Google anuncia Groundsource com a ambição de “prever o imprevisível” e travar catástrofes

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Mal começámos a entrevista com Yossi Matias, vice-presidente de engenharia e pesquisa da Google e líder da Google Research, este cientista demonstrou conhecer, com detalhe, os desafios meteorológicos recentes em Portugal. Informação essencial para quem lidera a resposta a crises numa das maiores empresas tecnológicas do mundo. A Google já disponibilizava o Flood Hub, uma plataforma que prevê inundações em leitos de rio recorrendo à inteligência artificial, cruzando imagens de satélite e mapas de terreno. No entanto, o Groundsource, anunciado nesta quinta-feira, representa um salto qualitativo ao abordar o que até agora era invisível para as máquinas: as cheias repentinas em zonas urbanas.

O coração desta nova abordagem reside no que Matias designa por “ciclo mágico da investigação”. Segundo o engenheiro, este processo consiste em “ter uma curiosidade impulsionada pelo impacto, fazendo as perguntas que importam”, resolvendo-as cientificamente e aplicando a solução à realidade. O Groundsource utiliza o Gemini para analisar décadas de relatórios públicos, “transformando milhões de documentos num arquivo de dados de alta qualidade”. Foram identificados mais de 2,6 milhões de eventos históricos de inundações em mais de 150 países, permitindo treinar modelos de inteligência artificial para prever desastres em áreas urbanas até 24 horas antes de acontecerem.

O trauma pessoal transformado em missão global

Esta metodologia resolve, assegura Matias, uma lacuna crítica de dados. O cientista recorda que, em 2018, a maioria dos especialistas lhe disse que a previsão de cheias era “totalmente impossível” devido à complexidade das variáveis. Contudo, a equipa insistiu, começando com um projecto-piloto na Índia que protegia um milhão de pessoas, evoluindo para um modelo hidrológico global que hoje cobre dois mil milhões de cidadãos.

A obsessão de Yossi Matias com sistemas de alerta nasceu de uma experiência pessoal. Há cerca de quinze anos viveu de perto a ameaça de um incêndio florestal. No meio da tensão, tentou procurar no Google informação útil sobre o que fazer ou para onde fugir — e não encontrou praticamente nada. “Fiquei surpreendido com a falta de informação”, recorda. “Sinto-me angustiado cada vez que leio sobre um desastre porque me recordo dos meus sentimentos ao ver aquele enorme incêndio.” Dessa sensação de impotência nasceu uma pequena equipa dentro da Google dedicada a melhorar a informação disponível durante crises. O objectivo transformou-se numa espécie de bússola estratégica. A “minha Estrela Polar”, diz Matias, é simples: garantir que “ninguém seja surpreendido por um desastre natural”.

Prever para agir: do Alentejo à Nigéria

Segundo o investigador, a utilidade destes sistemas depende sobretudo da confiança nas previsões. E, por isso, cita um caso recente na Nigéria, onde o Flood Hub permitiu organizar uma evacuação antes de uma cheia atingir regiões rurais remotas.

A expansão das previsões para o ambiente urbano através do Groundsource é “crucial porque é nestas zonas que a densidade populacional e a rapidez dos eventos tornam a resposta humana mais difícil”.

Quando perguntámos se o Google Earth AI poderá ajudar países como Portugal a lidar com os incêndios florestais, o cientista respondeu afirmativamente, explicando o projecto FireSat. Trata-se de um sistema de satélites desenvolvido em parceria com várias organizações internacionais. A ideia é colocar em órbita cerca de 50 satélites — um já foi lançado — capazes de observar cada ponto da Terra a cada 20 minutos. Esta resolução “permitirá detectar focos de incêndio tão pequenos como uma sala de aula”. Para o VP da Google, isto pode mudar completamente a forma como os fogos são combatidos. O objectivo é simples: “travar muitos incêndios florestais antes mesmo de começarem”.

O polímata digital e o futuro da ciência

A visão da Google vai ainda mais longe. O cientista vê a inteligência artificial como um acelerador da descoberta científica. A tecnológica desenvolveu o AI Co-scientist, um sistema de inteligência artificial desenhado para acelerar a investigação académica. Este sistema é capaz de realizar pesquisas bibliográficas, gerar hipóteses e validar teorias em múltiplas disciplinas simultaneamente. Para Matias, isto significa que cada estudante terá acesso a um “laboratório virtual” mais potente do que muitos centros de investigação. O AI Co-scientist actua como um “polímata no bolso”, ligando pontos entre a bioquímica, a física e a ciência dos materiais.

“A trajectória mais emocionante que vejo actualmente é a aceleração da própria descoberta científica”, afirma o líder da Google Research. Matias recusa a ideia de que a tecnologia vá reduzir o número de cientistas. Pelo contrário, acredita que haverá mais pessoas a fazer ciência e a colocar perguntas mais ambiciosas sobre doenças, energia e novos materiais. “O AI Co-scientist já está a ser utilizado para resolver problemas complexos de engenharia e matemática”, mas o maior valor reside na capacidade de democratizar o acesso à investigação de alto nível.

Contudo, esta aceleração tecnológica não dispensa o factor humano. Pelo contrário, o investigador defende que o método científico e a ética são agora mais importantes do que nunca. Ou seja, a inteligência artificial deve ser vista como um “amplificador da ingenuidade humana”, cabendo aos investigadores a tarefa de definir o que é o bem comum e garantir que as máquinas operam segundo os valores da sociedade. O papel do homem é definir o que é “bom” e o que deve ser o objectivo final da tecnologia. “Se nos soa bem, é porque é bom”, remata, numa referência à frase de Duke Ellington.

Se o optimismo de Yossi Matias se confirmar, o tempo em que as populações eram vítimas indefesas dos caprichos da natureza poderá estar a acabar. É um compromisso ambicioso que envolve parcerias com a comunidade académica e organizações internacionais. Para este vice-presidente da Google, o progresso alcançado nos últimos anos em áreas consideradas impossíveis dá-nos razões para acreditar que o simulador da Terra está mais próximo do que imaginamos.

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