Jason Hickel: “Os ricos estão a conduzir-nos para a destruição e não se importam”

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As gargalhadas são contagiantes, quase como pontos de exclamação sonoros. Quando se entusiasma a denunciar as contradições do sistema económico, estas surgem como um reflexo. Jason Hickel fala num tom calmo e pausado, com a assertividade de quem tem a certeza do que diz. Os seus seguidores na rede X estão habituados à contundência das suas opiniões. Ao vivo, porém, no lobby de um hotel em Barcelona, cidade onde lecciona, a timidez e o recato são evidentes.

Nasceu e cresceu em Essuatíni (antiga Suazilândia), na África Austral, onde os pais, norte-americanos, trabalhavam. Foi ali, num país que descreve como periferia da economia mundial, que começou a confrontar-se com a questão central do seu trabalho: como é possível haver tanta riqueza no mundo e, ao mesmo tempo, continuar a existir tanta pobreza? Fez-se eco-socialista.

Professor no Instituto de Ciência e Tecnologia Ambientais da Universidade Autónoma de Barcelona, tornou-se, aos 43 anos, uma das vozes mais influentes no debate internacional sobre o decrescimento, uma proposta que questiona o crescimento económico ilimitado e defende uma reorientação da produção e distribuição de recursos, como forma de travar o colapso ecológico. Nos livros Less Is More: How Degrowth Will Save the World e The Divide: A Brief Guide to Global Inequality and its Solutions (ambos ainda sem tradução em português), argumenta que sem controlo democrático da economia não haverá resposta eficaz para enfrentar a emergência climática. A razão, garante, está no núcleo do sistema: a acumulação de capital. Mesmo que isso choque com as necessidades humanas básicas ou os limites do planeta.

O conhecimento que produz continua afastado da investigação científica mais influente, que domina as principais correntes da economia e é ensinada nas escolas. Sente-o dessa forma?
Que o decrescimento continua a ser marginal na academia ocidental? Sim, claramente. E isso acontece porque é uma posição anticapitalista. A economia dominante existe para justificar, perpetuar e apoiar o capitalismo. Portanto, qualquer tradição económica que ameace esses pressupostos tende a ser empurrada para a margem.

Mas nem sempre foi assim, pois não?
A tendência dominante na economia neoclássica ocidental sempre foi profundamente capitalista, não há dúvida disso. Claro que sempre existiram correntes críticas: economia feminista, ecológica, marxista. Diversas vertentes da economia socialista desafiaram os pressupostos centrais da teoria neoclássica. O decrescimento faz parte dessa tradição e bebe dessas correntes críticas para questionar os seus fundamentos. Quanto à sua influência na academia, diria que foi marginal durante quase toda a sua história. Mas isso está a mudar. À medida que as pessoas reconhecem a aceleração da crise climática e ecológica, e que as ideias dominantes não lhe dão resposta, as propostas do decrescimento tornam-se mais relevantes e vemos cada vez mais apoio a estas ideias na comunidade científica. Recentemente, um estudo revelou que o apoio ao “crescimento verde” entre investigadores de políticas climáticas está a cair muito acentuadamente, enquanto o apoio a ideias de decrescimento aumenta com a mesma rapidez.

No seu livro The Divide, o argumento central é também o das diferentes percepções. Defende que os países do Sul não foram, na verdade, beneficiários da ajuda do Norte nem das políticas de desenvolvimento.
Não, de todo. Pelo contrário: é o Norte que beneficia do Sul. O Sul tem sustentado o desenvolvimento do Norte há 500 anos. A acumulação de capital nos países centrais sempre dependeu da apropriação maciça de mão-de-obra barata e de recursos provenientes da periferia. Esse arranjo é fundamental para os lucros das empresas ocidentais. Como é que se mantém esse fluxo de mão-de-obra e recursos baratos? Impedindo que os países do Sul avancem com projectos de desenvolvimento soberano. Esse tem sido um objectivo central da política externa ocidental: impor sanções económicas, promover golpes de Estado, manipular eleições para impedir a ascensão de governos socialistas ou de qualquer governo que procure exercer soberania sobre os seus recursos.

