Imaginemos que um extraterrestre tinha sido enviado para estudar a actividade parlamentar em Portugal, no que respeita à matéria climática. Suponhamos ainda que vinha com uma missão especial: perceber como, em Portugal, o retrocesso de uma visão política sobre a acção climática tinha encontrado o seu primeiro responsável na Iniciativa Liberal (IL).
Na comunidade onde vivia, noutro planeta, sabia‑se que a crise climática na Terra se estava a agudizar. Os terrestres, que se apelidavam de uma civilização milenar, estavam a agir contra o seu próprio planeta.
Na notícia divulgada pela Rádio Universo, que circulava entre a comunidade de extraterrestres, o repórter alertava que Portugal enfrentava uma tempestade sem precedentes: rios a transbordar, localidades isoladas, milhares de pessoas sem electricidade e um número crescente de desalojados. Era mais um episódio extremo num país que, nos últimos anos, tem alternado entre secas severas e cheias devastadoras.
Embora notícias sobre os impactos das alterações climáticas na Terra não fossem novidade, mesmo para os extraterrestres, o facto de uma força política querer eliminar da Lei de Bases do Clima, num país fustigado pela seca e pelos incêndios, a referência à emergência climática surge como um acto de negação da ciência. E tudo isto acontece num contexto em que a liberdade existente corre o risco de se tornar permeável a discursos negacionistas.
O projecto de alteração à Lei de Bases do Clima apresentado pela IL não é fake news, apurou o extraterrestre. Os deputados da IL defendem por escrito que a emergência climática não é mais do que retórica. A proposta inclui, entre outras mudanças, eliminar da Lei de Bases a referência à emergência climática. Retirar essa classificação de uma realidade global provocada pelo aquecimento global é como dizer que alguém em pleno ataque cardíaco não precisa de ligar para o 112. É um estratagema que cria um vazio conceptual e, de forma lógica, abre a porta ao negacionismo.
Tal medida legislativa levou a cúpula dos extraterrestres a debater o motivo deste retrocesso civilizacional. Era preciso compreender tamanha barbaridade. Os povos bárbaros já tinham sido extintos durante o processo histórico.
Das várias vezes que tinham aterrado nas clouds, onde a informação hoje em dia é armazenada pelos terrestres, notaram que a emergência climática fazia parte da chamada “tripla crise planetária”: alterações climáticas, poluição e perda de biodiversidade, três fenómenos que se reforçam mutuamente. Era um diagnóstico científico tão evidente que nem um extraterrestre, quanto mais um terrestre, se lembraria de o questionar.
E o conceito era real. Ao longo das últimas décadas tinha sido objecto de inúmeros escritos, com especial destaque para o recente parecer da Corte Interamericana de Direitos Humanos, onde a substância e a ciência criavam um acervo inquestionável.
Apesar disso, sabia‑se na cúpula extraterrestre que, no planeta Terra, existia um grupo de negacionistas a actuar em várias partes do globo, com origem sobretudo nos Estados Unidos. A influência desse movimento negacionista crescera a ponto de alcançar o poder. O seu líder chamava-se Donald, razão pela qual entre os extraterrestres surgia a dúvida persistente de estarem perante um simples personagem de desenho animado.
Os extraterrestres levavam muito a sério a etimologia das palavras. Tanto que, quando ouviram “Iniciativa Liberal”, pensaram que se tratava de liberalismo e não de negacionismo. Mas, no mundo dos extraterrestres, esse equívoco não era surpreendente, dado que não tinham os pés assentes na terra.
O que mais intrigava o extraterrestre, porém, era a facilidade com que alguns terrestres tratavam uma ameaça global como se fosse um simples capricho ideológico. A ciência era clara, mas a política parecia preferir a sombra à evidência.
Os dados dessa evidência são cada vez mais frequentes.
Em janeiro último, a Organização Meteorológica Mundial (WMO) reportou que 2025 foi um dos três anos mais quentes alguma vez registados, prolongando a sequência de temperaturas globais extraordinariamente elevadas.
Com todos estes dados recolhidos, e já de regresso à nave espacial, instalou‑se um silêncio de perplexidade. Foi então que, quebrando a estranheza geral, se ouviu a última comunicação da missão à Terra:
Epá, e depois nós é que somos extraterrestres!
Nota: A autora escreve segundo o antigo acordo ortográfico
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