Na diáspora contra Ventura, pela liberdade

0
1

Nesta terra cá fora, lá fora, onde o Inverno persiste nas ruas e nas casas, e o dever começa sempre mais cedo, e cada vez mais cedo, sou o português, sou o sotaque, o nome estranho, João, três vogais de carrinho impossíveis de pronunciar e cuja presença é apenas tolerada enquanto for útil.

Por esta razão, e porque o futuro é cada vez mais incerto, teimo em votar.

No pub da esquina ninguém fala das eleições portuguesas: Portugal é apenas um destino de férias e por demais distante. Falam dos supermercados e dos bens alimentares cada vez mais caros, falam de empregos perdidos numa economia teimosamente trôpega apesar do novo governo, falam dos colegas ainda por voltar após meter baixa.

E, mesmo assim, entre duas palavras nem por isso minhas, chega-me Portugal pelo telemóvel em mensagens, em notícias, em vozes a discutir à distância num país feito fotografia antiga e esbatida, perdida algures entre o bolso e a carteira.

As parangonas ecoam um nome: Ventura. Ventura e a pressa de culpar mais a necessidade de apontar um dedo para existir, igual a tantos outros Venturas noutras terras, Inglaterra incluída, cujas línguas, apesar de diferentes, são iguais: sempre convencidos de como a liberdade dos outros existe apenas para tirar quanto é seu por direito, e o direito é divino.

Fiquei assim a saber dos números dos votos no candidato apoiado pelo Chega, o candidato mais votado nos círculos da emigração, e eu a sentir este aperto, como se alguém tivesse fechado uma porta sem avisar.

Pergunto-me quem vota assim e porquê. Pergunto-me se é por raiva, se por abandono, se pela sensação de ninguém estar à escuta.
E não está, não cá fora onde rapidamente se aprende a não ter ninguém com quem contar. Mas uma coisa é a solidão, outra é a vontade de excluir.

E olhar para Portugal, apesar da distância, é ver não apenas o país mas uma maneira de olhar o outro como um intruso. Tal e qual como aqui entre olhares de lado e comentários ininteligíveis, nem por isso tolerantes, antes resignados, e resignados por enquanto.
O tempo conta a seu favor.

Penso em quem comigo trabalha, pessoas vindas de tantos lugares e, apesar de tudo, capazes de caber, mas não só, de partilhar a mesma sala, a mesma mesa, e não consigo aceitar um futuro capaz de as recusar.

Um futuro sem lugar para a comunidade LGBTQIA+ mais o fim da diversidade de género num país onde a palavra inclusão dá lugar à repressão e à ameaça de direitos humanos fundamentais. E a violência legitimada quando se quer “limpar a nação”, justificando agressões, intimidação e terrorismo interno.

Penso nas mulheres de volta ao interior das casas como móveis antigos. Se trabalham são suspeitas e a autonomia é uma afronta. Já não são mulheres, são úteros com bandeira, mães da nação, peças de um altar doméstico onde quem manda é o chefe de família, figura solene e o eco de um chefe maior, o do país inteiro.

O feminismo feito inimigo, acusado de destruir lares, de enfraquecer homens, como se a fragilidade masculina precisasse sempre de algemas para sobreviver. A gravidez a deixar de ser uma escolha, o Estado é quem decide, as mulheres obedecem e o seu corpo já não é seu, é território ocupado.

No trabalho, trabalha-se. Só isso. A greve proibida, os sindicatos vigiados, a palavra direito riscada a azul do vocabulário. As eleições, se existirem, existirão como encenação. Um voto só, obediente, sem desvio, sem pergunta. Um líder apenas, pesado, definitivo, com autoridade sobre tudo, até sobre quando, e como, respirar.

A igualdade passa a ameaça, a diversidade é um alvo, a liberdade um rumor antigo contado pelos do antigamente e tudo isto em oposição à Constituição portuguesa, violando tratados europeus, reprimindo direitos humanos fundamentais e de modo algum representando a sociedade portuguesa, para não dizer a Humanidade.

Aliás, a representar alguém, estes princípios representam uma minoria radical cujo modus operandi vive da provocação e do ódio.
Não vivo em Portugal, mas Portugal vive comigo. Vivo na culpa de ter partido e na necessidade constante de justificar a minha ausência, como se emigrar fosse uma falha moral. Vivo também a memória de um país a aprender tarde demais o significado da palavra liberdade e, ao mesmo tempo, disposto a esquecê-la depressa.

Aqui voto presencialmente e o boletim não é apenas uma carta, é esperança, mesmo se somos poucos a fazê-lo: pouco mais de 71.000, dizem, entre um milhão e meio de eleitores recenseados. Poucos. Sempre poucos. Mas talvez votar seja isso mesmo, um pequeno gesto contra o retrocesso, um boletim de cada vez, em nome de uma terra onde a liberdade se arrisca a ser um luxo, onde a diferença equivale à culpa e o medo quer ser lei.

Disclaimer : This story is auto aggregated by a computer programme and has not been created or edited by DOWNTHENEWS. Publisher: feeds.feedburner.com