O que quer dizer com isso?
Durante a Guerra Fria, muita gente assumia que as intervenções ocidentais no Sul Global tinham como alvo exclusivo governos socialistas: impedir que estes chegassem ao poder ou derrubá-los onde existiam. Mas na verdade o alvo era qualquer governo que procurasse exercer soberania. E isto continua hoje. A Guerra Fria, na realidade, nunca terminou. Veja o caso do Irão: não é um governo socialista, nem representa qualquer ameaça militar para a Europa ou para os Estados Unidos da América (EUA). Mas é um governo que procura afirmar soberania e é por isso que está na mira. O mesmo acontece com as acções recentes contra a Venezuela.

O único país que conseguiu escapar a esse enquadramento foi a China, e hoje vemos a elite política ocidental fantasiar com a possibilidade de uma guerra com a China. Não é porque a China represente uma ameaça militar. A sua despesa militar per capita está muito abaixo da média global. A razão é outra: a China segue um caminho de desenvolvimento soberano e fá-lo com sucesso há várias décadas. Os salários aumentaram, já não é uma reserva de mão-de-obra barata para a indústria ocidental. Isto comprime os lucros de empresas ocidentais que estão profundamente integradas na economia chinesa. Além disso, a China está a desenvolver capacidades tecnológicas próprias, que ameaçam os monopólios centrais e permitem que países do Sul Global acedam a tecnologias essenciais em condições muito mais justas, reduzindo a dependência do Ocidente. A ascensão chinesa está a minar o arranjo imperial que sustenta o capitalismo ocidental. E é por isso que querem conter a China. Mas é tarde demais. A China é demasiado poderosa para ser derrotada dessa forma e os decisores ocidentais sabem-no. É também por isso que vemos agora uma nova disputa pela hegemonia na América Latina. Estão a tentar recalibrar o sistema global perante esta nova correlação de forças.

Muita gente diria que a China só conseguiu fazer isso porque não é uma democracia.
É curioso esse argumento de que a China não é uma democracia. Eu diria que os Estados Unidos não são uma democracia. Diria também que Espanha não é uma democracia. As democracias em que vivemos no Ocidente são falsas democracias. De tempos a tempos, elegemos líderes políticos, sim, mas não temos qualquer controlo democrático sobre a economia. Temos democracia política, mas não democracia económica. A forma como organizamos o trabalho, o que produzimos e como usamos os nossos recursos determina a direcção da nossa civilização. Isso é a economia e nós não temos qualquer controlo democrático sobre isso. Quem tem esse controlo é o capital. O 1% que detém a maioria dos activos financeiros, os grandes bancos comerciais e as grandes corporações são quem decide o que é produzido, em que condições são usados o trabalho e os recursos. Planeiam a produção a 20 ou 30 anos. Não temos qualquer poder de decisão democrática sobre isso. Como podemos então dizer que vivemos em democracias reais? A China tem défices democráticos, claro. Mas afirmar que o Ocidente é democrático e que a China não é uma democracia é propaganda. Contrariamente ao que muitas pessoas imaginam, a China tem eleições.

Mas tem apenas um partido…
Isso é coerente com as teorias da democracia socialista. A ideia central é a de que não faz sentido haver um partido de interesses capitalistas, porque representaria os interesses de uma minoria, não da maioria. Há duas formas de estruturar isso: como na China, onde existe o Partido Comunista Chinês, com processos democráticos internos; ou através de um sistema multipartidário composto exclusivamente por partidos socialistas. Nenhuma delas é mais democrática do que o modelo liberal ocidental sob o capitalismo.

