Manteve-se mais de um século em laboração e é hoje, apesar da degradação que vem sofrendo, um museu vivo de arqueologia industrial. Falamos da Fábrica de Pólvora de Vale de Milhaços, no Seixal, monumento de interesse público desde 2012. O seu carácter excepcional, assim como a sua absoluta necessidade de preservação, foram reconhecidos pela Europa Nostra, que incluiu esta quinta-feira o complexo industrial entre os sete espaços patrimoniais mais ameaçados do continente.
No seu relatório anual, a Europa Nostra, rede europeia, emanada da sociedade civil, fundada em 1963, em Paris, com o objectivo de proteger o património cultural do continente, destaca a “excepcional preservação” do “património móvel integrado in situ” da fábrica, “incluindo uma máquina a vapor e as suas caldeiras”, bem como as “oito oficinas especializadas dedicadas às sucessivas fases da produção de pólvora, cada uma delas conservando a sua maquinaria original”.
O relatório realça igualmente a “significativa biodiversidade” dos 215 mil metros quadrados ocupados pela fábrica, com 682 espécies identificadas desde 2020 — no ano seguinte, a Câmara Municipal do Seixal iniciou uma cooperação com a Associação Vita Nativa, que organiza actividades regulares de contacto e conhecimento da fauna e da flora daquele espaço. Os esforços do município com vista à musealização do local, iniciados em 2007, mas ainda por cumprir, levaram à sua abertura parcial ao público. A fábrica faz parte, desde 2001, do Ecomuseu Municipal do Seixal.
Referindo a importância simbólica da unidade para a comunidade local, bem como o papel das “autoridades municipais e instituições” na actual preservação da Fábrica da Pólvora de Vale de Milhaços, a Europa Nostra dá conta das “sérias ameaças” que esta enfrenta, fruto de “décadas de envelhecimento do material”, de “manutenção irregular”, do “colapso de tectos, fissuras estruturais, infiltrações e corrosão”, bem como de “episódios de vandalismo” e do “crescimento descontrolado da vegetação”. Aguardando há mais de duas décadas a sua transformação em espaço verdadeiramente protegido, é vista como exemplo da incúria portuguesa no cuidado para com o património histórico industrial.
As condições precárias em que subsiste ter-se-ão agravado durante as recentes tempestades que assolaram o país, e que inundaram grande parte do recinto. “A inundação atingiu com particular gravidade as máquinas centenárias, quer as caldeiras quer as máquinas a vapor, provocando estragos significativos”, descreveu na altura ao PÚBLICO a historiadora Graça Filipe, que também integra os quadros da Câmara Municipal do Seixal. “Só uma intervenção muito significativa poderá restaurar o que foi estragado”, assegurava. Recorde-se que uma das preciosidades da fábrica é uma máquina a vapor Joseph Farcot, de 1900, que ainda se mantinha operacional.
Fundada em 1894, a Fábrica de Pólvora de Vale de Milhaços começou a produzir em 1896. No ano seguinte, um grave acidente destruiu parte do edificado e resultou na morte de nove operários, levando à reconstrução da unidade fabril. Propriedade da Companhia Africana de Pólvora entre 1898 e 1921, passa no ano seguinte a ser gerida pela Sociedade Africana de Pólvora, que assegura a laboração até ao encerramento da fábrica.
As oficinas eram ligadas por uma via férrea com 1500 metros de extensão. Um acidente marcou a vida inicial da fábrica, outro acidente sentenciaria o seu final. A desactivação iniciou-se em 1998 e terminou em 2002, depois de um sinistro que provocou um morto e vários feridos.
Além do alerta para a preservação patrimonial, a inclusão da Fábrica de Pólvora de Vale de Milhaços na lista de património em risco da Europa Nostra torna-a elegível para uma subvenção do Banco Europeu de Investimento no valor de dez mil euros.
A acompanhar a fábrica seixalense na lista encontra-se a Vila de Katapola e a Cidade Antiga de Minoa (Grécia), o Moinho de Água de Fábri, em Feked (Hungria), o Complexo Industrial Blower Hall, em Esch-sur-Alzette (Luxemburgo), o Quartel Britânico de Fort Chambray, em Gozo (Malta), a Igreja de Sântămăria Orlea (Roménia) e a Fábrica de cerveja Weifert, em Pančevo (Sérvia).
É a terceira vez que Portugal surge na lista da Europa Nostra, que começou a ser elaborada em 2013. Nesse primeiro ano, o alerta foi para o Convento de Jesus, em Setúbal; no ano seguinte, foram destacados os Carrilhões do Palácio Nacional de Mafra.
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