Herodes e Pilatos, que eram inimigos, tornaram-se amigos nesse dia. (Lc 23,12)
Dito assim, até parece bom: dois inimigos que se tornam amigos. Só que este não é um valor absoluto. Herodes, rei fantoche na Galileia, num território ocupado pela potência romana que Pilatos representa, eram inimigos mortais. Tornam-se amigos e aliados para condenar à morte um inocente, Jesus, que passou fazendo o bem, fosse sábado ou não (isto é, fosse legal ou não, segundo a lei judaica, aliás um dos crimes pelo qual os chefes dos judeus lhe quiseram dar a morte), mas que não hesitou em denunciar injustiças e hipocrisias.
Esta narrativa tem-se tornado perigosamente reconhecida nos tempos que correm, a nível internacional e nacional, o que prova que, às vezes, a humanidade, com memória curta, parece não evoluir em temas de justiça e respeito por cada pessoa humana, sobretudo por aqueles que o Papa Francisco reconheceu como os que vivem nas periferias… periferias económicas e sociais, culturais e existenciais. As estranhas estratégias do poder para eliminar os diferentes, os pobres, os marginalizados e para dar conforto “moral” à tirania dos poderosos: as guerras legítimas, os imigrantes que não podem viver de subsídios (como se isso fosse a prática generalizada), os ciganos que têm de cumprir a lei (só eles?)… e o discurso do ódio que se universaliza e normaliza. Por favores que se trocam.
Os cristãos, nos quais me incluo — que não esquecem tantas atrocidades feitas em nome do seu Deus e que, por isso, espero eu, não querem voltar a cometer tais pecados —, aproximam-se da sua Semana Maior, a Semana Santa em que fazem memória dos últimos dias de Jesus de Nazaré sobre a terra, em particular da sua paixão e morte. Nas narrativas da Paixão de Jesus assistimos a várias alianças vergonhosas: Herodes e Pilatos, o povo manipulado pelos seus chefes que chega a declarar que não têm outro rei senão César (haverá maior hipocrisia?) e Pilatos que se limita a lavar as mãos, mas que define a humanidade como esse ser sofredor de quem desviamos o olhar por vergonha: “eis o Homem” (tudo isso escutaremos no relato de S. João em Sexta-feira Santa).
Acreditamos que este processo terminou na sua ressurreição, mas reconheço que este é um passo de fé talvez estranho à maioria. Mas podemos encontrar-nos todos, pela nossa condição humana comum, na reflexão sobre o seu iníquo processo judicial, a sua apressada condenação à morte, a sua cruel execução tal como tem acontecido ao longo dos tempos e dos lugares a tantos justos. E porque a morte e o sofrimento dos inocentes é uma das nossas maiores perplexidades.
Por isso me detenho agora na estranha aliança entre o PSD (partido social-democrata, para que não esqueçamos), o CDS (de matriz democrata-cristã, idem) e o Chega (partido populista de extrema-direita, o tal das linhas vermelhas e do “não é não”) para reverter direitos já estabelecidos e reconhecidos para as pessoas transexuais e transgénero. Correndo o risco de fazer propaganda da concorrência, remeto para a leitura do artigo de João Costa no Expresso online de 23 de março (se bem que, nos tempos que correm, os media que fazem jornalismo sério tornaram-se aliados e não concorrentes e eu faço por isso, já que assino os dois). Quanto ao artigo, subscrevo-o inteiramente e vale a pena ser lido.
Aqui só quero ressaltar que não foram tidos em conta os pareceres de organizações internacionais idóneas no âmbito da saúde e dos direitos humanos, nem ouvidas nenhumas instâncias científicas sobre este tema, nem as famílias e as pessoas diretamente afetadas. E quero testemunhar, porque tenho podido acompanhar, o profundo sofrimento, a solidão, a incompreensão, tantas vezes a dupla vergonha (a que vem do interior e a que se lhes atira de fora) das famílias e das pessoas que passam por estas problemáticas e que, repito, não foram sequer escutadas nesta reversão legislativa. Por simples humanidade (que não é simples), escutemo-los.
Senhor Presidente da República, escute-os. E, já agora, escute-nos: os mais indefesos são os que mais precisam da proteção de leis justas, e esta não o é.
E boa Páscoa.
A autora escreve segundo o acordo ortográfico de 1990
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