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A empreendedora brasileira Gleydssiane Gomes sempre trabalhou em hotéis, padarias e restaurantes. Há dois anos, abriu a própria pastelaria em Alcácer do Sal, no distrito de Setúbal. No início de fevereiro deste ano, porém, as fortes chuvas que atingiram Portugal provocaram inundação na cidade e ela perdeu quase tudo. Conseguiu salvar apenas o forno — adquirido no último verão — e, a partir dele, trabalha para reconstruir a história que começou a escrever há alguns anos, com o talento culinário herdado da mãe e da avó.
Natural de Ipatinga, em Minas Gerais, Gleydssiane já mora pela segunda vez em Portugal. Chegou ao país pela primeira vez em junho de 2006, regressou ao Brasil em 2013 e retornou definitivamente a Portugal três anos depois. Desde então, fixou-se em Alcácer do Sal, sempre batalhando para garantir o sustento da casa.
O embrião do próprio negócio surgiu em 2018, após uma cirurgia no pé que obrigou a mineira a se afastar pela primeira vez do trabalho, como ela diz. Para ocupar o tempo durante a recuperação, começou a preparar bolos no pote e a vendê-los a conhecidos. Restabelecida, retomou o emprego no hotel em que dava expediente e interrompeu a produção caseira, apesar da procura.
Tradição familiar
Em 2020, durante uma gravidez de risco, Gleydssiane teve que novamente se afastar das atividades profissionais, que lhe demandavam muito esforço físico. Incentivada por uma amiga, voltou a fazer os bolos em casa. A tradição familiar ajudou: a mãe é cozinheira profissional e a avó era uma quituteira de primeira. No verão daquele ano, ampliou o cardápio: vieram os brigadeiros, os minisalgados, os bolos maiores.
O filho nasceu no início de 2021. Ainda no hospital, a brasileira recebia mensagens de clientes interessados em novas encomendas. Em 8 de março de 2021, Dia Internacional da Mulher, produziu um buquê de brigadeiros banhados em chocolate, que impulsionou a divulgação boca a boca do produto. À época, trabalhava em um supermercado e, depois, ingressou em uma empresa de limpezas. A rotina passou a ser dupla: saía das faxinas e seguia direto para a cozinha de casa para dar conta das encomendas.
A decisão de empreender veio da constatação de que já não se via distante da produção de bolos e salgados. Ao conhecer a proprietária de um imóvel disponível para arrendamento, decidiu avançar. A Pastelaria Pedacinho de Amor foi inaugurada no final de 2023, em Alcácer do Sal, com várias receitas que vêm de família.
Arquivo pessoal
“O nome da loja surgiu quando eu estava grávida e voltei a fazer os bolos. Minhas amigas disseram que eu deveria fazer uma página na internet para divulgar o trabalho. Uma delas disse: ‘Já que fazes os bolos para te acalmares e esqueceres dos problemas, por que a página não se chama Pedacinho de Amor?’. Eu gostei e ficou esse o nome da página e depois da pastelaria”, relembra a mineira.
Aposta no diferencial
O diferencial escolhido foram os minibolos individuais, com sabores variados. “Quando abri a pastelaria, pensei: não vou simplesmente fazer bolos inteiros e colocar na vitrine. Quem comprar, vai levar e alguém vai dizer: ‘Esse produto é da Gley, veio do Pedacinho de Amor’. Então, comecei a pesquisar e, ao invés de fazer bolos grandes, vou fazer bolos individuais, os minibolos com sabores variados”, assinala.
Um dos sabores favoritos dos clientes, diz ela, sempre foi o “pedacinho de amor”, um bolo de chocolate, com recheio de brigadeiro de leite Ninho, Nutella e paçoca. O cardápio da pastelaria incluía ainda brigadeiros, cookies, rocambole de doce de leite, coxinhas, salgados de pizza assados, empadas, enroladinhos, pão de queijo, tapiocas e pastéis.
Desde o início do negócio, os portugueses sempre foram os principais clientes. “Algumas vezes, os clientes perguntavam por que não havia pastel de nata?. E respondia: porque esse doce pode ser encontrado nos supermercados e em muitos outros lugares. Eu queria ter sempre diferenciais”, afirma.
A inundação
O negócio seguia prosperando até que as chuvas de inverno se intensificaram em Alcácer do Sal. Inicialmente, de acordo com a empresária mineira, as águas das enchentes se mantiveram a cerca de 50 metros da pastelaria. Em 3 de fevereiro, a Câmara Municipal distribuiu sacos de areia aos moradores como alternativa para conter o avanço do rio que corta a cidade. No dia 4, o nível subiu rapidamente e alcançou a praça próxima ao estabelecimento.
A loja possui dois pisos: o inferior, destinado à cozinha e ao armazém, e o superior, para atendimento aos clientes. Na noite de 4 de fevereiro, após o expediente, ela e o marido, o português Hugo Carvalho, foram para a casa do sogro dela, pois o acesso à residência deles estava bloqueado.
Mais tarde, decidiram voltar à pastelaria. A água já lhes batia nos joelhos. Os quase 20 sacos de areia colocados na entrada foram insuficientes para conter a enxurrada. No piso inferior, a geladeira foi atingida e o forno estava a apenas 30 centímetros de altura das águas.
Conseguiram salvar o forno, mas perderam vários eletrodomésticos e documentos. Na manhã de 5 de fevereiro, o piso inferior ficou com água até o teto e o superior, acima da cintura. “A gente ainda não conseguiu reabrir a pastelaria. Está fechada há um mês. O prejuízo foi de cerca de 24 mil euros. É um valor que raramente a pessoa tem guardado, porque não espera que uma coisa dessa vá acontecer. Mas estamos nos empenhando para reabrir a loja e vamos recuperar tudo”, diz Gleydssiane.
Desistir, jamais
Desde então, a brasileira produz seus quitutes em casa, sob encomenda. A capacidade atual é de produção limitada pelo espaço. Ela acrescenta que, nessas condições o recomeço é difícil, mas a perseverança e a fé são mais fortes. Uma batedeira profissional, por exemplo, ela informa que não custa menos que 300 euros, entre outros equipamentos, como a vitrine refrigerada onde ficam os bolos, que também foi danificada.
“A minha preocupação maior, quando vi a pastelaria alagada, foi salvar o forno, que é o item essencial no nosso trabalho. Falei: salvei o forno e, a partir dele, vou atender as encomendas e seguir em frente”. Desistir, segundo ela, está fora de cogitação.
O verbo a faz lembrar do início de tudo: “Quando anunciei a abertura da pastelaria, em 2023, teve gente que dizia que eu deveria desistir, pois não daria certo. Outros diziam que duraria só três meses. E estamos aqui. Aconteceu esse problema por causa das chuvas, mas somos trabalhadores e confio na fidelidade dos meus clientes para conquistar tudo de novo”.
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