Fé em trânsito

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No filme Conclave, o protagonista Cardeal Thomas Lawrence, interpretado por Ralph Fiennes, reitor do Colégio de Cardeais, vive no centro de intrigas e conspirações no Vaticano, ao mesmo tempo em que enfrenta suas próprias dúvidas de fé. Em meio a essa crise existencial, ele afirma que, sem o mistério, a fé não poderia existir entre os homens:

“…o mistério é o caminho da fé — e que o próximo Papa não tenha tantas certezas.” Ao encerrar a discussão e retirar-se do ambiente, deixa suspensa uma ideia essencial: a fé não nasce da resposta, mas daquilo que permanece na dúvida.

Sempre que o ser humano se vê diante de um risco ou de uma ameaça — concreta ou simbólica — emerge o mistério do que está por vir. É nesse intervalo que a fé se instala. Ela não se manifesta apenas como crença abstrata, mas como prática viva: nos textos, nos cantos, nos ritos, na música, na liturgia, na prece, nos elementos da natureza e, sobretudo, no silêncio.

Na atualidade, manter-se fiel a essa dimensão tornou-se um exercício difícil. A fé, muitas vezes, é capturada por discursos midiáticos, por lideranças políticas e econômicas ou por influenciadores globais que a transformam em produto. Nesse processo, o que antes era acolhimento passa a ser instrumento. O que antes abrigava passa a conduzir, influenciar e, por vezes, manipular.

O homem contemporâneo tende a interpretar a história apenas a partir do presente, ignorando ciclos, permanências e transformações. No entanto, a natureza insiste em outra lógica: primavera, verão, outono e inverno não são escolhas — são processos.

O inverno, com sua escuridão e seu rigor, não é ideológico. Ele simplesmente acontece e é antecedido pelo outono, que deixa galhos secos e folhas no chão. E é justamente por isso que prepara o terreno para a primavera. Se há uma metáfora possível para a fé, talvez ela esteja aí: acreditar na primavera mesmo quando tudo ainda é inverno.

A fé, antes de ser um traço cultural ou uma herança simbólica, pode ser pensada como uma necessidade psíquica. Em O Futuro de Uma Ilusão, 1927, Freud propõe que as crenças humanas — especialmente aquelas voltadas ao invisível — não emergem de uma verdade verificável, mas de um desejo: o de proteção, de ordem e de sentido diante da incerteza da existência. A ilusão, nesse contexto, não é simplesmente um erro, mas uma construção necessária — uma resposta ao desamparo.

Se crer é, em alguma medida, uma forma de suportar o mundo, o que acontece quando esse mundo se rompe e o homem atravessa fronteiras, perde língua, território e reconhecimento? Talvez seja nesse intervalo — entre a ruptura e a reconstrução — que algo se revele. É nesse ponto que a fé ganha uma nova dimensão: ela deixa de ser apenas uma resposta ao invisível e passa a ser uma forma de permanência.

O imigrante é aquele que se desloca no espaço, mas também no sentido. Ao atravessar fronteiras, perde referências externas — casa, idioma, paisagem, códigos sociais — e, nesse processo, precisa reconstruir a si mesmo. Nem tudo atravessa com ele. Mas a fé atravessa.

Ela se torna uma espécie de estrutura portátil — uma casa simbólica que não depende do território. Aquilo que antes era prática cultural transforma-se em eixo de sustentação. A fé deixa de ser apenas herdada e passa a ser exercida como necessidade de continuidade do próprio eu.

Nesse corpo em trânsito, a fé não é apenas crença: é resistência. Ela organiza o caos, traduz o mundo desconhecido e oferece ao sujeito uma narrativa possível para sua própria existência em deslocamento. Antes de aprender uma nova língua, o imigrante já interpreta o mundo a partir daquilo em que acredita.

A fé, nesse sentido, não se fixa — ela atravessa.

E talvez seja justamente aí que ela revela sua forma mais radical: não como certeza, mas como capacidade de permanecer mesmo quando tudo se transforma. Se, para Freud, a fé nasce do desamparo, para o imigrante ela se torna também uma forma de reorganizar o pertencimento. É nesse ponto que o pensamento pode se expandir.

O físico e filósofo brasileiro Marcelo Gleiser , em Criação Imperfeita, 2010, propõe que o universo não é uma estrutura estável e acabada, mas um sistema em permanente transformação, marcado pela incompletude e pela imprevisibilidade. Nesse cenário, o ser humano deixa de ocupar uma posição central e passa a ser compreendido como parte de um processo maior, dinâmico e incerto.

Se o universo é, em sua essência, movimento e instabilidade, então o deslocamento deixa de ser exceção e passa a ser condição. O imigrante, nesse sentido, não representa uma ruptura da ordem, mas a manifestação mais visível de uma verdade ainda mais profunda: a de que existir é, inevitavelmente, deslocar-se.

E talvez seja justamente por isso que a fé persista. Não como resposta final, nem como certeza absoluta, mas como um gesto silencioso de continuidade diante da incerteza. Uma forma de habitar o mundo, mesmo quando ele já não se parece com aquilo que chamávamos de casa.

Tenho esperança de que esta primavera venha florida.

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