Todas as coisas com moderação, incluindo a moderação, diz a famosa frase atribuída a Oscar Wilde.
Nos últimos tempos cortei o açúcar, o álcool, os fritos, comecei a ter uma preocupação maior com as horas de sono, a ir ao ginásio com uma disciplina que nunca imaginei possuir, a experimentar jejuns.
É claro que há inegáveis benefícios. Mas eu sou fã de um conceito muito importante no mundo das dietas que é “o dia da asneira”. Um intervalo na moral alimentar, uma pequena suspensão da lei.
Não consigo conceber uma vida cem por cento disciplinada, sem o menor descontrolo, sem esses pequenos momentos de indisciplina.
A rotina, suspeito, existe em grande parte para que possa ser quebrada. O prazer da quebra depende da existência prévia da regra. Um bolo de chocolate é sempre bom, mas torna-se extraordinário quando é ligeiramente proibido. Nada de novo aqui.
Durante séculos, a moderação foi apresentada como uma virtude central da civilização. A ética antiga chamava-lhe medida. Os gregos falavam do métron, a delicada arte de não ultrapassar o ponto justo. Aristóteles construiu uma teoria inteira em torno de que a virtude estaria no meio-termo, entre o excesso e a falta. A coragem ficaria algures entre a cobardia e a temeridade; e a generosidade, entre a avareza e o desperdício.
Seguindo os preceitos da moderação, é no entanto inegável que quase tudo o que admiramos no mundo nasceu de algum tipo de excesso. É difícil um escritor escrever um romance com moderação. Ninguém se apaixona com moderação. A própria infância é um território de absoluto desrespeito pela moderação. As crianças riem demasiado alto, fazem perguntas demais, choram demais. Uma criança moderada seria, na verdade, uma criança ligeiramente preocupante.
O problema da moderação é que ela é muito útil, mas raramente serve para criar. A literatura, por exemplo, nasce quase sempre de algum desajuste. Um escritor escreve porque há qualquer coisa dentro dele que não está bem regulada. Um excesso de memória, um excesso de imaginação, de perguntas ou de silêncio. Ninguém decide escrever um livro porque tudo está perfeitamente equilibrado. A escrita é uma actividade profundamente irrazoável.
E o amor raramente respeita o meio-termo aristotélico. O amor é quase sempre um pequeno desastre de proporções. Escrever mensagens demasiado longas, esperar demasiado por uma resposta, ouvir a mesma música vinte vezes seguidas, pensar demasiado numa pessoa. É um conjunto de excessos: demasiada expectativa, demasiada imaginação, demasiada confiança na capacidade do mundo para corresponder ao nosso entusiasmo. Transforma-nos em exagerados, como na música do Cazuza. Se o amor fosse moderado, provavelmente chamar-se-ia apenas simpatia.
Lembro-me de uma parábola em que um discípulo perguntou ao mestre como deveria disparar um arco e o mestre respondeu: “Se o arco estiver demasiado frouxo, a flecha não parte. Se estiver demasiado tenso, o arco quebra.”
Disciplina a menos impede qualquer direção, demasiada disciplina pode partir-nos.
Há excessos perigosos e há excessos necessários. Sem alguns excessos, a vida tornar-se-ia um território perfeitamente regulado. Um mundo de comportamentos correctos, emoções calibradas, paixões higienizadas e entusiasmos em doses homeopáticas. Seria um mundo hiper saudável, mas muito aborrecido.
É possível que a moderação seja uma excelente regra para o corpo e uma péssima regra para o espírito. O corpo agradece refeições equilibradas, horas de sono, abstinência e caminhadas moderadas. O espírito, pelo contrário, precisa de algum tipo de vertigem. Precisa de curiosidade quase inconveniente e de entusiasmos ligeiramente desproporcionados.
Algumas das coisas mais importantes da vida começam precisamente no momento em que alguém decide exagerar um pouco.
A autora escreve segundo o Acordo Ortográfico de 1990
Disclaimer : This story is auto aggregated by a computer programme and has not been created or edited by DOWNTHENEWS. Publisher: feeds.feedburner.com