A China é uma economia socialista, capitalista ou uma mistura das duas?
É uma mistura. A China é uma economia de mercado, sim, mas com elementos socialistas muito fortes. Cerca de um terço do produto interno bruto [PIB] provém de empresas estatais, o que mostra um nível significativo de controlo público sobre a produção e também sobre o sector financeiro. Existe ainda uma política industrial muito rigorosa, que orienta a produção para objectivos nacionais de desenvolvimento. É esse, aliás, o motivo do sucesso chinês nas energias renováveis na última década. Como conseguiu a China acelerar a expansão mundial das renováveis e, ao mesmo tempo, instalar mais capacidade do que o resto do mundo somado, ano após ano? Porque tem uma política industrial. Significa que a China não está sujeita à lei do valor. Segundo essa lei, o investimento dirige-se apenas ao que é mais lucrativo. Isso é um problema para as renováveis, porque tendem a ser menos lucrativas do que os combustíveis fósseis. Por isso, os países capitalistas não conseguem descarbonizar à velocidade necessária. A China ultrapassa essa inércia através da política industrial: garante investimento suficiente mesmo quando não é o mais lucrativo. Este é um exemplo claro de democracia económica: define-se colectivamente um objectivo, como descarbonizar ou garantir habitação para todos, e cria-se um enquadramento industrial que orienta o investimento para esses objectivos. No Ocidente, não temos nada disto. Devíamos aprender com o exemplo chinês.

Ronda de inspecção nas instalações da central fotovoltaica do projecto híbrido FISHER-Solar, junto ao lago Yanghu, em Qinlan, província de Anhui, na China, a 12 de Janeiro deste ano
Costfoto/NurPhoto via Getty Images

Os últimos três anos foram os mais quentes de que há registo e as metas do Acordo de Paris parecem uma fantasia. Com esta realidade, como se pode transformar a produção e o consumo de forma a avançar no sentido do decrescimento?
Antes de mais, convém esclarecer o que é realmente o decrescimento, porque há muitos mal-entendidos no debate público. Muita gente assume que decrescimento significa reduzir toda a produção, mas não é nada disso. O decrescimento dirige-se especificamente aos países ricos e às formas de produção que são desnecessárias ou prejudiciais. Numa situação de colapso ecológico, faz sentido continuarmos a aumentar a produção de SUV, jactos privados, mansões, fast fashion ou carne à escala industrial? A economia ecológica diz-nos que não. Devemos reduzir essas formas de produção altamente intensivas e destrutivas e reforçar as actividades socialmente necessárias: habitação acessível, saúde universal, regeneração ecológica, energias renováveis, entre outras. Isto não pode ser feito sob o capitalismo.

Acha que os governos ou os líderes políticos sabem realmente o que precisa de ser feito?
Cientificamente, sabemos o que precisa de ser feito e que isso é necessário. Claro que os nossos governos não o farão, porque são capitalistas. E isso vai contra os interesses do capital: produz-se apenas o que é mais lucrativo. Aquilo que é socialmente necessário acaba por não ser produzido. Olhemos para o transporte público: sabemos que precisamos de acesso universal a sistemas integrados de transporte para reduzir as emissões do sector automóvel. Isto é muito fácil de fazer. Mas o capital não realiza esses investimentos porque é muito mais lucrativo investir em automóveis — especialmente movidos a combustíveis fósseis — do que em sistemas eficientes de transporte público. E, por isso, simplesmente não temos esses sistemas. Somos privados de bens e serviços que queremos e poderíamos ter porque não são suficientemente lucrativos para serem produzidos. Somos reféns desta lógica e é essencial reconhecer este facto e encontrar formas de o superar. É isso que uma economia pós-capitalista faria: alinharia a produção com as necessidades sociais e ecológicas. É isso que o decrescimento propõe.

