englobando uma diversidade de perfis que vai desde investigadores e autarcas a activistas, juristas e empreendedores, reflectindo uma abordagem descentralizada e participativa à transição climática em Portugal.

“Um mundo sem políticos”

Após uma manhã de retrospectiva das actividades realizadas ao longo de 2025 e planeamento estratégico para 2026, o encontro retoma à tarde, às 13h30, com um workshop da activista e comunicadora Joana Guerra Tadeu, fundadora da página “Ambientalista Imperfeita”, focado na importância da narrativa e da comunicação para a mobilização social efectiva.

O grande destaque do programa é a apresentação oficial do livro Um Mundo sem Políticos, da autoria de Pedro Macedo, investigador na área da governança regenerativa​. A sessão, com início às 15h30, contará com a apresentação da activista Mariana Rodrigues para debater a tese central e mais contundente da obra: a democracia representativa actual é não apenas incapaz de coordenar a resposta a crises, mas encontra-se também sequestrada por interesses económicos de curto prazo e dominada por políticos de carreira corrompidos pelo poder.

O “Provedor do Clima” Pedro Macedo, que já facilitou processos de sustentabilidade em “mais de 60 comunidades”,​ denuncia que a política partidária tradicional e o actual “modelo ultraliberal” deixaram de servir o bem comum, sendo os grandes responsáveis por arrastar a humanidade para um “colapso ecológico e social generalizado”. “Estamos num comboio a alta velocidade em direcção ao abismo”, escreve no livro.

Rejeitando as falsas promessas do “crescimento verde”, Pedro Macedo defende que a única via passa por uma revolução democrática onde os cidadãos assumem o controlo através da democracia directa, substituindo em definitivo os políticos profissionais. Alertando que “o fim do mundo tal como o conhecemos” já é um “processo em curso”, o investigador apela a uma “adaptação profunda” onde as comunidades locais se auto-organizam para gerir colectivamente os bens comuns.

Mais do que alertar para a incapacidade do sistema político de “agir com a escala e a urgência necessárias”, o livro assume-se como um verdadeiro manual de governação regenerativa e descentralizada que a sociedade poderá adoptar num cenário “depois do colapso”.

Rede diversa

A rede portuguesa de 72 embaixadores do Pacto Climático Europeu conta com uma diversidade de percursos e áreas de actuação, comprovando que a transição ecológica não cabe numa única área do conhecimento — exige a mobilização de todos os sectores da sociedade, da academia ao poder local, do empreendedorismo à sociedade civil.

Entre os decisores políticos, destaca-se Ricardo Rio, autarca de Braga e representante do Comité Europeu das Regiões, focado em políticas de desenvolvimento urbano sustentável enquadradas pela Agenda 2030. A ligação entre ciência e governação internacional é assegurada por Axel Eriksson, investigador e activista que integra o grupo consultivo jovem do Secretário-Geral das Nações Unidas.

Na área científica e técnica, participantes como Cristina Calheiros, investigadora no CIIMAR, dedicam-se à criação de soluções baseadas na natureza para a adaptação e mitigação climática, enquanto Cecília Delgado, urbanista e activista, centra o seu trabalho no ordenamento do território e nos sistemas alimentares urbanos. Carolina Bianchi, bióloga e fundadora do movimento Composting Ninjas, é uma das embaixadoras que impulsiona a economia circular e a gestão de biorresíduos.

A justiça social e a inclusão têm voz através de participantes como Paula Cardoso, que integra comunidades sub-representadas no debate climático cruzando-o com a igualdade racial, ou de Luísa Barateiro, bióloga e epidemiologista que desenvolve iniciativas de literacia climática dirigidas a mulheres rurais. A regeneração dos ecossistemas ganha expressão com vozes como a de Mariana Castro, que lidera acções de reflorestação e mobilização comunitária na Serra da Estrela.

No campo do empreendedorismo sustentável, Catarina Matos fundou a primeira loja online “zero desperdício” em Portugal, promovendo o consumo responsável e a educação para novos hábitos, enquanto Marita Setas Ferro, designer à frente da associação Between Parallels, aplica o ecodesign à moda sustentável, unindo o desenho contemporâneo ao artesanato tradicional.

Outro dos rostos conhecidos é o de Mariana Gomes, estudante de Direito e fundadora da associação Último Recurso, que esteve nas primeiras greves climáticas em Portugal e dedica-se hoje à litigância climática — uma das frentes mais emergentes da acção ambiental.

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