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Vladimir Safatle, filósofo e docente da Universidade de São Paulo (USP), argumenta em seu livro A Ameaça Interna — Psicanálise dos Novos Fascismos Globais (editora Ubu) que há uma continuidade entre as formas de pensar e organizar a vida nas sociedades chamadas neoliberais e aquilo que ele define como fascismo global.
Elementos como o individualismo extremo, a lógica da competição permanente e a ideia de que alguém inevitavelmente precisa perder fazem parte de uma mesma estrutura. Em vez de classificar esses sistemas como “democracias”, ele propõe entendê-los como “fascismos restritos”.
O que se observa hoje no cenário político, marcado pelo crescimento de populismos autoritários em diferentes países, não seria uma simples analogia com o fascismo nem um retorno a ele, mas sua própria manifestação. O fascismo não aparece como um desvio histórico, mas como a expressão mais bem acabada de um processo que tem origem na violência colonial.
Aimé Cesaire, poeta e político, em seu Discurso sobre o Colonialismo, aproxima o Holocausto ao tráfico de africanos escravizados e percebe o quanto um, cometido por cerca de quatro séculos e com muitos milhões de pessoas vítimas capturadas, não tem a atenção da Europa enquanto crime humanitário.
Diz Cesaire: “O que [A Europa] não perdoa em Hitler não é o crime em si, o crime contra o homem, não é a humilhação do homem em si, é o crime contra o homem branco, a humilhação do homem branco e o ter aplicado à Europa processos colonialistas a que até aqui só os árabes da Argélia, os “coolies” da Índia e os negros da África estavam subordinados.”
Ainda que não negue o tamanho da violência desumanizadora do Holocausto, pergunta-se porque a mesma indignação não é aplicada aos corpos africanos e diaspóricos.
No último 25 de março, os países membros da Organização das Nações Unidas (ONU) aprovaram, com séculos de atraso, uma declaração definindo a escravização como o mais grave crime contra a humanidade. A medida é mais simbólica do que, por ora, efetiva. O Presidente de Gana, país que apresentou a resolução que pede reparação, John Dramani Mahama, diz que esta é uma salvaguarda contra o esquecimento.
Cento e vinte e três países votaram a favor da declaração. Três, contra e nenhuma surpresa: Estados Unidos, Israel e Argentina. E 52 países se abstiveram, e aqui mora outro perigo conhecido: o silêncio. A União Europeia lavou suas mãos sem tirar o sangue, abstendo-se.
Portugal, Espanha, Reino Unido, França, Países Baixos e Bélgica, nações que exploraram colônias no continente africano e/ou atuaram na consolidação do tráfico de escravizados, abstiveram-se. Que mensagem enviam ao presente ao se recusarem a nomear como crime máximo aquilo de que foram protagonistas?
Voltando a Vladimir Safatle e Aimé Césaire, neste “fascismo restrito”, o reconhecimento da escravidão como crime contra a humanidade pode ser mais do que um gesto voltado ao passado, mas um convite a olhar o presente e perguntar onde essa mesma lógica continua operando, onde a violência colonial se manifesta no século XXI.
A história colonial nos ensina que a desumanização não desaparece, ela se reorganiza. Talvez, por isso, esse reconhecimento encontre tanta resistência: nomear esse crime não é apenas olhar para trás, é desestabilizar os véus políticos-humanitários do presente. Porque, uma vez nomeado, torna-se impossível não perguntar por que certas vidas continuam a poder ser destruídas sem que o mundo intervenha. O que assistimos hoje em Gaza não é a repetição da história, mas a sua continuidade.
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