Então o decrescimento não é um fim em si mesmo?
O decrescimento deve ser entendido apenas como um elemento de uma transformação eco-socialista mais ampla. O que queremos é democratizar a produção e alinhá-la com uma nova lei do valor: as necessidades humanas e os objectivos ecológicos. Temos as tecnologias necessárias para isso, mas não há forma de acontecer sob o capitalismo. Requer uma transformação democrática da economia, na qual alinhamos a produção com objectivos definidos democraticamente. Muitas pessoas perguntarão: “Reduzimos essas formas prejudiciais de produção, e os empregos? E os trabalhadores dessas fábricas?” A resposta dos economistas ecológicos é muito simples: uma garantia pública de emprego. Isso permitiria que qualquer pessoa pudesse qualificar-se e participar em obras públicas necessárias, com bons salários e democracia no local de trabalho; aboliria imediatamente o desemprego involuntário, forneceria a mão-de-obra necessária para uma transformação social rápida e melhoraria o poder negocial da classe trabalhadora, reduzindo drasticamente a desigualdade.

Roger Cremers/Lumen Photo via Alamy Stock Photo

Hoje, basta mencionar a palavra “socialismo” para dispararem alarmes. A nacionalização passou a ser vista quase como algo impensável. Como saberá, em Portugal houve uma revolução em que trabalhadores e militares controlavam fábricas e bancos e todo o sistema bancário foi nacionalizado. Estas ideias simplesmente desapareceram?
Estava a pensar na Revolução dos Cravos e lembrei-me de que, em 1974 e 1975, os EUA chegaram a preparar planos para invadir Portugal.

Sim, para tomar os Açores.
Exactamente. Achavam que, se um governo comunista chegasse ao poder em Portugal por via democrática, teriam de intervir militarmente. Uma parte importante da explicação é a intervenção norte-americana. Não é a única, mas é central. Na maior parte do Sul da Europa — Grécia, Itália, França, Espanha, Portugal — o socialismo era extremamente popular. E os partidos socialistas e comunistas estavam em posição de ganhar eleições. Os EUA intervieram para impedir a sua ascensão. Não podemos subestimar a forma como procuraram moldar a Europa para garantir o alinhamento com os interesses do capital norte-americano.

Os EUA nunca consideraram a Europa uma verdadeira aliada. Consideram-na antes uma base estratégica para projectar poder no hemisfério oriental e sempre procuraram moldá-la em função desses interesses: interferindo em eleições europeias, estabelecendo bases militares e incentivando os países europeus a manter uma relação antagónica com a China e a Rússia. O importante a compreender é que a Europa, enquanto entidade geográfica, não existe. Existe um continente: a Eurásia. A parte ocidental da Eurásia — aquilo a que chamamos Europa — deveria entender-se como parte desse continente mais amplo, não fosse o facto de os EUA terem procurado separar a Europa do resto da Eurásia por razões geopolíticas. É do interesse dos EUA que a Europa seja antagónica em relação à Eurásia; não é do interesse da Europa. O interesse da Europa é a unidade com a Eurásia. Isso é do interesse das classes trabalhadoras europeias e da sociedade europeia.

Diria que a União Europeia foi, de certa forma, uma criação dos Estados Unidos? Pelo menos no que diz respeito à sua política económica?
Posso dizer o seguinte: grande parte da política económica da União Europeia foi estruturada para impedir a implementação de políticas socialistas. Por exemplo, as regras do défice, que dificultam qualquer expansão séria do investimento público e do controlo democrático da produção. Mesmo quando um governo socialista ganha eleições, torna-se muito difícil implementar o programa com que foi eleito. Bruxelas torna isso quase impossível.

Se Portugal não tivesse aderido ao euro, poderia ser mais soberano e ter políticas próprias, mesmo sendo parte da União Europeia?
A união monetária poderia, em teoria, ser algo positivo. Mas não sob o modelo de governação actual. Na verdade, seria preferível que países como Portugal ou Espanha tivessem moedas próprias, porque isso lhes daria maior controlo sobre a produção interna e permitiria criar mecanismos de financiamento público muito mais robustos. A não ser que haja uma reforma profunda em Bruxelas — que considero improvável —, a soberania monetária seria preferível. Ninguém deseja ver a fragmentação da Europa. A cooperação internacional é importante e deve existir. Mas se a arquitectura actual impede políticas sociais e ecológicas essenciais, é necessário reavaliar.

