O cão repara na minha presença, espeta as orelhas e olha-me com interesse, esticando ligeiramente a trela. A senhora alta que o segura interrompe a conversa com outra senhora igualmente alta e roda a cabeça à procura do motivo da súbita inquietação do animal. Ao ver-me de máquina fotográfica na mão, sorri. «Pode fotografar à vontade», diz, vaidosa do canídeo, num português claro, mas com um sotaque centro-europeu, talvez holandês. Agradeço, e digo-lhe que não estou interessado em fotografar o cão, que agora me rosna. Amarelado o sorriso, a senhora retoma a conversa. Resguardado da chuva miudinha debaixo de uma varanda estreita, aguardo que o trio se afaste para poder fotografar a estátua do poeta António Aleixo, sentado na esplanada. Por sorte, e certamente por compromisso, um funcionário da câmara aproxima-se com o soprador de folhas. O cão assusta-se e rosna e ladra, furibundo, inviabilizando a conversa das senhoras, que segundos depois se despedem com um abraço.
— Ainda bem que se foram. Já não as podia ouvir. E o cão a ladrar então… Antes o soprador —, desabafa o poeta, molhado da cabeça aos pés.
— Devia sair da chuva. Já está com o pingo no nariz, vai constipar-se —, aconselho.
Do seu silêncio repentino concluo que tinha pouca (nenhuma) vontade de conversar. Resguardo-me no Calcinha, onde ocupo uma mesa no centro da sala. No ar, um aconchegante aroma a café acabado de moer. A decoração do espaço é uma viagem no tempo: mesas de tampo de mármore e pés de madeira, cadeiras espartanas à antiga, também de madeira. O teto, pintado em rosa-pálido, está ornamentado com um medalhão central e um friso de pequenos losangos dourados, e o mármore reveste tanto o chão como um rodapé com mais de meio metro de altura. Ao fundo da sala, junto ao balcão, há três dispensadores transparentes, cheios de grãos de café: Etiópia, Colômbia e Brasil. Escolho o do meio: Colômbia.
Há tempos, um empregado de um café em Lisboa, oriundo de Plato, na Colômbia, contou-me uma lenda da sua terra: O Homem Jacaré. Um pescador chamado Saul, fascinado pelas mulheres que se banhavam no rio Magdalena, pediu a um feiticeiro uma poção para se transformar em jacaré e assim as poder espiar. Mas o feitiço não correu como planeado, e ele ficou metade homem, metade jacaré. Esqueci-me de lhe perguntar qual das metades ficou jacaré e vice-versa. Dúvida irrelevante. É só uma lenda e que eu saiba não há jacarés em Loulé.
A reflexão esvai-se perante a algaraviada de quatro homens a discutirem o Porto versus Sporting da véspera. “Eu também joguei, sei como se faz”, gaba-se um dos homens, pondo-se de pé. Vendo-lhe a proeminente barriga, duvida-se. “Claro, tu é que sabes. Por isso é que viste o jogo em casa e eles estiveram lá a jogar”, responde outro mais novo. Disparam gargalhadas altas, abertas, esplêndidas. “Eu era magro pá, acredita se quiseres”, defende-se o barrigudo. “Está bem, eu acredito, mas dá cá mas é um bacalhau”, diz o piadista. O quarteto abandona o café no instante em que o empregado pousa na minha mesa o café e o folhado de Loulé.
Com a sala em silêncio, trinco o doce estaladiço, macio e húmido. Uma delícia. Beberrico o café ainda a fumegar e observo o poeta sentado na esplanada. Se não chovesse, sentava-me lá com ele. Uma torrada passa a centímetros do meu nariz em direção à mesa onde estão dois casais de estrangeiros — um jovem e outro mais velho — e dois bebés. Um deles está ao colo da mãe e não deve ter mais de dois meses. Chora aos berros, o pobrezinho. O pai, envergonhado, encosta-lhe o pastel de nata nos lábios, mas nem assim a criança se cala.
Subo ao mercado. À porta, meia dúzia de homens fumam em silêncio, indiferentes à morrinha. Um deles, como que acordando para uma urgência, atira o cigarro para o cinzeiro e afasta-se. “Então pá, vais-te embora e não dizes nada à gente?” “Já volto, vou só ver os mortos.” Intrigado, sigo-o. Na esquina do mercado, confere os que partiram. Não está sozinho. Outros três homens trocam impressões sobre o obituário. Um deles nota a minha atenção. “Mau será o dia em que vou encontrar a minha fotografia aqui”, diz-me, sorrindo. Retribuo e despeço-me, impreparado para tanta leveza face à finitude.
Entro no mercado. Não há muita gente e diversas bancas estão tapadas. Veem-se frascos de mel de vários tamanhos e proveniências, bem como arranjos de figos secos e amêndoas. Há também bolachas de alfarroba e de outros cereais, doces regionais algarvios, e uma variedade de frutos secos como nozes, passas e pinhões. Há ainda abacate, kiwi, laranjas, dióspiros, uvas, pêras e maçãs, azeite e azeitonas, pão e filhoses. O cheiro do ar é uma miscelânea de aromas de frutas secas e frescas, fritos, pão e peixe. Um par de crianças estrangeiras grita enquanto gatinha no chão do mercado. Os pais sorriem, indiferentes ao chão húmido.
Compro uma filhó à dona Beatriz Guerreiro, decana do mercado. “Vim para esta banca quando tinha 60 anos para o lugar da minha mãe. Agora tenho 88.” “Quem faz as filhoses?”, pergunto, segurando o doce retangular e estaladiço, de palmo e meio de comprimento por um de largura. “Faço-as eu e frito-as de madrugada. E também faço os bolos.” Peço permissão para lhe tirar uma fotografia. “Tire à vontade. Tiram-me muitas. Um dia o meu neto ligou-me a dizer que me estava a ver na televisão. Disse-lhe que tivesse respeitinho que eu sou do jet set.” Despeço-me já com a filhó a caminho da boca. Mãos de fada, dona Beatriz.
O autor escreve segundo o Acordo Ortográfico de 1990
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