Gisele Agnelli lança em Lisboa livro sobre o declínio democrático nos EUA

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A socióloga e cientista política brasileira Gisele Agnelli lança nesta segunda-feira (16/02) seu novo livro, Autocracia Made in USA – O Declínio da Democracia nos Estados Unidos Visto de Dentro (editado pela Kotter Portugal), a partir das 19h, na Livraria da Travessa, em Lisboa. Numa conversa com o PÚBLICO Brasil, ela fala sobre o livro, de 224 páginas, “que investiga, com rigor e olhar crítico, o desmonte silencioso da democracia no coração do império”.

Nos Estados Unidos há sete anos, ela confessa que nunca teve receio ao entrar ou sair do país por conta do que escreve como cientista política. Atualmente, porém, mesmo vivendo “no país bastião da liberdade de expressão”, ela admite que se sente insegura. “Como mãe, o temor é ainda mais concreto. Meus filhos são latinos, com traços morenos, e vivo com o receio de que possam ser alvo de perfilamento étnico-racial, sofrer abusos ou abordagens indevidas, mesmo estando plenamente regulares no país”.

Veja a seguir os principais trechos da entrevista com Gisele Agnelli.

Seu novo livro, Autocracia Made in USA, é uma análise do governo Trump. Qual é o principal destaque da obra sobre a volta do político republicano?

O eixo central do livro é a transformação gradual da democracia estadunidense em algo mais próximo de uma autocracia contemporânea. Não se trata de um colapso abrupto, mas de erosão institucional: enfraquecimento do Congresso, captura política do Judiciário, pressão sobre universidades, imprensa e sociedade civil, além da normalização da mentira política e da violência simbólica.

É importante ressaltar que o elemento-chave é o que Levitsky define como executive aggrandizement, a expansão gradual do poder executivo sob aparência constitucional, um executivo “anabolizado”. O trumpismo representa uma forma moderna de degradação democrática: não rompe formalmente com a democracia, mas a esvazia por dentro, corroendo normas informais, deslegitimando adversários e transformando instituições em instrumentos de poder. O Departamento de Justiça e FBI não tem sequer “verniz” de independência, estão atuando 100% dentro da agenda MAGA/ Projeto 2025 (também conhecido como Projeto de Transição Presidencial). O argumento central é que a autocracia do século XXI é institucionalmente mimética da democracia.

Mostro como o segundo mandato não repete o primeiro…. ele aprofunda. O primeiro foi populista; o segundo revela traços oligárquicos e autoritários mais claros, sustentados por elites econômicas, algoritmos e polarização social. A considerada mais forte democracia do medo tem hoje suas instituições fraquejando. Resistirão? Esta é uma pergunta em aberto.

Qual é o real perigo que um governo como o de Trump traz à sociedade, não apenas à sociedade americana?

O risco é sistêmico e global. Quando a maior potência do mundo flerta com práticas iliberais, reconfigura o padrão global de governança democrática, legitima autoritarismos em cadeia. O trumpismo opera como modelo exportável de erosão institucional. Internamente, o perigo é a corrosão lenta do Estado de Direito: concentração de poder, perseguição a dissidentes, captura institucional e erosão da verdade pública. Externamente, há impacto geopolítico: retração do multilateralismo, desestabilização da ordem internacional e fortalecimento de regimes iliberais. Uma autocracia estadunidense não é apenas um fenômeno doméstico, é um terremoto global.

Vivendo nos Estados Unidos, qual é a sua percepção sobre a política de direita no dia-a-dia?

Gisele afirma que os Estados Unidos de hoje não são como eram antigamente
Divulgação

Vivo nos Estados Unidos há sete anos, entre idas e vindas ao Brasil, e o que mais impressiona não é apenas a política institucional, é a cultura política cotidiana. A polarização transbordou do campo partidário para a vida comum: escolas, vizinhanças, igrejas, supermercados. A política deixou de ser apenas institucional e passou a organizar relações sociais, percepções e afetos.

A direita trumpista não é apenas ideológica; ela é profundamente emocional, nacionalista, ressentida, e opera frequentemente por meio de marcadores de exclusão, raciais, de gênero e de pertencimento. Os grupos hoje mais vulneráveis são, sobretudo, latinos e a população LGBTQIA+. O medo do ICE tornou-se parte da paisagem social. Em grupos de WhatsApp de brasileiros e latinos, e até em comunidades locais, circulam alertas informais sobre locais onde agentes migratórios foram vistos. Famílias ilegais ou em processo de regularização estão entre as mais afetadas: houve congelamento de processos migratórios, inclusive pedidos de Green Card para brasileiros e outras nacionalidades, além da suspensão de linhas federais de financiamento destinadas a empreendedores residentes permanentes. Estudantes internacionais evitam exposição pública, manifestações e posicionamentos políticos. Este é o clima.

Há também um sentimento difuso de perda… econômica, cultural e simbólica, que alimenta o populismo contemporâneo. Os Estados Unidos de hoje não são como eram antigamente, o que reforça a narrativa de nós contra eles, seja doméstica ou internacionalmente.

Em pouco tempo, houve retrocessos gigantescos. Quais seriam os piores?