Poder-se-ia dizer que “taxar os ricos” seria uma forma de canalizar capital para actividades produtivas socialmente úteis. Thomas Piketty ou Joseph Stiglitz defendem que, com uma tributação eficaz e boa regulação pública, seria possível combater a crise climática mantendo uma sociedade capitalista.
Piketty é socialista, é diferente de Stiglitz.

Ambos defendem uma abordagem reformista, baseada em taxar os ricos. Se essas medidas fossem implementadas, permitiriam avançar para ideias como o decrescimento?
A política fiscal que defendem é importante, devíamos adoptá-la. Reduzir o poder de compra dos mais ricos é essencial para atingir os objectivos climáticos. Isso é incontestável. Um estudo recente mostrou algo que toda a gente deveria saber: os milionários estão no caminho para consumir 72% do orçamento de carbono restante para limitar o aquecimento a 1,5 graus Celsius. Só os milionários. Estas pessoas estão a conduzir-nos para a destruição e não se importam. O capital não se importa, desde que possa lucrar com a crise. Temos de perceber que as alterações climáticas são uma guerra de classes. Se tivermos algum instinto de sobrevivência colectiva, temos de parar isto. E devemos organizar-nos para o impedir. A maioria das pessoas não compreende o que é o socialismo. Acredita que o capitalismo equivale à democracia. Eu defendo que não. Não vivemos em democracias reais e, muito menos, em democracias económicas. O princípio central do socialismo é precisamente a democracia. Como dizia Eugene Debs, socialista norte-americano, o socialismo é a extensão da democracia à esfera da produção, à economia. Devíamos poder alinhar a produção com objectivos definidos democraticamente e ter controlo democrático sobre as empresas privadas. Qualquer pessoa que trabalhe numa empresa privada — que funciona como uma estrutura autoritária, onde não tem qualquer poder de decisão sobre o que é produzido, como é produzido e para quem — devia apoiar a democratização das empresas. Isso permitiria alinhar a produção com as necessidades sociais e ecológicas. Quem reconhece o valor da democracia no local de trabalho já está, de certa forma, no caminho do socialismo.

Acha que as pessoas pensam sequer nisso, entendem que é possível?
Há um estudo interessante, feito nos EUA, sobre democracia no local de trabalho, que mostra que a maioria das pessoas apoia a democracia nas empresas, mesmo quando compreende as responsabilidades que isso implica. Isto sugere que as pessoas querem uma economia desse tipo e participar na definição do rumo da produção. Imagine que trabalha numa fábrica de jactos privados e passa a ter controlo democrático sobre o processo produtivo. Continuaria a produzir jactos privados? Não. Converteria quase imediatamente essa fábrica para produzir, por exemplo, comboios de alta velocidade, algo socialmente útil. Recentemente, publicámos um estudo em que apresentámos às pessoas uma descrição de meia página sobre o que seria uma transformação eco-socialista. Mas não usámos a palavra eco-socialismo. Testámos então o nível de apoio a essa proposta. Incluímos apenas as políticas concretas e a visão geral desse tipo de transformação. Descobrimos que havia um apoio esmagador: entre 70% e 80% das pessoas inquiridas nos Estados Unidos e no Reino Unido apoiavam estas propostas.

