Em 1961, com 54 anos, Varlam Chalamov, que passou quase 20 anos nos campos de trabalhos forçados mais mortíferos do regime estalinista, escreveu um brevíssimo texto. Composto por 46 entradas telegráficas, intitula-se: O que vi e compreendi no campo. A primeira entrada reza assim: “Compreendi a extrema fragilidade da cultura humana, da civilização. Ao cabo de escassas três semanas de trabalhos árduos, de frio, de fome e de pancadas, um homem transformava-se num animal feroz.”
Johannes Hähle, fotógrafo de uma companhia de propaganda do Exército alemão, estava em Lubny, 200 quilómetros a leste de Kyiv, no dia 16 de Outubro de 1941, quando os homens do Sonderkommando 4a, do Einsatzgruppe C das SS, massacraram 1800 judeus da cidade. Hähle fotografou a preparação da operação, os judeus a abandonarem as suas casas, a reunirem-se num descampado, nos arrabaldes, a esperarem, sentados no chão, rodeados pelos SS. Numa das fotografias, os judeus, divididos em grupos, famílias alargadas, certamente, encaminham-se para o lugar do massacre, valas antitanque a 500 metros dali, escavadas perto de uma cordoaria.
Em primeiro plano, há um grupo que se fragmentou em dois. À frente segue o grosso das pessoas, cerca de 20, os mais jovens e mais robustos, os homens em mangas de camisa e suspensórios, as mulheres de vestido. Os alemães tinham mandado toda a gente despir os sobretudos e os agasalhos no tal descampado. Para trás, ficou uma idosa que caminha a custo, acompanhada por um homem e duas mulheres, que a amparam. Junto destas quatro pessoas está um soldado das SS, que as olha, de bivaque na cabeça. Cada grupo de vítimas foi acompanhado, no caminho para a morte, por uma sentinela. Lá bem ao fundo, depois da longa curva que o caminho traça, distingue-se outro grupo de vítimas, e, alguns metros adiante destas, a silhueta de outro SS. Tudo isto só é visível se ampliarmos bastante a imagem, se a examinarmos sem receio do que iremos encontrar.
Em As Troianas, de Eurípides, Taltíbio, um grego, comunica a Andrómaca, viúva de Heitor, que os aqueus decidiram matar o filho dela, Astíanax, ainda criança, precipitando-o do alto de uma das torres de Tróia. Temem que, chegando a adulto, ele se possa vingar. Na fotografia de Hähle, distinguem-se duas ou três crianças no grupo em primeiro plano. Vários responsáveis nazis justificaram o massacre das crianças nos mesmos moldes de Taltíbio: deixadas vivas, seriam os “futuros vingadores”.
Haverá sempre guerra para divertir os homens.
A grande alegria dos homens foi e sempre será a guerra
e todas as guerras são de Tróia. (1)
Estes versos são de Luís Quintais. Creio que ele está a falar da mesma fragilidade da civilização de que fala Chalamov. Ou talvez não: os versos de Luís Quintais soam bem mais pessimistas do que as frases de Chalamov. Este diz que a selvajaria vem à tona em circunstâncias extremas. Aquele diz que a nossa selvajaria é estrutural. Vendo bem, talvez sim: Chalamov afirma que as condições extremas em que a civilização se dissolve não são, afinal, assim tão extremas.
Nas cidades da Ucrânia, em 2025, vi cartazes de recrutamento que lançavam mão de um humor mordaz. “Estamos preparados para lidar com qualquer ocorrência”, eis o leitmotiv. Num dos cartazes, um soldado ucraniano, a cavalo num gato gigantesco, de espada em riste, tinta de sangue, enfrentava uma horda de zombies. Um dos zombies segurava um telemóvel, outro comia um taco de alface. Os autores do cartaz estariam a apelar à “grande alegria dos homens” de que fala Luís Quintais? Estariam a dizer aos recrutas que se podiam divertir na guerra? Ou queriam apenas fazer sorrir os ucranianos, bem precisados de algum humor nas suas vidas?
