Letra Pequena: a importância de se chamar Alma

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Algo raro em livros para infância, o surreal habita aqui, misturado com humor. Alma é uma criança imaginativa, como todas, mas o seu nome pregou-lhe uma partida. De visita à quinta da tia-avó nas férias de Verão, a menina via da janela o cemitério da aldeia. Foi aí que escutou um discurso fúnebre. “A nossa Alma morreu. Nunca mais nos veremos, mas brilhará para sempre na nossa memória.”

Pensou: “Mas a Alma sou eu.” Logo, nunca mais ninguém a veria. Certa de que tinha morrido, convenceu-se de que era invisível. Felizmente que o seu gato, primeiro, e a tia-avó, depois, fizeram-lhe perceber que continuava a existir.

O bichano pôs as unhas de fora e arranhou-a num braço e a tia-avó conseguiu ver o ferimento. Isso baralhou Alma, que pensava que ninguém a podia ver.

Foi à mesa que a tia-avó lhe ensinou uma espécie de ditado: “Quando uma pessoa morre, diz-se que pousou a colher.” Isto porque depois de morta já não precisa de colher para comer. Não come de todo. Na verdade, em português, o equivalente mais fiel talvez fosse “bater as colheres”.

“A Alma subiu a um banco, abriu a lata dos bombons e tirou dois. Depois tirou mais dois”
Anete Bajare-Babcuka

Alma era “uma peixeira valente”

O certo é que a menina disse à tia-avó que estava morta, repetindo o que escutara no cemitério e acrescentando: “Tu própria disseste que os mortos já não existem. Eu só não entendo porque é que tu me consegues ver.”

O equívoco foi desfeito quando Alma ficou a saber que havia outras pessoas com o mesmo nome naquela aldeia. A que morrera “era uma peixeira valente”. Tinha o cabelo aos caracóis e usava um lenço para proteger os ouvidos do vento. “Tinha um fumeiro de arenques. Antes de os enfiar nos espetos, punha os óculos para não ficar tudo torto. Quando se ria, o sorriso ia de orelha a orelha”, disse-lhe a tia-avó.

Transmitiu-lhe ainda a ideia de que “não é verdade que os mortos deixam completamente de existir. Enquanto alguém se lembrar deles, continuam a existir”. Ou, como fora dito no discurso fúnebre, brilharão para sempre na nossa memória.

Um livro que fala da morte com naturalidade e sensibilidade e que é assinado por duas autoras da Letónia. Inese Zandere é uma das mais importantes autoras de literatura infanto-juvenil naquele país, tendo recebido já vários prémios.

Anete Bajāre-Babčuka é formada em Cultura e Design Gráfico pela Academia das Artes da Letónia. O cruzamento entre o real e o surreal é uma das suas principais formas de expressão, pelo que este livro se adequa na perfeição ao seu universo.

“Vês como o gato me arranhou o braço? — perguntou a Alma. — Não, não vejo — respondeu a tia-avó. ‘Eu não existo mesmo…’”
Anete Bajare-Babcuka

Duas Almas venceu o Golden Apple da Bienal de Bratislava e faz parte dos 21 livros que o júri do prémio Hans Christian Andersen, promovido pela International Board on Books for Young People (IBBY), recomendou entre as obras dos autores nomeados para a edição de 2026. Inese Zandere foi a escolha do IBBY Letónia.

“Esta selecção internacional reúne títulos considerados especialmente relevantes para a promoção de pontes de compreensão entre culturas, incentivando a sua tradução e circulação global junto de jovens leitores”, escreve a Direcção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas (DGLAB), ao anunciar que o livro Os Sete Cabritinhos, com texto de Tareixa Alonso e ilustração de Teresa Lima (editado pela OQO Editora), também foi um dos recomendados.

Teresa Lima e Alice Vieira foram as candidatas ao Prémio Hans Christian Andersen escolhidas pelo IBBY Portugal/Observatório de Leitura de Pombal (de que fazemos parte), em conjunto com a DGLAB, Universidade do Minho e Rede de Bibliotecas Escolares, para a edição deste ano.

Quanto à pequena Alma, continua bem viva e com uma imaginação sem limites.


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