As fortes chuvas dos últimos dias provocaram uma enxurrada, nesta quarta-feira, provocando a inundação do recinto da Fábrica da Pólvora de Vale de Milhaços, no Seixal, causando danos avultados nas máquinas daquele sítio de património pós-industrial, localizado em Corroios, no Seixal. Um recinto que foi classificado em 2012 como monumento de interesse público e que faz parte do Ecomuseu Municipal do Seixal desde 2001.
A real dimensão dos estragos ainda estará por apurar, mas será “muito grande”, sobretudo no coração do núcleo museológico, constituído por máquinas centenárias, diz ao PÚBLICO Graça Filipe, historiadora e uma das fundadoras e porta-voz do grupo Estudo e Preservação do Património Industrial e Científico (EPPIC), da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa.
“Houve uma inundação repentina, motivada pela entrada de uma mistura de águas pluviais e de outras que não estavam devidamente conduzidas pela infra-estrutura. Os terrenos têm estado sempre a receber águas, com as chuvas dos últimos dias, e não aguentaram”, diz a investigadora, que também faz parte dos quadros da Câmara do Seixal. “O sítio da fábrica ocupou o espaço de uma antiga linha de água, que foi tapada quando ela aqui foi construída, e ela agora veio com força”.
Segundo o relato de Graça Filipe, mais de um terço do recinto da antiga unidade fabril, com cerca de 13 hectares, terá ficado submerso, afectando mais de metade dos imóveis do complexo. “A inundação atingiu com particular gravidade as máquinas centenárias, quer as caldeiras quer as máquinas a vapor, provocando estragos significativos”, descreve. “Só uma intervenção muito significativa poderá restaurar o que foi estragado”, assegura.
A inundação do complexo terá chegado a tal nível que, segundo Graça Filipe, a dado momento a água que ali se acumulava “inundou abruptamente” a Avenida da Fábrica da Pólvora, contígua ao recinto, alagando pelo menos duas habitações da zona.
A Fábrica da Pólvora de Vale de Milhaços, sobre a qual a historiadora tem dedicado muito do seu trabalho, tendo publicado, em 2023, o livro A Fábrica de Pólvora de Vale de Milhaços, do século XIX ao século XXI, é frequentemente apontada como um dos casos emblemáticos da forma pouco cuidada como se lida em Portugal com o património arqueológico industrial. Desde 2001, pelo menos, que aguarda ser transformado num espaço devidamente protegido.
A unidade fabril foi fundada no final do século XIX, na sequência de um acidente, em 1897, na laboração da fábrica que a antecedia, também dedicada à produção de pólvora negra. Dessa altura, restam o sistema de produção de energia mecânica a vapor, constituído por uma caldeira geradora de vapor, de 1911, da marca João Peres, e uma máquina a vapor, de 1900, da marca francesa Joseph Farcot.
A pólvora negra foi ali produzida durante todo o século passado, sendo sobretudo enviada para as colónias africanas. O processo de desactivação da fábrica começou em 1998 e terminaria quatro anos depois, quando um acidente de trabalho provocou um morto e vários feridos, em Abril de 2002.
Questionada pelo PÚBLICO, a Câmara do Seixal diz que “está a proceder ao levantamento das consequências sentidas pelas condições climatéricas adversas” dos últimos dias, “pelo que não dispõe ainda da totalidade dos registos, necessitando proceder a uma avaliação com maior profundidade e rigor”.
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