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No salão de um antigo café em Lisboa, passado e futuro dividem a mesma mesa. Numa ponta, um senhor de boina lê o jornal em papel, dobra cuidadosamente as páginas e comenta que “isto já não é o que era”. Na outra, uma rapariga com o computador aberto pede a password do Wi-Fi enquanto escreve mensagens em inglês. Portugal parece viver entre dois tempos: o da saudade e o da atualização do software.
O fado que ecoa nas ruas não vem apenas das guitarras, mas da forma como se vive. Ensina a guardar o que fomos e a aceitar a vida como poesia, com todas as suas dores, amores e frustrações.
Já o wi-fi nos traz a urgência: responder já, adaptar já, migrar já. O tempo não espera por ninguém, nem por quem ainda está a afinar a guitarra portuguesa.
As antigas fachadas continuam as mesmas, mas por trás das portas encontramos empresas globais, programadores remotos, equipes híbridas que trabalham em fusos diferentes mundo afora. O país que exporta cortiça, vinho, azeite, também quer vender tecnologia e despertar talentos. É o desafio de viver entre a tradição e a modernidade; entre a calma e a velocidade.
O fado pede pausa e silêncio. O wi-fi pede rapidez e produtividade. O fado aceita que a vida doa; o wi-fi sugere que uma app possa resolver o problema.
E nós tentamos harmonizar os dois.
Queremos cidades tecnológicas, mas com azulejos intactos. Queremos investimento estrangeiro, mas com rendas compatíveis à realidade do país. Queremos os turistas, desde que não ocupem a mesa de costume.
Não é fácil conviver entre o fado e o wi-fi. Mas é preciso unir esses dois mundos, e mudar a password de vez em quando.
Portugal é um país que cultiva a memória, não apenas a histórica — os descobrimentos, a monarquia, a República, a ditadura, o 25 de Abril — mas também a memória emocional. A saudade aqui não é só palavra, mas uma forma de sentir o mundo. E mudar rápido demais pode significar perder-se.
O país pequeno precisa sobreviver numa economia global que pede tudo — menos calma e paciência. É preciso viver entre o fado e o wi-fi. Cultivar a memória traz entendimento, mas a modernidade garante o futuro.
Enquanto isso, o garçom passa por entre as mesas do café com o jornal impresso e o computador aberto, e eu desperto da minha viagem entre o passado e o presente. Pago a conta, recolho meus equipamentos eletrônicos e sigo pelas ruelas antigas da cidade.
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