“Estamos a vencer demasiado, não aguentamos mais”

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Costuma ser o momento alto do ano político norte-americano. O discurso do Estado da União costuma ser, também, uma oportunidade magna para um Presidente corrigir o curso, recentrar prioridades e reconquistar as boas graças, sobretudo em anos de eleições.

Donald Trump bem que precisava de o ter feito. Um ano após ter regressado à Casa Branca com promessas de recuperação do poder de compra, o Presidente republicano tem uma taxa de aprovação de 39% (segundo a sondagem desta semana da Ipsos para o Washington Post) e uma maioria dos norte-americanos a dizer que o país está hoje pior que no final da era Biden (segundo o inquérito da Universidade Marista para a NPR). 

Quem o tenha escutado na última madrugada, no Congresso em Washington, ouviu falar de outro país qualquer. “O nosso país está a vencer outra vez. Na verdade, estamos a vencer tanto que nem sabemos o que fazer. As pessoas pedem-me ‘por favor, por favor, por favor, senhor Presidente, estamos a vencer demasiado, não aguentamos mais’”, gracejou Trump, insistindo que os Estados Unidos atravessam um milagre económico.

Escândalo Epstein à parte, e para além da crescente impopularidade da agenda anti-imigração ou também da sua política externa, é precisamente a economia a pesar-lhe na avaliação. Um ano volvido, a inflação persiste nos 2,4%, meros 0,3 pontos percentuais abaixo do número que o antecessor democrata lhe deixou, e outros 0,4 pontos percentuais acima da meta com que a Reserva Federal vai resistindo a um alívio maior das taxas de juro. Trocando por miúdos para o bolso dos norte-americanos: os preços continuam a crescer, ao contrário do que o seu Presidente diz. 

O crescimento económico travou no final de 2025, caindo para 1,4% no último trimestre (menos de metade dos 3% admitido pelos analistas inquiridos pela Reuters), penalizado pelo abrandamento do consumo interno e uma travagem nas exportações. Biden, de que Trump disse ter recebido uma economia em ruínas, entregou-a a crescer 2,8% em 2024. Nas mãos do republicano, em 2025, avançou 2,2%.

O mercado de trabalho está estagnado. Trump vai dizendo que “nunca houve tantos americanos a trabalhar” como consigo ao leme, mas refere-se a números absolutos resultantes do crescimento da população. Na verdade, a proporção da população activa a trabalhar é hoje a mesma que no final da era Biden.

É muito pouco face ao que foi prometido na campanha de 2024 e perante o retrato triunfalista feito na noite de terça-feira em Washington. É muito pouco, sobretudo, após os choques decretados por Trump: as pesadas tarifas que abalaram o comércio internacional (agora maioritariamente chumbadas pelo Supremo Tribunal), os despedimentos e cortes históricos na administração federal e uma extraordinária borla fiscal para os contribuintes mais afortunados (a Amazon de Jeff Bezos, cujos lucros subiram 45% em 2025, vai pagar menos 86% de impostos). 

A anunciada expansão da indústria norte-americana por via das tarifas não se concretizou e o défice comercial persiste. O boom da inteligência artificial não se materializa, para já, numa criação significativa de postos de trabalho na construção de gigantescos centros de dados. Pelo contrário, a IA tem sido utilizada como pretexto por gestores para despedir ou congelar contratações.

Numa realidade paralela, Trump continua a anunciar os EUA como “o país mais atractivo do mundo”, regressado depois de ter estado praticamente “morto” nas mãos do antecessor democrata. Os mercados contam outra coisa: a Reuters noticiava na sexta-feira que os investidores norte-americanos estão a sair da bolsa nacional ao ritmo mais elevado dos últimos 16 anos e a olhar cada vez mais para os índices europeus e japoneses.

Não é só o capital que procura outras paragens. Pela primeira vez em mais de 50 anos, a população imigrante dos EUA está em declínio. As 675 mil deportações de 2025 não explicam tudo; há milhões de estrangeiros a sair do país pelas contas da própria Administração Trump, e cada vez menos a procurar entrar nele perante a multiplicação de sinais de que não serão bem-vindos. Outro barómetro: no último ano, os EUA foram o único grande destino turístico internacional a registar uma quebra do número de visitantes (menos 6%).

Este é o Estado da União que ficou à porta do Congresso na noite de terça-feira. Lá dentro, Trump encontrou refúgio da economia e da política no entretenimento e no auto-elogio, num discurso mais longo do que qualquer um dos seus antecessores (uma hora e 48 minutos). Cá fora, com os EUA a procederem por estes dias à maior mobilização de meios militares para o Médio Oriente desde a invasão do Iraque em 2003, procurará uma nova distracção

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