Os retrocessos mais graves indicam uma reconfiguração do funcionamento democrático, como a erosão dos direitos civis: minorias raciais, imigrantes e populações LGBTQIA+ tornaram-se alvos recorrentes de políticas restritivas, vigilância e desproteção institucional. Segundo, o enfraquecimento dos freios e contrapesos. Observa-se pressão política sobre o Judiciário, instrumentalização de agências estatais e expansão do poder executivo dentro da legalidade formal. Terceiro, o ataque ao campo do conhecimento. Universidades, ciência e produção intelectual tornaram-se arenas de disputa política. A deslegitimação do saber técnico e a politização da verdade é estratégia de poder. Quarto, a questão da imigração e da diversidade. A migração deixa de ser tratada como fenômeno social e passa a ser construída como ameaça existencial, reorganizando políticas públicas em torno de controle, exclusão e medo. Quinto, o recuo do multilateralismo. A retração do compromisso com normas internacionais, direitos humanos e cooperação global enfraquece a arquitetura liberal construída no pós-guerra e legitima práticas iliberais em escala global.

Nesse contexto, a extrema direita contemporânea não é um fenômeno doméstico isolado, é transnacional e interconectada. Compartilha repertórios, narrativas e estratégias: nacionalismo identitário, antielitismo performático (anti-globalismo), ataque sistemático à imprensa, uso intensivo da desinformação digital e personalização do poder. Trata-se menos de uma transformação histórica do campo político democrático. O Instituto V-DEm apontou isto, estamos na era da autocratização: 78% da população mundial já vive em regimes autocráticos.

Os imigrantes votaram em Trump. Em Portugal, os brasileiros votaram em André Ventura, líder do partido de extrema-direita Chega. Não é paradoxal?

Não é paradoxal, é um fenômeno de política identitária complexa. O comportamento eleitoral de imigrantes não se explica apenas por interesse material, mas por pertencimento simbólico, percepção de ordem e construção de identidade. Parte dos imigrantes busca assimilação social por meio da adesão a valores percebidos como dominantes: segurança, estabilidade econômica, família, religião, disciplina social. Outros reproduzem ressentimentos contra novos fluxos migratórios, numa tentativa de distinção simbólica: diferenciar-se do “outro mais recente” para reforçar legitimidade e pertencimento.

Além disso, populismos operam fundamentalmente por narrativa emocional, não racional. Medo, ameaça cultural e insegurança social são mobilizadores políticos mais potentes do que programas econômicos. Nesse sentido, gosto dos estudos da pesquisadora Paola Ramos. Ao estudar o comportamento político latino nos Estados Unidos, ela aponta que não existe um “voto latino” homogêneo. Trata-se de um eleitorado diverso, atravessado por religião, classe, geração, grau de assimilação e exposição a narrativas conservadoras herdadas da América Latina. Bolsonarismo entra nesta conta.

No caso brasileiro, tanto nos Estados Unidos quanto em Portugal, observa-se também um elemento cultural específico que pode ser interpretado como busca intensa de validação externa e integração simbólica. Em alguns segmentos, isso se traduz na adesão a discursos de autoridade, mérito individual e rejeição a grupos ainda mais vulneráveis, como novos migrantes ou minorias. Não se trata de contradição, mas de dinâmica clássica de identidade social em contextos de mobilidade e insegurança.

O impacto da apresentação do cantor porto-riquenho Bad Bunny no intervalo do Super Bowl, no último dia 8 de Fevereiro, pode alterar as eleições para o Congresso em Novembro?

A cultura pop tornou-se hoje um instrumento político real, ainda que de difícil mensuração empírica. Figuras como Bad Bunny exercem forte influência sobre jovens latinos, um grupo eleitoral relevante em estados competitivos. Esse tipo de intervenção cultural não decide eleições de forma direta, mas pode ampliar mobilização, estimular participação e ativar politicamente eleitores jovens ou tradicionalmente menos engajados. O efeito é mais sociopolítico do que aritmético.

Já a eleição de meio de mandato exige uma análise muito mais complexa, com múltiplas camadas institucionais e políticas. Há fatores estruturais e conjunturais em disputa: a persistência de Donald Trump na narrativa de fraude eleitoral; tentativas de alteração nas regras e mecanismos de identificação do eleitor; discursos, inclusive de aliados como Steve Bannon, sugerindo uso do aparato migratório como instrumento de pressão política; iniciativas de desqualificação do voto por correio; e, sobretudo, decisões judiciais com potencial impacto sistêmico, como a interpretação da Suprema Corte sobre o Voting Rights Act, especialmente em matéria de redesenho distrital (gerrymandering) nos estados do Sul. Em uma leitura política convencional, isto é, dentro de parâmetros institucionais estáveis, seria possível projetar vantagem democrata na Câmara dos Representantes, enquanto o Senado permaneceria mais competitivo, porém ainda disputável. No entanto, essa é uma análise baseada em “condições normais” de funcionamento democrático…. e os Estados Unidos atravessam um período que foge à normalidade institucional. A questão central já não é apenas quem vence, mas em que condições democráticas essa disputa ocorrerá.

Já tem outro livro em mente? Sobre o que seria?

Por enquanto não tenho planos para o próximo. Estou focada na minha empresa de consultoria e advocacy estratégico nos Estados Unidos, a Agnelli&Bauer. Duas brasileiras com atuação nos EUA focadas em lobby subnacional bilateral, conectando empresas e governos locais de ambos os países.

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