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Por muitos anos, vivi em Brasília a experiência do cronista sem rua. Isto porque na capital federal as pessoas só se deslocam sobre quatro rodas. Quando se sai a pé é para exercitar o físico antes de ir à repartição, ou depois. Caminha-se, mas há sempre um objetivo claro e pragmático nesse caminhar. Uma finalidade corpórea. Veloz e para frente, sem perder tempo com distrações e eventos colaterais, pois ou é o relógio-ponto que chama ou é a noite que já começa a cair.
Algum tempo depois de Brasília, veio a pandemia e tive outra experiência longe da rua, então como cronista home-office, conectado à vida por sondas de fibra ótica por onde passavam bits terapêuticos. É bem verdade que os dias de cronista em quarentena foram breves, pois passei todo o período pandêmico na China, o lugar mais seguro do mundo depois que o vírus foi proibido pelas autoridades locais de deixar a cidade de Wuhan.
Mas se o vírus foi contido, o mesmo não se pode dizer do hábito de navegar nas redes sociais, que viralizou. A rua continuava ali, atrás da janela, mas as redes se tornaram incontornáveis. Novas vias por onde transitar em busca de temas, personagens, revelações, estalos e lampejos. O cronista passou a se mover por becos virtuais, bisbilhotar as vidas de moradores e transeuntes do espaço digital. Rola a página ladeira abaixo, clica na moça que passa, salva uma story para escrever sobre ela depois.
Foi assim que, durante um passeio numa tarde de junho, dei de cara com o primeiro de uma enxurrada de posts sobre o “herói indonésio”. O “herói indonésio” é uma das pessoas que participaram do resgate do corpo de uma turista brasileira, morta ao cair por um desfiladeiro em um vulcão na ilha de Lombok, no país asiático. Teria sido o primeiro a encontrar o corpo. Teria ficado ao lado dele, cuidando para que não escorregasse montanha abaixo até o restante da equipe de resgate chegar ao local. Enquanto ao lado do corpo, o herói estaria fumando um cigarro.
Entre as dezenas de loas feitas ao rapaz desconhecido, uma senhora escreveu: “Ele só tinha um cigarro e uma missão. Que Deus abençoe esse homem e que nunca lhe falte cigarro.” “Que coisa mais linda!”, eu comentei, pretendendo ser sarcástico. Em vão: as pessoas me aplaudiram, mandaram corações, todos genuinamente comovidos com o “herói indonésio”.
Em agosto, na data de nascimento de Nelson Rodrigues, encontrei no Instagram uma foto do escritor com a citação “Não há pior forma de solidão do que a companhia de um paulista”. Não sei por que, entre tantas frases, o autor da publicação escolheu essa. Talvez tenha desejado ser tão provocador quanto o homenageado. Não importa. O fato é que usuários da rede, que certamente jamais leram um livro de Nelson, comentaram: “Eu sou do Nordeste, mas adoro morar em São Paulo.” E: “Eu nasci em São Paulo e não pretendo sair daqui nunca.” Navegar é preciso, entender não é preciso.
Num dia de redes movimentadas, scrollei alguns passos e me deparei com a notícia de uma mulher atropelada por um comboio em uma estação na Turquia. O texto sequer informava em que cidade da Turquia, mas isso também não importa, uma vez que para a maioria das pessoas só há dois lugares no mundo: aqui e onde não é aqui, também conhecido como “lá”, onde vivem os outros.
Ninguém sabia nada sobre essa mulher, a matéria não revelava coisa alguma sobre ela – se era surda, se estava fugindo, se foi empurrada pelo ex-namorado valentão –, mas mesmo assim a turba se aglomerou em torno do cadáver e se pôs a vociferar: “Mas que imbecil, nem olhou para os lados!” E outro: “Ela estava usando fones de ouvido!” E mais outro: “Eu ando há quarenta anos com fones de ouvido e nunca me distraí, nunca atravessei uma rua sem olhar para os lados!” E mais um festival de reações autorreferentes e narcisistas.
Nas ruas virtuais também há cenas cômicas, como a postagem de um comercial premiado da cola Super Bonder, em que um goleiro, após falhar na defesa de duas cobranças de pênalti, tem uma ideia genial: passa Super Bonder nas luvas para que a bola grude em suas mãos. Só que antes do chute, num gesto clássico de preparação para a cobrança, ele entrelaça as mãos enluvadas na altura do peito, as mãos se colam e, para seu desespero, a bola entra mais uma vez.
Comentário de um usuário-torcedor-espectador: “Achei sem graça essa piada. Teria sido mais engraçado se ele tivesse passado cola nas luvas e a bola tivesse grudado nelas.” Alguém tentou socorrê-lo, explicando com paciência, até com ternura, que a defesa da penalidade era o que todos esperavam e que, portanto, o gesto de unir as mãos foi o que causou o desfecho cômico e surpreendente do filme. Mas o rapaz se ofendeu, emburrou, embirrou: “Não gostei. Teria sido mais engraçado do outro jeito.”
Sou apenas um cronista, um mero flanador nessas aleias virtuais – como nas reais, que felizmente não abandonei–, e fico a imaginar o que pensa de tudo isso quem realmente manda. Os donos das redes e seus anunciantes, que são também os donos do mundo. Imagino-os a olhar fascinados para a população da urbe digital que criaram. A sorrir de sua ignorância e vulnerabilidade. Capazes de acreditar em qualquer coisa. Capazes de comprar qualquer coisa. A expressão livre de suas opiniões serve de medidor confiável do quanto mais ainda se pode avançar.
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