Há uma velha máxima no mundo do áudio que diz que a conveniência é inimiga da qualidade. Durante anos, quem queria gravar a voz para a Internet tinha de escolher um campo de batalha: ou optava pela simplicidade do “ligar e usar” dos microfones USB, sacrificando alguma fidelidade e capacidade de evolução, ou entrava no complexo (e dispendioso) mundo das ligações analógicas XLR, com as suas mesas de mistura e pré-amplificadores. Com o lançamento do HyperX FlipCast, essa fronteira, que outrora parecia um muro intransponível, tornou-se numa porta aberta. Estamos perante um dispositivo que não obriga o utilizador a escolher, permitindo-lhe crescer ao seu próprio ritmo.
Ao retirar o FlipCast da caixa, a primeira sensação é de familiaridade, misturada com novidade. O design mantém a identidade visual agressiva e moderna a que a HyperX nos habituou, mas há uma sobriedade na construção que inspira confiança. O corpo é robusto, com acabamentos que fogem ao plástico barato, e o peso do equipamento transmite aquela sensação de durabilidade que tanto apreciamos. Mas o que salta imediatamente à vista é a funcionalidade que lhe dá o nome: o mecanismo de rotação.
O “Flip” que faz a diferença
A grande inovação mecânica deste modelo reside no braço de suporte integrado que permite virar o microfone. Não se trata apenas de uma questão de arrumação. A HyperX implementou aqui um sistema de “rodar para silenciar” que é, na minha opinião, uma das melhores implementações da funcionalidade mute do mercado.
Enquanto outros modelos obrigam a procurar botões minúsculos ou a tocar em superfícies sensíveis que por vezes não respondem, no FlipCast o gesto é físico e intuitivo: empurra-se o microfone para cima, rodando-o para longe da boca, e o som é cortado instantaneamente (também há um botão generoso para activar o mute de modo mais tradicional). Um indicador LED muda de cor (o habitual vermelho) para garantir que ninguém ouve o que não deve. É uma solução prática para quem faz transmissões em directo e precisa de tossir ou falar com alguém fora da câmara sem interromper o fluxo da emissão com cliques ruidosos no rato.
A versatilidade das ligações: USB e XLR
O verdadeiro trunfo deste equipamento encontra-se, contudo, na parte traseira. Ali convivem, lado a lado, uma porta USB-C e uma saída XLR macho, o que representa uma flexibilidade ímpar. Pode-se comprar o FlipCast hoje, ligá-lo directamente ao computador portátil com o cabo USB incluído e começar a gravar um podcast ou a participar numa reunião no Zoom com qualidade de estúdio em poucos segundos. O conversor digital interno trata de tudo, oferecendo um som limpo e processado, pronto a ser consumido.
Mas o cenário muda de figura se, daqui a seis meses, o utilizador decidir investir numa mesa de som profissional. Em vez de ter de vender o microfone e comprar outro, basta ligar um cabo XLR e o FlipCast transforma-se num microfone analógico tradicional, ignorando os circuitos digitais internos e entregando o sinal puro à mesa de mistura. Esta capacidade de adaptação faz com que o investimento inicial seja muito mais seguro, pois o microfone acompanha a evolução técnica do estúdio caseiro.
DR
Considerando esta funcionalidade, ficámos desiludidos por não encontrar na caixa uma base de secretária para o microfone. Temos de recorrer a um suporte com rosca universal 5/8” (inclui adaptador 3/8”), o que não é, propriamente, algo que se tenha por casa.
Qualidade sonora e desempenho
No que toca ao som, o FlipCast aposta numa cápsula dinâmica, afastando-se dos modelos de condensador como o QuadCast original. Esta é uma escolha técnica acertada para a maioria das casas portuguesas. Os microfones dinâmicos são menos sensíveis aos ruídos de fundo — o cão a ladrar na rua, a ventoinha do PC ou o eco de uma sala sem tratamento acústico.
Nos nossos testes, e com ambas as ligações, a rejeição de ruído foi exemplar. A voz é captada com um tom quente, “aveludado” e com aquela presença típica da rádio FM, desde que o locutor se mantenha relativamente próximo da grelha. O efeito de proximidade é notório, dando graves potentes à voz quando se fala mais perto, o que agradará a quem procura aquele som de autoridade. Em comparação com a concorrência directa, o som é menos brilhante do que num microfone de condensador, mas muito mais focado e fácil de trabalhar em pós-produção.
Software e integração
Quando utilizado em modo USB, o FlipCast ganha vida através do software Ngenity da marca. É aqui que se controlam as luzes RGB (porque, afinal, é um produto com ADN gaming) e se acede a funcionalidades de processamento digital. O software permite ajustar o ganho, activar filtros passa-alto para cortar frequências graves indesejadas e gerir o limitador que impede a distorção quando se grita de emoção num jogo.
A integração com aplicações de terceiros como o OBS, Discord ou Teams é irrepreensível. O dispositivo é reconhecido imediatamente como uma fonte de entrada de áudio, sem necessidade de instalar controladores complexos. Contudo, é importante notar que, ao usar a ligação XLR, perde-se o acesso a estas funcionalidades de software e à iluminação RGB, uma vez que o microfone passa a funcionar de forma passiva, dependendo da energia e controlo da mesa de mistura externa.
Veredicto
A HyperX conseguiu, com o FlipCast, criar um produto que é mais do que a soma das suas partes. Não é o microfone mais barato do mercado, mas a sua proposta de valor é inegável. Ao oferecer a simplicidade do USB para o principiante e a robustez do XLR para o entusiasta, o FlipCast posiciona-se como uma aquisição que serve para hoje e para o futuro.
A qualidade de construção é sólida, a qualidade de som da cápsula dinâmica perdoa as más acústicas dos quartos modernos e o mecanismo de silenciamento físico é viciante de usar. Pode não ter o encanto visual do seu “irmão” QuadCast com as suas luzes internas, mas compensa com uma utilidade prática e uma versatilidade que poucos conseguem igualar. Para quem quer ser levado a sério na criação de conteúdos, sem ter de tirar um curso de engenharia de som, esta é, muito provavelmente, a escolha mais sensata do momento.
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