Portanto, o problema é o nome? É um problema de comunicação?
É um problema de mal-entendidos construídos ao longo de várias gerações. Houve uma campanha organizada para estigmatizar a própria palavra “socialismo”. E isso é notável, porque, historicamente, o socialismo foi uma das ideias políticas mais populares na Europa. Durante décadas fomos bombardeados com propaganda que procurou associar “socialismo” a algo negativo, perigoso ou autoritário. As pessoas ouvem a palavra e retraem-se, mas isso deve-se à forma como foram ensinadas a reagir, não ao conteúdo real da ideia. Temos de conseguir pensar por nós próprios. O mesmo se aplica aos sindicatos. Uma das razões pelas quais já não inspiram as pessoas é o facto de o seu horizonte de acção se ter tornado tão limitado. Hoje, a maior ambição sindical parece ser negociar salários um pouco melhores dentro da estrutura económica existente, quando o que realmente precisamos é de controlar democraticamente a produção. Isso, sim, seria inspirador. Os sindicatos deviam lutar por uma verdadeira transformação social.

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Mas sindicatos nos EUA, por exemplo em torno da Amazon ou de outras grandes multinacionais, têm vindo a ganhar força, em contraste com o que acontece na União Europeia, onde a sindicalização está a perder terreno. Em Portugal é muito baixa.
O início da queda da filiação sindical remonta aos anos 1980, quando houve ataques coordenados contra os sindicatos, liderados por Ronald Reagan e Margaret Thatcher, nos Estados Unidos e no Reino Unido. A razão desses ataques foi o sucesso dos movimentos socialistas ao longo do século XX. Com a ascensão do socialismo em muitos países, surgiram também tendências revolucionárias nos Estados ocidentais. A classe capitalista foi obrigada a fazer concessões muito significativas aos movimentos da classe trabalhadora: serviços públicos universais, habitação mais acessível, melhores salários. Só que isso criou uma crise para a acumulação de capital nos anos 1970.

Como é que voltou a erguer-se com tanta força?
O sistema ficou encurralado: de um lado, trabalhadores mais fortes, com maior poder negocial; do outro, o Sul Global finalmente a utilizar os seus próprios recursos para si próprio. Os lucros comprimiram-se. O capitalismo entrou numa crise profunda, “caiu de joelhos” nos anos 1970. Perante isso, as potências centrais tiveram de escolher. Poderiam ter avançado para uma economia pós-capitalista, uma forma de socialismo democrático que acomodasse essas mudanças históricas sem entrar em colapso. Uma economia desse tipo poderia ter integrado as conquistas laborais no Norte e as conquistas anticoloniais no Sul sem gerar instabilidade. Mas escolheram o caminho oposto: esmagar salários no centro, atacando os sindicatos e impor programas de ajustamento no Sul Global para restaurar as velhas hierarquias coloniais. Essas foram as duas intervenções centrais da contra-ofensiva neoliberal. Ambas envolveram formas profundas de violência económica, política e social. Foi assim que conseguiram ressuscitar a acumulação de capital na década de 1980. E esse continua a ser o sistema em que vivemos: um ciclo interminável de violência económica contra as classes trabalhadoras em todo o mundo.

No livro The Divide argumenta que há uma relação intrincada entre colonialismo e capitalismo. Ainda vivemos num mundo moldado por essa lógica?
Sim. Vivemos essencialmente no mesmo mundo. Claro que houve alterações e transformações históricas importantes e devemos reconhecê-las, mas o padrão permanece. Quando o capitalismo emerge, há cerca de 500 anos, necessita de um fluxo abundante e crescente de mão-de-obra barata e de recursos naturais. Esse fluxo não podia ser obtido nos países centrais sem gerar contradições sociais e ecológicas explosivas. Por isso teve de ser obtido noutros lugares. O objectivo do colonialismo foi reorganizar a produção nos territórios colonizados para servir a acumulação e o consumo nos países centrais. Se as pessoas utilizavam as suas terras para agricultura de subsistência ou produção local, tinham de ser deslocadas para plantações de açúcar, de tabaco, para as minas ou para culturas e indústrias voltadas para exportação. Trata-se, estruturalmente, de reorientar a produção no Sul para servir a acumulação no Norte. E isso continua hoje. Uma parte enorme da produção do Sul Global está integrada em cadeias globais de abastecimento controladas por empresas sediadas nos países centrais.

