
O bisavô de Francis Newman, empresário britânico e actual dono, comprou-o como se fosse um retrato original de Rembrandt por uma soma substancial a uma galeria londrina em 1898. Desde que fora feito, por volta de 1632-33, e até essa data não se pusera em causa a sua autoria.
Só em 1912, ano em que reapareceu o retrato que dez anos depois passou a pertencer ao Instituto de Arte de Chicago, é que o conceituado curador e historiador de arte alemão Wilhelm von Bode, também ele um especialista na pintura holandesa do século XVII, defendeu que a obra adquirida em 1898 não passava de uma “reprodução engenhosa”, atribuindo-a à sua oficina.
Passaram, entretanto, 114 anos e a teoria, agora, é outra — afinal, as duas versões da pintura Old Man with a Gold Chain (“Velho com uma Corrente de Ouro”, em tradução livre) terão sido pintadas pelo mesmo artista — Rembrandt van Rijn (1606-1669), o mestre. Quem o defende é outro historiador de arte, um neerlandês nascido nos Estados Unidos, Gary Schwartz, autor de vários livros sobre o pintor e a sua obra. E o debate sobre a autoria regressa, o que, em se tratando de Rembrandt, é comum.
Vários factores concorrem para esta ideia de “dois retratos em (quase) tudo idênticos de um só autor”, a começar pela qualidade da pincelada, que partilham, e pelo facto de ser bastante comum no tempo de Rembrandt os pintores fazerem réplicas das suas próprias obras, argumenta Schwartz.
A versão que pertence a Newman e que nos últimos cem anos foi tida como obra de atelier, porventura de um dos seus alunos mais capazes, é ligeiramente mais pequena do que o retrato que reapareceu em 1912 e de imediato se atribuiu a Rembrandt (é de 1631), e foi executada sobre tela e não sobre madeira, ao contrário do que integra o acervo do Instituto de Arte de Chicago.
Os pigmentos do mestre
Colocados lado a lado, e para um olho não treinado, os dois retratos são praticamente iguais, só a dimensão os distingue. Para Schwartz, as diferenças entre ambos são tão subtis — as pestanas, por exemplo, na pintura que está no Reino Unido são feitas com finas pinceladas de tinta mais clara, ao passo que na outra resultam da raspagem da camada mais escura para deixar que a mais clara apareça — que não sustentam a teoria de que terão saído da mão de artistas diferentes.
“Se Rembrandt tivesse um cliente interessado numa réplica do seu belo ‘Velho’ atraente, qual seria a forma mais eficaz de a fazer? Encarregar um aluno, cujo trabalho teria de ser corrigido — e a pintura de Newman não mostra sinais de correcções — ou repetir os passos que acabara de dar, quando ainda estavam frescos na sua cabeça e na sua mão? A segunda opção faz, certamente, mais sentido. Esta suposição explica, aliás, a qualidade excepcional do retrato sobre tela”, disse o historiador de arte neerlandês ao diário britânico The Guardian.
Schwartz ancora a sua teoria, também, na análise material das imagens recolhidas por raio-X e por infravermelhos, métodos que permitem aceder às camadas invisíveis, às que ficam por baixo da pintura. As da pintura de Chicago, feita sobre madeira, revelaram um desenho subjacente que mostra, por exemplo, ajustes no traje do homem, correcções feitas durante a pintura que não são identificáveis no retrato sobre tela, explica o historiador: “Se tivesse sido um aluno a fazê-lo, teria cometido erros que, depois, o mestre teria querido corrigir. Este trabalho [na tela] é muito preciso.”
Por oposição, o Instituto de Arte de Chicago, que analisou as mesmas imagens que Schwartz e os pigmentos usados, chegou à conclusão de que a teoria que classifica como cópia de atelier o retrato feito sobre tela e hoje numa colecção privada britânica é a que deve prevalecer. Isto sem deixar de reconhecer, no entanto, que o debate em torno das duas versões e do seu objectivo continua “em evolução”.
Desde Dezembro do ano passado, e até 17 de Maio, este instituto tem vindo a mostrar as duas versões de Old Man with a Gold Chain para, assim, contribuir para a reflexão sobre as práticas de trabalho no atelier de Rembrandt e a relação que este mestre incontestado do Século de Ouro da pintura holandesa mantinha com os seus discípulos. É a primeira vez em 400 anos que as duas pinturas estão lado a lado, permitindo aos académicos analisá-las ao vivo e por comparação directa.
“Através da comparação da mão do mestre com a do seu aluno pretende-se responder a questões recorrentes relativas à atribuição [da autoria] na pintura do século XVII e ao processo criativo no círculo de Rembrandt”, pode ler-se no comunicado que apresenta esta iniciativa da equipa de investigação de Chicago, que tem disponível online um ensaio, da autoria da curadora Jacquelyn N. Coutré, em que fundamenta a sua posição face à versão do empresário britânico Francis Newman e a que deu o título “Imitation game: A Rembrandt and its workshop copy” (O jogo da imitação: Um Rembrandt e a sua cópia de atelier, numa tradução livre).
Lembra o Guardian que o Instituto Hamilton Kerr, da Universidade de Cambridge, também se deteve nos pigmentos e na tela do retrato da colecção britânica, concluindo que correspondem aos usados pelo mestre e pela sua oficina. Determinou ainda que a camada preparatória identificada nesta versão — a que se faz para que o suporte possa receber a pintura — é semelhante à de oito obras que Rembrandt executou nos anos de 1632 e 1633.
A falta de consenso em relação ao autor do retrato sobre tela é evidente e, provavelmente, manter-se-á até porque, escreve o Art Newspaper, Rembrandt teve muitos alunos talentosos que aprendiam copiando as obras do seu mestre e, não raras vezes, eram chamados a acabar pinturas que ele tinha começado. Rembrandt, sublinha esta publicação especializada, era um artista de sucesso, com muitas encomendas, e tinha a seu cargo uma grande oficina, com um volume de produção significativo, tendo criado um corpo de trabalhos capaz de alimentar a discussão entre historiadores e outros académicos ao longo de gerações.
No início deste mês, aliás, investigadores do Rijksmuseum, em Amsterdão, autenticaram um Rembrandt — Vision of Zacharias in the Temple (1963) — pertencente a um coleccionador privado, uma pintura que, no início dos anos 60, tinha sido classificada como cópia.
Para complicar, a versão de Old Man with a Gold Chain feita sobre tela pode ainda resultar da combinação do trabalho de Rembrandt com um dos seus alunos, propõe Justus Lange, que em breve mostrará os dois retratos na exposição Rembrandt 1632. Creation of a Brand (7 de Maio a 16 de Agosto), a realizar em Kassel, Alemanha, na galeria dedicada aos mestres da pintura antiga.
“A questão é apenas se vamos ou não aceitar que foi Rembrandt quem pintou o retrato [da colecção britânica]”, disse ainda Schwartz ao Guardian. “Acho o debate muito emocionante. Abre todo o tipo de possibilidades para voltarmos a olhar para muitas pinturas.”
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