Não se esperava que nesta sua ida às boxes, para usar a expressão feliz do director do Público, David Pontes, sobre o 25.º congresso do PS, José Luís Carneiro fosse atropelado, apesar de nas últimas semanas terem aparecido sinais ténues de contestação à sua liderança; como não se esperava que o secretário-geral do PS saísse de Viseu embalado numa vaga de entusiasmo irreprimível, próprio de um partido crente nas suas conquistas ao virar da esquina. Não admira por isso que no discurso de encerramento do congresso, José Luís Carneiro apostasse em declarar o PS não como uma personagem à procura de um actor, mas antes como um actor que sabe bem como interpretar as suas personagens clássicas: as do reformismo, da modernidade, da inclusão ou do futuro.
Mas se esse discurso era o que se esperava de um líder no final de uma festa partidária, houve perguntas que continuaram sem resposta. A principal: como vai agir o PS perante a continuada fórmula do Governo que tem por base a crença que, em matéria de negociação política para viabilizar diplomas na assembleia, o PS e o Chega valem pelos votos, não pelos programas. Quer dizer, se alguém esperava uma posição diferente da ambiguidade tradicional, enganou-se.
O que nos leva para uma série de perguntas que o PS continua, de alguma forma, sem responder de forma cabal.
“O país mudou e mudou mais rápido do que nós. E quando o mundo muda, não basta fazermos mais do mesmo. É preciso reflectir, ouvir e agir”, disse Miguel Costa Matos, perante o congresso.
O PS, diz o deputado que liderou a Juventude Socialista, pede coragem de reflectir, o que quer dizer, reclama a predisposição de um partido que se diz reformista para discutir e admitir a sua própria reforma. A hesitação sobre a forma de lidar com o Governo ou as propostas da moção de José Luís Carneiro sobre a regionalização, ou as que apresentou para a economia – em especial o Simplex com recurso à inteligência artificial – são um ponto de partida para essa reflexão?
Muito para lá do que se lê e se vê nos noticiários, um congresso partidário é sempre um momento em que se pode perceber melhor o que está nas entrelinhas das votações e dos discursos. Por isso vamos ter neste episódio David Santiago, editor de Política do PÚBLICO que acompanhou o 25.º congresso do PS em Viseu do princípio ao fim.
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