Trabalhador corta ervas daninhas numa plantação de cana-de-açúcar da South Nyanza Sugar Company Limited (SonySugar) no condado de Migori, no Quénia
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Centro de dados da Amazon Web Services, em Hermiston, Oregon, EUA
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Falou de apropriação e pensei na inteligência artificial (IA). Cinco ou seis homens riquíssimos controlam as principais empresas de IA do mundo. Como é que uma ferramenta tão poderosa não está sob controlo de uma organização colectiva ou pública?
É absurdo. É um exemplo perfeito da natureza profundamente antidemocrática do capitalismo. Capacidades produtivas absolutamente cruciais para o futuro da humanidade estão completamente fora de controlo democrático. São esses homens que decidem o futuro da IA e não lhes interessa se isso é destrutivo para a sociedade ou para o planeta. O que lhes interessa é lucro e poder. A IA é uma força potentíssima, capaz de provocar impactos sociais profundos. Uma ferramenta desta magnitude tem de ser orientada para fins benéficos, não para a acumulação privada. Qualquer pessoa sensata consegue ver isto.

Quanto a recursos, a quantidade de energia que esta tecnologia consome… Estão a reabrir-se centrais nucleares que tinham sido encerradas.
Os planos para expandir a capacidade energética necessária para sustentar a IA vão violar ainda mais os compromissos climáticos. Simplesmente não se importam com a existência de um planeta habitável. Temos de ser muito claros: se falharmos os objectivos climáticos — e estamos no caminho para falhar —, enfrentaremos níveis de aquecimento da ordem dos 3 graus Celsius até ao final do século. Isso seria devastador.

Como é que isto pode acontecer? Há um acordo. Quer dizer que a ideia de direito internacional não é real?
O Acordo de Paris é um paradoxo interessante. Por um lado, mostra que temos capacidade política para nos reunirmos e definir objectivos climáticos comuns. A crise climática é, no essencial, determinada pelo sistema de produção: pelo que produzimos, pela forma como produzimos, por quem controla o investimento e pelas fontes de energia que utilizamos. Podemos reunir-nos todas as vezes que quisermos e dizer: “Vamos limitar o aquecimento a 1,5 ou 2 graus Celsius.” Mas se não tivermos controlo democrático sobre a produção, nunca conseguiremos cumprir esses compromissos.

Então os governos são inúteis?
Os governos estão, na prática, alinhados com a classe capitalista. Mesmo quando assinam acordos climáticos, não podem tomar medidas que contrariem os interesses das elites económicas dos seus próprios países. Deveríamos organizar-nos para eleger governos capazes de implementar transformações democráticas profundas. Por outras palavras, governos socialistas democráticos. Precisamos de construir essa capacidade política. Quanto ao direito internacional, é evidente que não existe. É um mito. A única altura em que o direito internacional é respeitado pelas potências centrais é quando coincide com os seus interesses geopolíticos. Veja o que está a acontecer em Gaza: não querem saber. Violam o direito internacional com a mesma facilidade com que respiram.

O que está a acontecer em Gaza é o exemplo mais claro do que tem estado a dizer.
Sem dúvida. Temos um genocídio transmitido em directo para os nossos telefones. Todas as grandes organizações de direitos humanos o classificam como genocídio. E as potências ocidentais estão perfeitamente confortáveis em violar o direito internacional com total impunidade, diante de todos nós. Simplesmente não se importam. Muita gente diz: “Ah, mas alguma coisa mudou.” Não mudou nada.

Então, o decrescimento não é possível?
O decrescimento não é possível enquanto estivermos numa economia capitalista. Ponto final. Para mim, é muito claro. O que precisa de ser superado é o controlo capitalista sobre a produção. Esse tem de ser o primeiro objectivo.

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