Hamnet, choradeira e higiene

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O ser humano anda a chorar à frente de obras de arte há imenso tempo. Tanto tempo, aliás, que já havia regras para a coisa quando Aristóteles entrou em cena com o seu instinto legislador. Num dos volumes mais bizarros que ostenta o seu nome — o possivelmente apócrifo Livro de Problemas, mistura de enciclopédia juvenil e proto-catecismo — o grande sistematizador da nossa civilização dedica alguns parágrafos às lágrimas, como dedica outros a assuntos tão fascinantes como a temperatura da flatulência, e as razões que levam os carecas a gostarem mais de sexo que os não-carecas. A conclusão a que Aristóteles chega é que as vias lacrimais são essencialmente canos de esgoto: existem para escoar a javardice emocional do nosso sistema. O que significa, suponho, que algumas obras de Arte podem ser encaradas como laxantes especialmente potentes. A ideia é desenvolvida na Poética, e na célebre noção de catarse, a choradeira como forma de purgar o excesso de emoção para que a polis pudesse regressar aos seus afazeres. A tragédia, portanto, fazia a higiene da alma; entrava-se obstipado, saía-se levezinho.

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