Há uma imagem que não me sai da cabeça quando penso na governação de Donald Trump: a do palco. Não o palco institucional — esse exige contenção, método e respeito pelas formas —, mas o palco televisivo, onde a autoridade se constrói no impacto imediato, na frase forte, no gesto que domina a narrativa. “You’re fired” não era apenas entretenimento; era um modelo de decisão simplificado, quase instintivo, onde a complexidade desaparece para dar lugar à afirmação do poder.
O problema é que a política internacional não é um reality show. Não admite cortes de edição nem recompensas rápidas. Vive de equilíbrios frágeis, de confiança acumulada ao longo de décadas e de uma previsibilidade que, embora imperfeita, é essencial para evitar ruturas. Quando essa lógica é substituída por impulsos, sinais contraditórios ou estratégias de confronto permanente, o efeito não é força — é instabilidade.
A recente decisão de atacar o Irão torna esta reflexão mais exigente. Aqui, o espetáculo deixa de ser apenas estilo e passa a produzir consequências diretas no sistema internacional. Uma nova frente de conflito no Médio Oriente não é um episódio isolado: repercute-se no estreito de Ormuz, nos preços da energia, nas cadeias de abastecimento e, inevitavelmente, na estabilidade económica global. Num mundo já tensionado, cada novo foco de guerra não se soma — multiplica-se.
É neste contexto que a relação com Putin ganha relevo. Não porque faça sentido falar, de forma literal, em “alter ego”. Essa é uma imagem fácil, talvez demasiado fácil. Mas porque há, de facto, uma afinidade de linguagem política: a centralidade do líder, a desvalorização das mediações institucionais, a preferência por relações diretas, quase pessoais, entre centros de poder.
E isso levanta uma questão mais inquietante do que qualquer paralelismo psicológico: que tipo de ordem internacional emerge quando a política deixa de ser estruturada por regras e passa a ser conduzida por vontades?
Quando uma potência como os Estados Unidos se envolve simultaneamente em múltiplas frentes — Ucrânia, Médio Oriente, tensão com a China —, o efeito não é apenas cumulativo. É sistémico. Outros atores observam, medem, testam.
A China avançará sobre Taiwan? Talvez não de forma imediata — o custo de uma invasão é ainda demasiado elevado —, mas certamente intensificará a pressão, aproveitando qualquer sinal de dispersão estratégica americana.
A Coreia do Norte atacará o Sul? Também aqui a resposta prudente é negativa no curto prazo. Mas Pyongyang não precisa de guerra total para ganhar relevância: basta-lhe aumentar a tensão, testar limites e explorar fragilidades.
E a Europa? A Europa ficará, como tantas vezes, no lugar mais desconfortável. Não no centro da decisão, mas no centro das consequências. Pressionada por choques energéticos, dividida politicamente, dependente de uma aliança transatlântica que já não oferece a mesma previsibilidade, e simultaneamente incapaz — por ora — de afirmar uma autonomia estratégica plena.
Talvez seja aqui que a crítica a Trump se torna mais densa. Não apenas porque decide pela força, mas porque parece encarar a força como linguagem suficiente para ordenar o mundo. Ora, a história mostra o contrário: há momentos em que a demonstração de poder dissuade, mas há outros em que desencadeia imitação, aceleração e oportunismo.
No fundo, a questão não é saber se Trump é semelhante a Putin. É saber se estamos a assistir a uma transformação mais profunda: a passagem de uma ordem internacional assente em regras imperfeitas para uma lógica de poder mais crua, mais direta — e, por isso mesmo, mais instável.
Porque quando a política se torna espetáculo, o risco não está apenas no que se faz. Está, sobretudo, no que outros, vendo esse espetáculo, se sentem autorizados a fazer.
E é nesse silêncio — entre uma decisão e a reação do mundo — que, muitas vezes, começa o verdadeiro perigo.
O autor escreve segundo o acordo ortográfico de 1990
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