Paulo Faria
Nos arredores de Lviv, onde vi os cartazes, bem longe da Rússia, na noite de 8 de Janeiro de 2026, um míssil balístico russo Oreshnik, que viaja dez vezes mais depressa do que o som, atingiu infra-estruturas energéticas. Os estrondos, cerca de uma dezena, ouviram-se em toda a cidade. Estrondos, no plural, porque cada míssil destes transporta várias submunições independentes. As explosões começaram menos de cinco minutos depois de as sirenes de alarme soarem. Por aqueles dias, as temperaturas na Ucrânia eram negativas. Qualquer corte prolongado de energia podia ser fatal para os idosos, para os doentes, para os mais pobres. Talvez a guerra só possa divertir os invasores. Mais uma vez, Luís Quintais:
Estarei sempre do lado dos troianos, reafirmando
a pergunta essencial: que procuram os gregos? (2)
Estarei sempre do lado dos mais fracos. Em passo vagaroso, 500 metros levam seis ou sete minutos a percorrer. As valas antitanque onde os judeus de Lubny foram executados não se vêem na fotografia de Hähle. Seis minutos, sete, no máximo, foi o tempo de que aquelas pessoas dispuseram para se prepararem para morrer, se é que tal coisa é possível. Num dos contos de Chalamov, intitulado Cherry-brandy, o poeta Óssip Mandelstam, preso por ordem de Estaline, está a morrer no campo de trânsito de Vladivostoque, a caminho da Kolyma. Chalamov imagina-o, no meio do delírio provocado pela fome e pela exaustão, a perguntar a si próprio o que significará “morrer como um poeta”. Morrer como um actor, como fez Maiakovski, sim, faz sentido. Mas… o que é morrer como um poeta?, pensa o Mandelstam ficcional de Chalamov. Os judeus de Lubny eram, na sua maioria, lojistas e artesãos. O que significará morrer como um lojista, morrer como um artesão? O que terão dito aqueles homens àquelas mulheres, aquelas mães àqueles filhos durante aqueles seis ou sete minutos? O que terão dito ao soldado das SS que os acompanhava passo a passo? O que lhe terão perguntado? O que terá ele respondido? Num poema em que alude aos nomes inscritos no memorial de Washington aos mortos da guerra do Vietname, Luís Quintais escreve:
A cada um dos anónimos
corresponde uma dor que não poderei dizer
sem trair, um mapa de aguda realidade. (3)
A cultura humana, a civilização de que fala Chalamov, é feita de um frágil equilíbrio entre o silêncio e a palavra, entre o dizer e o calar. A civilização é o momento em que reconhecemos o limiar que a palavra não deve ultrapassar, para não trair. Todos os tiranos são insuportavelmente loquazes. A civilização é também o momento em que recusamos o “porém”. Ismail Kadaré escreveu um romance inteiro (Disputes au sommet, na tradução francesa) sobre o telefonema que Estaline fez para Pasternak, perguntando-lhe o que achava de Mandelstam, antes de mandar prender este. O telefonema durou três minutos, não mais, cerca de metade do tempo que os judeus de Lubny demoraram a chegar às valas antitanque onde foram mortos. Kadaré fala a dado passo do maldito “porém” que tantos usavam ao referir-se a Estaline: “Estaline era implacável, é certo, porém…” Este “porém”, dando início ao movimento para absolver o tirano, assinala o fim da civilização.
Hamburger Institut für Sozialforschung
Em As Troianas, Hécuba, avó de Astíanax, perante o cadáver do neto, declara: “Não tenho louvores para o medo que se forma sem ser examinado pela razão.” (4) Refere-se ao medo que os aqueus tinham daquele menino. O medo pode ser esconjurado através do humor, necessariamente negro, como nos cartazes de recrutamento ucranianos. Ou então, como explica Antonio Scurati, autor de Mussolini — O Filho do Século, pode ser cultivado pelos populistas e transmutado em raiva e em ódio. O medo dos judeus, o medo dos kulaks durante o Holodomor, o medo dos palestinianos, o medo dos migrantes.
Tu não viste Lampedusa
tu n’a pas vu
o refugiado órfão que deu ao mar
a luz dos seus olhos abertos
atacadores clandestinos e solas nas mãos
dos velhos marinheiros ilhéus
não viste aquele arame farpado na alfândega
as espingardas
as falsas identidades, tão lívidas entre as bóias de Lampedusa. (5)
Isto escreve Paola D’Agostino em Lampedusa mon amour. O que significará morrer como um refugiado, como um migrante? “Migrante”, seja como for, não é um ofício. Talvez morrer como um migrante seja não apenas morrer longe de casa, mas também morrer sem haver quem nos escreva uma elegia. Paola D’Agostino procura escrever a elegia dos refugiados e migrantes em Lampedusa mon amour. Chalamov escreveu a elegia de Mandelstam em Cherry-brandy. Neste conto, como nos restantes, Chalamov põe a nu o colapso, a fragilidade da civilização, mas acaba sempre por nos dar a ver, afinal, a força delicada desta fragilidade, a resistência e a humanidade que se alojam nos pormenores. Como “a salsugem colada ao alcatrão”, noutro verso de Paola D’Agostino.
Observo melhor a fotografia de Hähle, amplio-a mais. A cultura humana, a civilização, é olharmos durante muito tempo e com muita atenção para uma imagem. Dou-me conta de que aquilo que me parecia uma coisa é, na verdade, outra: em primeiro plano, as vinte e tal pessoas que se adiantaram não caminham, afinal. Estão paradas, encostadas umas às outras, voltadas umas para as outras. Protegem-se do frio, mas não avançam. Esperam pela idosa que ficou para trás, que caminha a custo, amparada pelo homem de suspensórios à sua direita, pela mulher de xaile na cabeça à sua esquerda. Querem acolher a idosa no meio do grupo, para a pôr a salvo do frio e da morte, como fazem os animais gregários acossados pelos predadores. Formam um círculo defensivo, protegem os mais fracos.
Há nesta imagem imenso medo e imensa angústia, porém… aqui, sim, o “porém” faz sentido, porque é o “porém” dos mais fracos, não é o “porém” que iliba o tirano. Retomo: há nesta imagem imenso medo e imensa angústia, porém, eles esperam ao frio pela idosa para a proteger. E só por isso, só para fixar este momento, valeu a pena Johannes Hähle ter fotografado este crime. Julgando estar a fotografar uma coisa (mas o que queria ele fotografar ao certo? Sabemo-lo sequer?), fotografou outra coisa bem diferente. Registou na película a frágil resistência dos artesãos, dos lojistas, da civilização.
1) Luís Quintais, “Jogo profundo”, A Destruição do Tempo, Assírio & Alvim, 2025.
2) Luís Quintais, “Jogo profundo”, A Destruição do Tempo, Assírio & Alvim, 2025.
3) Luís Quintais, “Uma escavação”, A Destruição do Tempo, Assírio & Alvim, 2025.
4) Eurípides, As Troianas, tradução de Maria Helena da Rocha Pereira, Edições 70, Coimbra, 2025, p. 98.
5) Paola D’Agostino, Occhi da gigante e cuore di perla, Interno Libri, 2025. Tradução deste poema de Inês Faria, Paulo Faria e Rezart Asllani.
Janeiro 2026
Escritor e tradutor literário
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